Contribuir small-arrow
Voltar à home
Conheçam

Capicua

Descubram

Equal.STEAM

Leiam também

Reportagem Festival no Feminino

Capicua: «As crianças são o público mais punk que existe»

Conversámos com a música e letrista que diz que é feminista desde pequenina e que pensa deixar os palcos por uns tempos para se dedicar só à escrita, sobretudo para crianças.

Partilha

Fotografia: Mário Canelas, Filipa Queiroz

Conheçam

Capicua

Descubram

Equal.STEAM

Leiam também

Reportagem Festival no Feminino

Sempre foi «mais Mafalda do que Susaninha», como diz a canção. Antes de aprender a escrever já gostava de palavras, rimas e brincadeiras com a linguagem. O pai dizia palavras ao contrário e a mãe contava-lhe lengalengas. Na escola o que mais gostava eram as composições. Divertia-se com a linguagem como com peças de Lego e, hoje, diz que escrever é a forma não só de se expressar como de absorver os impactos e desconfortos da existência, dar sentido às angústias. «Não conseguia ser uma pessoa com saúde mental se me impedissem de escrever. Não consigo sequer conceber uma existência sem escrita.»

As conversas que ouvia dos pais com os amigos acenderam o rastilho para Ana Matos Fernandes se politizar e se tornar feminista, ecologista e à esquerda da vida na adolescência. Fez parte de movimentos como o SOS Racismo, o Partido Socialista Revolucionário e lançou-se às ruas do seu Porto de abrigo – onde por mais que viaje acaba sempre por voltar – e desenhar o primeiro grafitti com uma mensagem feminista. Pouco depois, estava a cantar o Lobo Mau. É que apesar de querer ser jornalista, acabou por se tornar socióloga, doutorar-se em Geografia Humana, mas celebrizar-se como…rapper. Capicua desde 2008, fez caminho na tribo democrática do hip hop, «que destrói a ideia de que a poesia é aquela a coisa que está nas bibliotecas com lombada de couro e no Olimpo dos intelectuais», mas que também é predominantemente masculina e onde os colegas «não sabiam se haviam de lidar com elas como com os bros» e «a cena [no Porto] era tão pequena que cabia toda no mesmo barzinho».

Em 2012, rebentou a bolha e transformou a sigla MC (mestre de cerimónias) em Maria Capaz, um dos temas com maior sucesso. Mas, para ela, o disco mais importante é o último, Madrepérola (2020), ofuscado pela pandemia mas considerado dos melhores do ano pela crítica e vencedor do Prémio José Afonso. A maternidade – e toda a transformação identitária e «treino para os comandos» que envolve – deu o «trangolomango» nela. Capicua não se tem travado em falar abertamente sobre isso e acender ainda mais a luta contra o machismo e pela igualdade de género. «É muito importante que as mulheres ganhem espaço na música, na arte, na literatura, no cinema e que venham contar essas experiências. Estes últimos milénios estivemos apartadas dos microfones, do espaço público e da História, mas as histórias das mulheres que estiveram durante esses anos a girar tachos e limpar rabos não foram contadas.»

A música, letrista e autora admite que neste momento está com pouca vontade de cantar, mas muita de escrever. Lançou no ano passado o primeiro livro, Aquário (Companhia das Letras, 2022), com as crónicas publicadas ao longo de seis anos na Revista Visão, poesias, letras de canções e pequenos textos. Lançou também Mão Verde (2021) e Mão Verde II (2022), livros-disco ecologistas «para verdes e maduros», o segundo distinguido com uma menção especial no Onomatopeia – Festival de Literatura Infantojuvenil de Valongo. Assistimos à conversa aberta com a artista na RUC, a 1 de Junho, Dia Mundial da Criança, inserida nos Equality Days, do projecto Equal.STEAM da Universidade de Coimbra e, no fim, fizemos-lhe algumas perguntas.

Filipa Queiroz: Disseste que, em relação ao rap, que não te preocupas em influenciar as pessoas do ponto de vista estético ou musical mas provar que é possível abrir espaço. Também que estás a pensar dedicar-te mais à escrita, sobretudo para crianças. No teu trabalho Mão Verde a ecologia foi o prato principal, pensas explorar mais a igualdade de género e o feminismo junto ao público mais jovem?

Ana Matos Fernandes: Já vai havendo espaço para falar sobre temas como a identidade e de género. É na infância que se estrutura uma grande parte daquilo que são os condicionamentos, os arquétipos de género e aquilo que está muitas vezes associado ao que é a masculinidade, performativa até, nas crianças, nos rapazes. Toda a questão do que é que são brinquedos para menina e brinquedos para menino. As características elogiadas nos rapazes e nas raparigas. Acho que a infância é um momento estratégico para criar pessoas menos condicionadas, mais livres e com mais consciência daquilo que é não só a igualdade mas a liberdade de ser.

A música para a infância, os livros para infância têm que ser bem feitos, bem escolhidos. Sobretudo os pais têm de fazer essa curadoria, consoante aquilo que são as suas convicções, obviamente, mas acho que é importante – e eu como mãe recente também o faço – porque às vezes é preciso mesmo desarmadilhar e contextualizar aquilo que depois é experiência no mundo lá fora. E quanto mais fortes forem os alicerces que criamos e a capacidade de pensar aquilo que vai acontecendo, contextualizar, explicar e desarmadilhar alguns mecanismos, alguns automatismos, algumas coisas que são influências externas, muitas vezes nefastas e até repressivas, acho que é importante. No meu caso, quando escrevo habitualmente vou tocando nessas questões, no Mão Verde de uma forma mais directa com a ecologia mas há sempre canções, como A Fábula Não Moralista, que fala das famílias que não são ditas tradicionais, pequenas frases como no Confio Desconfio ou no Leão, são canções em que há pequenas dicas que vão desconstruindo coisas como portar como uma menina.

FQ: E gostas de cantar para as crianças?

AMF: Gosto muito porque as crianças são o público mais livre, mais punk que existe. Os putos dançam como se ninguém os estivesse a ver e não há nada mais punk do que isso. Teres uma plateia de crianças a dançar é um poder, uma liberdade, uma espontaneidade que se vai perdendo. Sobretudo às mulheres é muito pouco aconselhada culturalmente e eu acho que isso é tão bonito. Ver as crianças a dançar num concerto é mesmo fixe. A nossa proposta também é chegar a várias gerações, porque os temas da ecologia tem algumas resistências, e nós gostamos de ver que os pais também se divertem e que a música une todas as gerações e não é um frete ir a concerto de música para crianças. A música é para toda a gente, não tem de ser mais pateta ou mais simplista por ser para crianças e isso é muito fixe.

FQ: A forma como falas da tua cidade natal, o Porto, e a forma como te moldou, é muito interessante nesse aspecto. Achas importante o sentido de comunidade, de pertença e envolver as crianças nos assuntos que lhes dizem respeito?

AMF: Eu acho que essa noção de comunidade é super importante. Num mundo tão globalizado parece que as decisões, os problemas, são sempre na escala macro e nós temos pouco impacto na capacidade de mudança das coisas. Acho que se puxarmos a nossa base de acção para a escala local percebemos que de facto o nosso espaço de iniciativa e capacidade de acção podem ser muito maiores e isso é super importante. Se queremos um mundo com gente mais participativa, mais pró-activa e com mais consciência e empatia pelo outro, mais solidária, a escala local é onde se cultivam esses valores. Não é nessa coisa esmagadora de que estamos num planeta gigante que está em risco e não há nada que possamos fazer para mudar isso.

FQ: Temos um entrevistado, o Henrique Saldanha, com nove anos, que diz que todas as palavras são importantes. A música, e o rap como o que tu fazes em particular, que usa uma linguagem muito coloquial, podem contribuir para o interesse das crianças na leitura, na escrita e nos temas importantes?

AMF: Eu acho que sim. Mesmo se pegas num rapper que não tenha propriamente estudado muitos anos ou seja propriamente um intelectual há uma coisa que é comum a quase todos os rappers, pelo menos os bons, que é gostarem de palavras. Mesmo que sejam do calão do bairro e que sejam circunscritas, que as pessoas de fora não entendam as nuances, tem de haver vocabulário. Tem de haver um interesse pela prosa, pelo som, pela métrica, pelas metáforas, pelas comparações, pelas aliterações. Tem de haver interesse por isso, mesmo que não seja com o português canónico. É tecnicamente entusiasmante porque nos exige recursos linguísticos. Mesmo quem não tem um rap tão lírico ou político-social, mas competitivo ou mais street, mais da rua, tem sempre recursos linguístico e gostam de palavras.

Obviamente, as gerações hoje em dia estão expostas a muitos estímulos e se por um lado não têm tanta disponibilidade para a leitura. Têm muita cultura visual, vêem mais cinema, ouvem muita música, estão expostos a muita informação. Se conseguirmos que a partir desses estímulos se abram outros espaços para a leitura é positivo. Por exemplo, a partir do rap, se vais ouvir o Valete e há uma rima qualquer em que ele diz que foi influenciado pelo Pepetela, se calhar há um puto que vai querer saber quem é o Pepetela, sabes? Vai abrir essa janela. A música abre esses portais. Quando admiramos muito um artista vamos querer saber a árvore geneológica que o inspirou, quase como se fosse a lista de referência bibliográficas que os académicos usam para depois irem procurar mais fontes de informação em determinada área. Acho é que não podemos ter aquela atitude moralista de: “Ai, os putos não se interessam”. Eles são frutos do tempo deles e o tempo deles tem muitas coisas más e desafiantes, tal como o nosso.

Concerto no Polo II da Universidade de Coimbra, 1 de Junho 2023

FQ: Há um ano falámos com a Marta Bateira (Beatriz Gosta) que disse que foi graças a ti que se tornou feminista…

AMT: Não só por mim! Foi pelo nosso grupo de amigas, sim. Quando conhecemos a Marta ela não tinha uma rede de amigos e amigas que realmente a aceitassem como ela era. Eu acho que a sororidade salva mesmo e nós somos livres na medida em que nos aceitam como somos, e se vivermos num contexto que é inóspito e hostil e repressivo obviamente que não vamos ter as condições para sermos aquilo que nós somos, que não nos vão autorizar, essa é a história das mulheres no mundo. No caso, quando encontrámos a Marta, acho que ela se sentiu acolhida para poder ser mais livre. Não foi um processo de evangelização, foi mais uma questão de deixar que ela fosse expontânea e ela é uma pessoa que, de facto, é muito expontânea.

FQ: Por falar em sororidade, num momento em que o assédio sexual voltou a estar na ordem do dia, nomeadamente aqui na Universidade de Coimbra, um lugar onde muitas hoje crianças e jovens vão daqui a algum tempo ingressar para estudarem, o que dirias às mulheres/vítimas que calam e não sentem liberdade para falar, para denunciar?

AMT: Como nunca fui vítima de assédio não posso dizer qual seria a minha reacção, é fácil falar sem passar pelos assuntos, e o assédio, o abuso sexual, são assuntos tão íntimos, que enfraquecem num ponto tão sensível, que muitas pessoas preferem esquecer ou deixar passar e eu não estou no lugar de crítica desse tipo de atitude. Claro que temos de expor e denunciar para não acontecer a mais pessoas, mas eu acho que, neste contexto em concreto, quanto mais hierárquica for a instituição, a academia, não sabendo se estes casos têm fundamento ou não, não conhecendo os bastidores, quanto mais gate keepers existirem e precárias forem as situações das mulheres mais elas estão expostas aos abusos de poder de qualquer tipo.

Sabemos que o meio académico é muito hierarquizado e muito precário e que se uma estudante portuguesa ou estrangeira, e aqui há muitas, precisam da carta do orientador para renovação de bolsa, precisam da assinatura do orientador num artigo para conseguir publicá-lo, precisam do nome do investigador sénior para conseguir o financiamento do projecto, precisam do convite do investigador sénior para poder ter uma nova bolsa e uma perspectiva de trabalho no próximo ano, ficam totalmente dependentes e à mercê do bom fundo das pessoas com quem trabalham.

Não há verdadeira liberdade quando há exploração. É o que nos ensina o marxismo. Não há, é impossível, e eu acho que isso é muito real. Enquanto tivermos situações em que as pessoas estão totalmente à mercê do bom fundo das pessoas que têm o poder não vamos ter uma situação de transparência, porque as pessoas nem sequer estão em situação de denunciar muitas vezes e têm medo. E na academia normalmente estão mais homens nos espaços de poder e na base estão cada vez mais mulheres. Essa assimetria é real. Temos de repensar em tornar os espaços dentro da academia mais transparentes, mais igualitários, menos precários, em que haja menos assimetrias de poder, em que haja mais justiça de acesso aos lugares e aos financiamentos, para haver menos situações de suspeição. Porque depois também, quando não há transparência, até as pessoas que não têm culpa no cartório ficam manchadas porque já estamos numa amálgama de desconfiança. Eu acho o problema mesmo estrutural.

Gostaram do que leram?
E repararam que não temos publicidade?

Para fazermos este trabalho e o disponibilizarmos de forma gratuita as leituras e partilhas são importantes e motivantes, mas o vosso apoio financeiro é essencial. Da mesma forma que compram um lanche ou um bilhete para um espectáculo, contribuam regularmente. Só assim conseguimos alcançar a nossa sustentabilidade financeira. Vejam aqui como fazer e ajudem-nos a continuar a fazer as perguntas necessárias, descobrir as histórias que interessam e dar-vos a informação útil que afine o olhar sobre Coimbra e envolva nos assuntos da comunidade.

Contamos convosco.

Mais Histórias

Um Elefante na Sala que quer abrir a cena teatral de Coimbra

Hoje, Dia Mundial do Teatro, fomos conhecer um projeto que quer assumir em voz alta aquilo que, na prática, já anda a fazer há vários anos: tornar Coimbra o polo de teatro físico, ocupando as ruas da cidade com um teatro que começa no corpo e não numa mesa de leitura.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Afonso Cruz enche copos de leitura em Coimbra

Veio do Alentejo partilhar O Vício dos Livros II, o autor mais citado na primeira sessão do Clube de Leitura Coolectiva falou da força transformadora dos livros.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Opinião | Quando o doce se faz corpo

Por Paula Barata Dias

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow

Discover more from Coimbra Coolectiva

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading