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A Guitarra de Coimbra deu filme e estreia esta semana na RTP2

Soraia Simões

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Popularizada por Carlos Paredes, a guitarra de Coimbra distingue-se da versão lisboeta por ter uma tessitura mais grave e um timbre distinto, devido às diferenças na sua construção, bem como na execução. A afinação nominal, ainda hoje usada, mantém características das cítaras do Renascimento. É esta e muitas outras coisas que podem descobrir ou perceber no documentário A Guitarra de Coimbra que a investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa Soraia Simões de Andrade fez para a RTP, com produção da Velvet Station (José Ricardo) e som da On Time Media.

O desafio foi contar a história do património imaterial da Coimbra popular nas vozes de intérpretes homens e de intérpretes mulheres, construtores, estudiosos, documentos inéditos e espaços, desde o berço até à contemporaneidade, da tradição à modernidade, explicou-nos a produtora.

Soraia Simões é de Coimbra e tem uma ligação familiar e afectiva com a guitarra, nomeadamente com o modelo de Coimbra e com afinação de Coimbra. Tive construtores na família, tocadores, contou. A maioria dos músicos que tocam guitarra de Coimbra em Lisboa, como o José Manuel Neto e António Parreira – entrevistas que se podem ouvir aqui – tocam a guitarra de Coimbra, mas com uma afinação de Lisboa. A Guitarra de Coimbra parte das pesquisas e artigos sobre as Guitarras de Coimbra e de Lisboa da investigadora, que há 7 anos já tinha coordenado o ciclo de debates Conversas à Volta da Guitarra Portuguesa em Alfama. A ideia estava a ser escrita desde 2012 e vai agora ser exibida na RTP2,  5ª feira, dia 17 de Outubro. Colocámos algumas questões à autora e estas foram as respostas sobre as intérpretes femininas, coisas que descobriu ao longo das filmagens e alguns comentários sobre o panorama actual.  

Mulheres

 
A Guitarra de Coimbra, é certo, esteve muito tempo associada só ao meio coimbrão, académico, futrica. Os estudantes tocavam durante o tempo do curso superior, nomeadamente tentando tocar aquelas Variações complexas de Artur Paredes, e circunscrevia-se a isso; ou a retórica em torno deste cordofone a isso esteve durante muito tempo conectada e, de facto, o berço dela é este e continuará a existir, creio. Mas este instrumento, como nos demonstrou Carlos Paredes, entre outros, pode ser um instrumento de concerto, com uma afinação nominal mais grave do que a Guitarra de Lisboa, com um som quase dramático, teatral, de tradição popular, mas que facilmente acompanhou, e continua a acompanhar, circuitos de cariz erudito. O professor Jorge Gomes, talvez o professor vivo mais antigo da Associação Académica de Coimbra, sempre teve mulheres nas aulas. A Ana Sadio ou a Luísa Amaro são exemplos disso. Um discurso mais normativo em torno deste instrumento musical que, por um lado, apenas a liga aos fados de Coimbra e ou de Lisboa e, por outro, devido talvez ao esforço, fisicalidade e força no ataque das cordas a um universo masculino, tem de evoluir. Essencialmente porque há mulheres que em Coimbra tocavam muitíssimo bem, a Ana Sadio, que começou por tocar durante o curso de Medicina e voltou recentemente aos concertos, é um dos belos exemplos disto mesmo.
 
 

Revelações

A questão que mais tenho trabalhado ultimamente, inclusive na minha minha investigação académica e no podcast recente, incide nos papéis desempenhados por mulheres na música realizada em Portugal ao longo dos últimos 50 anos e na sua sub-representação em alguns territórios da cultura popular e concretamente da música, o facto de ter constatado que além da guitarra ter sido nos últimos quarenta anos ensinada a mulheres e existirem, como sabemos, mulheres que se profissionalizaram e notabilizaram com este instrumento musical (embora ainda sejam muito menos do que os homens, mas isso também está a mudar), ter escutado Gilberto Grácio (construtor de Carlos Paredes) a falar e destacar  duas mulheres que tinha tido na sua oficina como suas discípulas, uma delas indiana, que, segundo ele, “daria uma excelente construtora”, a Fabíola. É que muitas destas actividades são auto-financiadas. Algumas vêem-se obrigadas a desistir a meio. Por outro lado, foi com grande contentamento que vi uma guitarra de Raul Simões, um dos últimos violeiros de Coimbra mas que também se destacou na construção de guitarras tendo uma delas sido encomenda por Artur Paredes, no Museu Académico e pude constatar que Fernando Meireles, reconhecido construtor de instrumentos musicais em Coimbra, teve como primeira referência para a sua construção essa mesma guitarra. 

Actualidade

[A Guitarra de Coimbra está] no contexto académico mas também em espectáculos, no À Capella, etc. Os processos de turistificação, mais comerciais, não são um exclusivo dos fados ou da guitarra, julgo que desde que ambos possam coexistir sem se atropelarem. Só me fará confusão quando um prevalecer sobre o outro e a história ficar prisioneira de um dos lados da mesma, como nos transmitiu, e bem, Miguel Torga, a tradição deverá semear o progresso, ora conquanto o progresso não se reduza ao aspecto comercial apenas a Guitarra, Coimbra e a sua história e os músicos e intérpretes relevantes que se queiram profissionalizar só terão a ganhar com esse crescente interesse. As pessoas poderão escolher o que lhes interessar, percebendo as dinâmicas socioculturais deste século em que vivemos. No fundo tudo volta onde tem que voltar, parece-me.

Texto: Filipa Queiroz

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