Contribuir small-arrow
Voltar à home
Saibam mais

Sobre o Manicómio e a Viarco

Leiam

Mais sobre esta temática

Descubram

Outros projectos do Sobral Cid

Conheçam

O conceito artístico de arte bruta

De artista e de louco todos temos um pouco

Visitamos a Casa de Artes do Hospital Psiquiátrico Sobral Cid, no limite sudeste da cidade de Coimbra, na Conraria. Aqui se instalou durante meio ano o projecto «Nós os Loucos», cocriado pelo Manicómio e Viarco, como complemento ao trabalho terapêutico através da prática artística.

Partilha

Fotografia: Mário Canelas

Saibam mais

Sobre o Manicómio e a Viarco

Leiam

Mais sobre esta temática

Descubram

Outros projectos do Sobral Cid

Conheçam

O conceito artístico de arte bruta

«Já não sou psicopata,
já não me corto,
já não agrido ninguém.»

Não é um poema, mas é poético. Encerra violência, mas também define esperança. Esta frase acompanha um desenho feito por D., um dos artistas participantes do projecto «Nós os Loucos». A doença mental é uma bagagem pesada; isso contamina a linguagem e a sociedade, serve de ofensa, para desqualificar o outro. Dizer Sobral Cid, em Coimbra, é pretexto para olhares enviesados, alimenta desconfianças e desperta incompreensões. Este hospital ainda carrega imenso estigma consigo. Mas o tema da saúde mental é sobretudo um tema de direitos humanos, que acompanha histórias de vida com alguma complexidade, daí também o salvaguardar dos nomes próprios, optando pelas iniciais.  

Espraiando-se ao longo do cume da colina que contorna o Mondego e chega até à foz do rio Ceira, espreguiçam-se os pavilhões deste hospital-jardim, criado em 1942 enquanto asilo-colónia agrícola, com projecto do arquitecto Luís Benavente e chamado de Sobral Cid em honra do famoso psiquiatra e político com esse nome. Era um hospital autónomo até há duas décadas, assim como os hospitais psiquiátricos de Lorvão e o de Arnes, em Soure. Fundiram-se no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra em 2007, vindo este a integrar o Centro Hospitalar de Coimbra (CHUC) em 2011, chamando-se agora Centro de Responsabilidade Integrada de Psiquiatria (CRIP). No jargão conimbricense, permanece reconhecível enquanto Hospital Sobral Cid (HSC). 

Casa das Artes

No pavilhão 9 do HSC já funcionou o serviço de pedopsiquiatria e outros serviços, mantiveram-se algumas valências na área da psicologia clínica. Aqui, num espaço térreo, foi criada a sua Casa de Artes. Pedro Renca, enfermeiro coordenador do espaço, que já trabalha com saúde mental há 19 anos, primeiro na Guarda e agora no HSC, comenta: «Temos o apoio da direcção do CRIP, é completamente abraçado pela administração. A nossa ideia é usar o edifício todo, de mansinho vamos conquistando, mesmo aqui fora, ter música, escrita». Para já, contam com artes plásticas numa parte térrea do edifício, numa perspectiva de «terapia complementar ao que é clássico, mais biomédico. Nós aqui fazemos algo que não é a solução, mas [serve] na prevenção, no bem-estar e os participantes gostam imenso». 

Ana Dias, administradora, e Fernando Gomes, enfermeiro-coordenador do CRIP, comentam as mais-valias deste projecto: «Nos anos 90, a Time fez uma capa com um doente esquizofrénico, os antipsicóticos e a dança tinham produzido bons resultados. A arte-terapia é um termo muito usado na psicologia e na psiquiatria há muitos anos. Agora levar à prática é mais complicado, houve sempre uma certa ideia elitista, isto é, era só para algumas classes sociais, pessoas que tivessem alguma educação na área dos valores artísticos. Isto tem vindo a espalhar-se, tem-se cada vez mais o comprovativo de que se olha para uma obra de arte e tem-se uma reacção qualquer. Todos somos sensíveis à arte, algumas mais, outras menos. É da maior importância essa dimensão da vida humana para reequilibrar a vida das pessoas».    

Têm cerca de 25 participantes, a maioria institucionalizados, muitos inimputáveis, com internamentos de dois, três anos, pessoas com horizonte alargado de estadia no HSC. Os critérios mínimos de admissão é que estejam clinicamente estáveis. Os participantes e os técnicos tratam-se pelo nome, «todos nós somos participantes», diz Pedro Renca, «e não é preciso saber desenhar ou ter técnica, é sentirem-se bem, [procuramos] o bem-estar e aquilo que pode provocar em nós. Tentámos adaptá-lo como espaço acolhedor, e o indicador que temos, para avaliar o interesse para além do relato verbal dos participantes, é o conseguirmos que mantenham a regularidade». Fernando Gomes acrescenta: «Esta Casa de Artes foi uma porta que se abriu, uma oportunidade».

Nós os Loucos

Sandro Resende tem um longo percurso na ligação da saúde mental à arte. Fundou a Associação de Desenvolvimento Criativo e Artístico P28, lidera o P31, espaço de expressão artística no Júlio de Matos, Lisboa, e criou o Manicómio, que é o primeiro estúdio e galeria de arte bruta do país [ler em cima sobre o conceito]. O Manicómio apadrinha o projecto Nós os Loucos na Casa de Artes do HSC, numa iniciativa apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Fundação «la Caixa», pelo programa PARTIS & Art for Change. A Viarco trabalhou activamente com o Manicómio na cocriação do projecto, que iniciou em Novembro de 2022 e termina a 11 de Abril de 2023. 

Durante seis meses aplicaram a metodologia do Manicómio, por intermédio de artistas-mediadores. Sandro esclarece: «Criamos ateliês com a Viarco. Pomos lá o artista-mediador, que trabalha com as pessoas. Olhamos para eles como artistas, não como doentes, e era essa a visão que queríamos que os hospitais tivessem. Para mim, mais importante que os materiais, é a liberdade com que se trabalha, não haver rigidez de horários, existe ali uma intenção muito clara de criar valor».

Este valor não é apenas artístico, é sobretudo humano. Contam com dois artistas-mediadores, a Cláudia Lopes e o Bruno, que se revezam a cada terça-feira na Casa de Artes. Sandro continua: «Os nossos artistas mediadores [são] uma espécie de ferramenta, não intervêm, não influenciam, deixam as pessoas criar o seu trabalho. O gosto deles é o gosto deles. Nem podemos tocar neles, [nos participantes], porque eles são tão transparentes, tão honestos, que ao tocar-lhes, estragaria. Se as pessoas tiverem condições para fazer aquilo de que gostam, de forma livre e espontânea, é terapêutico para toda a gente, sejam doentes ou não, para os técnicos também. As pessoas estão claramente mais felizes, isso já é uma grande vitória». 

Nós as pessoas, nós os artistas

A Casa está aberta de segunda a sexta-feira, aos residentes do HSC que estejam interessados; o artista mediador acompanha os participantes à terça-feira, das 14h às 18h. Um corredor iluminado conduz à sala de desenho, um forno cerâmico repousa na passagem, o espaço é inundado pelo som dos The Doors, abrem-se as portas da percepção. L., de meia-idade, atravessa várias vezes o corredor, de uma à outra ponta, despertado pelas visitas; senta-se frente a um cavalete e retoma o desenho de centenas de pequenas figuras com que preenche o papel. D. tem cerca de 35 anos, sorridente, vem mostrar um desenho que se demora a explicar, sobre guerra, cristianismo, desejos de paz, saturado de simbologia: «Este [desenho] ainda não acabei porque estou a usar uma nova técnica. Sinto-me perfeitamente bem a fazer isto, mais do que bem».    

Os participantes têm um horário certo, uma cadência regular que estabelece hábitos. Os materiais, papéis e materiais de desenho, são todos cedidos pela Viarco e aguardam em cima duma mesa, no meio da sala. Dispõem-se pelo espaço estiradores, mesas, cavaletes, um grupo de cerca de quinze homens e mulheres desenham, olham, ou desenham, mergulhados sobre o papel, experimentando com os materiais. L. desenha avidamente com aguarelas; um participante faz dois desenhos por dia; outro pouco fala, mas desenha compulsivamente, talvez seja esta a sua forma de comunicar com o mundo.

Não procuram a perfeição ou a técnica, é a «coisa genuína, bruta», como refere Pedro Renca, encontrando equilíbrios, procurando estabilidades, estimulando a criatividade. A enfermeira Ana Ferreira, que também assiste na Casa, acrescenta: «Um dos princípios é de não direccionar, não mostrar livros, etc. Acontece também não quererem expressar-se. A simplicidade das coisas é que é muito bonita. Não haver módulos, aulas. São mais os técnicos que são formatados, [os participantes] têm a veia da liberdade mais presente». Pretende-se desinstitucionalizar as pessoas e trabalhar a ideia maior de comunidade, deixar «cair as quatro paredes e abrir», comentam, «o objectivo primordial é a pessoa, se gostas daquilo que está a fazer, vê-se a diferença, faz a diferença. É possível fazer para bem dos doentes, que são protagonistas, e também é terapêutico para nós, [os técnicos], também nos faz bem». 

TEia

Após a conclusão do projecto Nós os Loucos, será realizada uma exposição final de trabalhos seleccionados entre os milhares feitos pelos artistas da Casa de Artes do HSC e conservados no arquivo, ainda sem data e localização, a anunciar; e uma residência artística na Viarco com alguns dos participantes, a 16 de Maio próximo.  

Pedro Renca aponta já para a fase seguinte, lançando a ideia: «avançamos para a fase dois da Casa de Artes, a que demos o nome de TEia: Teatro, Escrita, intervenção artística. Ou seja, vamos alargar a oferta [artística] e trabalhar noutras áreas sem ser só na arte bruta. [Ou seja], o teatro experimental, escrita criativa, expressão plástica, cinema e fotografia e vamos ter o podcast TEia». A semente pegou e cresceu. 

Mais Histórias

Um Elefante na Sala que quer abrir a cena teatral de Coimbra

Hoje, Dia Mundial do Teatro, fomos conhecer um projeto que quer assumir em voz alta aquilo que, na prática, já anda a fazer há vários anos: tornar Coimbra o polo de teatro físico, ocupando as ruas da cidade com um teatro que começa no corpo e não numa mesa de leitura.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Afonso Cruz enche copos de leitura em Coimbra

Veio do Alentejo partilhar O Vício dos Livros II, o autor mais citado na primeira sessão do Clube de Leitura Coolectiva falou da força transformadora dos livros.

quote-icon
Ler mais small-arrow

Opinião | Quando o doce se faz corpo

Por Paula Barata Dias

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow

Discover more from Coimbra Coolectiva

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading