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À beira rio há um monumento que é um dos mais bonitos e originais da cidade

Homenagem a Miguel Torga que morreu faz hoje 24 anos tem uma história que vão querer contar aos amigos

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Na margem direita do Mondego, em Coimbra, junto à ponte de Santa Clara, se seguirem o passadiço em pedra de Bordalo, bronze e xisto até ao rio vão ver Torga. Era o percurso que Miguel Torga fazia do consultório na Portagem até à beira rio para ir apreciar a paisagem.

O original monumento ao escritor Miguel Torga foi concebida pelo arquitecto José António Bandeirinha e pelo artista plástico António Olaio que, em 2006, e sob pseudónimos, submeteram a proposta a um Concurso de Ideias para um Monumento ao escritor. 

O caderno de encargos do concurso fazia menção a uma estátua numa rotunda, contou-nos José António Bandeirinha, mas a fotografia em baixo inspirou a localização alternativa. 

“Miguel Torga tinha, como todos sabemos, um mundo, o seu mundo. Era um mundo todo construído com palavras.Palavras umas após as outras, suportadas e alicerçadas por mais palavras, como se fossem um material de construção único, em sagrada comunhão com a paisagem que domina e preenche. Como se fossem as texturas agrestes e xistosas do Douro, a cobrir as casas, os pavimentos, os afloramentos, as campas. O homem só prolonga a natureza.”

Bandeirinha diz que Torga soube prolongar as colinas de Sabrosa e inventou esta cidade que também amava. Foi o que o arquitecto escreveu na altura e é isso que diz que continua a sentir vivamente pela memória do médico escritor, essa miscigenação holística entre a medicina e a literatura, entre a cidade e as serras.

“Torga é o poeta de um percurso que não tem começo, nem meio, nem fim. As suas palavras vadiam do mais universal para o mais local, sem rumo aparente, deambulando de um modo que, por paradoxal que pareça, respira firmeza e decisão. (…) Mas Miguel Torga tem uma cidade. A cidade, esta cidade de Coimbra, é o artefacto que lhe permite, entre outras coisas, plasmar as palavras em tipos de chumbo, martelando-as, uma após outra, muitas e muitas vezes, sobre papel áspero e pardacento.”

“O percurso sobrepõe-se ao espaço urbano de um modo quase artificial, embora perene, pois de memória se trata. Toca o chão da praça, que se imortaliza em xisto, toca a balaustrada do rio, que se imortaliza em bronze. Mas não pretende perturbar, ou alterar, pretende tão só recordar… Ao percorrê-lo, todos nós celebramos a memória do homem de letras, do cidadão que também o percorreu.”

“E sobre as águas do Mondego a palavra TORGA num lugar que se acrescenta sobre o rio. Lugar criado pela alquimia da palavra, que transforma o médico Adolfo Rocha naquele que verdadeiramente ele é.” 

Hoje, José António Bandeirinha teme que ninguém ligue ao monumento. Está sempre sujo e abandonado e, possivelmente, ameaçado pelas obras de arranjo dos muros do rio.

Se quiserem seguir o rasto de Torga, que morreu há 24 anos em Coimbra, também podem ver:
 
– O nº 45 do Largo da Portagem, onde ficava o consultório médico onde exerceu durante 50 anos
.
– A Casa-Museu Miguel Torga, na Praceta Fernando Pessoa, aberta de 2ª a 6ª entre as 14h30 e as 18h ou Sábados mediante reserva prévia para grupos de 10 ou mais pessoas e a entrada custa 1,70€

 

– A antiga República Estrela do Norte, na Ladeira do Seminário, junto à Rua do Brasil, onde Torga morou enquanto estudava Medicina na Universidade de Coimbra, no final dos anos 20 do século passado

– Fora de Coimbra, em São Martinho de Anta (Vila Real), em 1907, vai ser recuperada e adaptada a um espaço museológico e de memória a casa onde Torga nasceu. Acaba de ser doada pela filha do escritor, Clara Crabbé Rocha, à Direção Regional de Cultura do Norte..

*A fotografia de Miguel Torga foi cedida pelo arquitecto José António Bandeirinha e as citações foram retiradas da proposta original Memória para o Concurso de Ideias para um Monumento a Torga da Câmara Municipal de Coimbra, em 2006

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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