Contribuir small-arrow
Voltar à home

Nasceu em Coimbra um festival sobre igualdade de género e LGBT para crianças e jovens

O primeiro contacto que tive com a Frida Kahlo foi no filme “Coco”, que saiu há pouco tempo. Não tinha noção da relação dela com a Chavela [Vargas] mas adorei, foi espectacular, disse Carolina Duarte, 16 anos, depois de assistir a Frida e Chavela: uma Estória de Humanidade, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. O […]

Partilha

Fotografia: Rui Sousa, Festival Género ao Centro

O primeiro contacto que tive com a Frida Kahlo foi no filme “Coco”, que saiu há pouco tempo. Não tinha noção da relação dela com a Chavela [Vargas] mas adorei, foi espectacular, disse Carolina Duarte, 16 anos, depois de assistir a Frida e Chavela: uma Estória de Humanidade, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. O espectáculo de Vânia Couto e Élia Ramalho foi o mote do Género ao Centro, o primeiro festival sobre igualdade de género e LGBT dirigido ao público infanto-juvenil, dos 8 aos 18 anos, absolutamente pioneiro no país.

Numa conversa com os cerca de 180 estudantes do segundo ciclo de Coimbra, no final da peça, procurou-se desmistificar preconceitos, tirar dúvidas e discutir ideias com os mais novos. Era esse afinal o objectivo da iniciativa da associação Catrapum, que ganhou a candidatura ao Programa de Apoio à Ação Cultural na Região Centro | PAAC +, e que decorreu ao longo do fim-de-semana em Coimbra e continua no Auditório Municipal de Penela, nos dias 19, 20 e 21 de Novembro.

Frida e Chavela, Uma Estória de Humanidade foi produzido no âmbito da semana cultural da Universidade de Coimbra e foram perguntas como O que é que vão fazer às crianças? Vão ensiná-las a serem homossexuais?, feitas através das redes sociais e pessoalmente junto às protagonistas, que deram origem ao festival, bem acolhido por pais, direções de escola e docentes, alguns a acompanhar jovens em fase de transição de género.

Na conversa após o espectáculo de abertura, sexta-feira di 5 de Novembro, participaram Briana Preces, mulher transexual, o activista João Maria Cláudio, Maria Lobo da associação Existências e o psicólogo e activista Luís Franklin. Foi espectacular, continuou a jovem Carolina Duarte. Gostei bastante de estar a ouvir e a “sentir”, através da dor das pessoas, o que elas passaram também e acho importante isto acontecer. A partir do momento em que as crianças são educadas para a tolerância e aceitação podemos criar um mundo melhor assim. Joaquim Santos, também com 16 anos, disse que estava muito entusiasmado por participar no festival. O debate tocou-me muito, foi simplesmente extraordinário. 

Frida Kahlo e Chavela Vargas

Prestamos homenagem a duas mulheres que representam, pela sua história biográfica e pela sua arte, as vulnerabilidades e lutas associadas ao género, orientação sexual, expressões de género, mas também das relações tóxicas, da arte como movimento de intervenção e da forma como uma pessoa, uma mulher, neste caso, duas mulheres, podem fazer avançar a o mundo para uma humanidade mais empática e equitativa. É assim que a Catrapum justifica a importância da iniciativa Género ao Centro, reforçado pelas docentes na audiência – 6 de um universo de 180 que receberam o convite.

Na mesa, está a ideia de que todos os seres humanos, independentemente do sexo, são livres de desenvolver as suas aptidões pessoais, de prosseguir as suas carreiras profissionais e de fazer as suas escolhas sem limitações impostas por estereótipos, preconceitos e conceções rígidas dos papéis sociais atribuídos a homens e a mulheres. Podem ler mais sobre isso no site da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género.

A igualdade de direitos para pessoas LGBT ou LGBTQI+, que é recente em Portugal, também está em causa. Os termos que descrevem a comunidade que engloba pessoas que são lésbicas, gay, bissexuais, transgénero, queer, intersexuais e assexuais são tão amplos que, conforme a compreensão, o reconhecimento e a inclusão na sociedade de diversas identidades sexuais e expressões de género aumenta, o mesmo acontece com a sigla que as descreve.

Já se alcançaram alguns marcos legislativos, como a igualdade no acesso ao casamento civil, em 2010, a eliminação das discriminações no acesso à adopção por parte de casais do mesmo sexo, em 2016, o alargamento das técnicas de procriação medicamente assistida a todas as mulheres, pondo termo à discriminação em função da orientação sexual e do estado civil (também em 2016), e o direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à protecção das características sexuais de cada pessoa em 2018.

Há 3 anos que Portugal tem uma Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação, que inclui expressamente nos seus objectivos estratégicos e específicos o combate à discriminação em razão da orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais. Tanto que Portugal ocupa actualmente a 4.ª posição no relatório anual que classifica e analisa a situação jurídica e política das pessoas LGBTI em 49 países europeus.

Mas uma coisa são as leis e outra é o quotidiano das pessoas LGBTI. E o facto de chamar a alguém gay ser considerado um insulto, nomeadamente entre miúdos. Voltando ao teatro, vemos no público algumas bolsas arco-íris, símbolo da comunidade gay e movimento LGBT, e conhecemos bem as t-shirts com o rosto de Frida Kahlo, mas percebemos a urgência de que os jovens vejam além da moda. A urgência de que compreendam o seu significado e o impacto que têm na vida de pessoas de carne e osso, cujo dia-a-dia é, muitas vezes, bem complexo. E alguns deles podem estar mesmo ali, sentados no banco do lado, a sofrer em silêncio.

[post-ad]

Primeira pessoa

Já me aconteceu muitos rapazes dizerem-me que: Ah, se namorar contigo vou ser homossexual. Não, está errado. Eu sou heterossexual, relata Briana Preces. Na cabeça das pessoas quando se nasce homem só se pode ser homem e acabou, mas não é assim. A mulher trans, de 22 anos anos, contou na conversa pós-espectáculo que, apesar de ter sido apoiada pela família, a aceitação da sua nova identidade por parte da sociedade não tem sido nada fácil. O bullying é uma constante.

João Cláudio Maria, embaixador do estado pelas causas LGBTQI+,  partilhou a próprias vivências enquanto adolescente e as consequências que sentiu na pele pelo facto de se assumir como homossexual. O blogger de 26 anos chamou as atenções quando em 2017 foi expulso do coro da paróquia por alegada discriminação. Testemunhos de pessoas, que como Chavela e Frida, representam minorias, comunidades, géneros e a luta pela igualdade, que pela sua experiência profissional, pessoal ou como cidadão/ã e/ou ativista.

Vânia Couto, cujo percurso pessoal também justifica a necessidade de abordar o tema, uma vez que faz parte da comunidade LGBT, atirou à audiência que a ideia de que a nossa vida antropológica, biológica e histórica levou-nos para lugares diferentes enquanto géneros mas já chegámos ao ponto em que isso já não faz sentido. Só podemos fazer isso mudando a nossa cabeça e olhando para os géneros de forma igual, continua, percebendo que de facto o homem não é um ser superior apesar de continuar a ser, na política, no trabalho, na vida e no momento de escolher quem queremos ser no futuro.

Luís Franklin elucidou sobre a importância de perceber que ser homossexual ou trans, além de ser algo que não se escolhe, passa por processos muito difíceis que uma criança ou adolescente heterossexual não passa, e afirmou: todos os preconceitos que temos são com comunidades que são vulneráveis.

Ninguém goza com os homens de 2 metros suecos. Mas gozam com ciganos, travestis, homossexuais, porque a discriminação é regra na nossa sociedade. É preciso haver discriminação para haver exploração. É preciso a mulher ser vista como inferior para ela fazer trabalho de graça e o Estado não tenha essa responsabilidade, a sociedade não tenha essa responsabilidade. Mulheres, negros, LGBT: ninguém vos vai dar o privilégio, são vocês que vão ter o tirar.

Maria Lobo, que trabalha na área da promoção e protecção da saúde junto a populações vulneráveis, sobretudo mulheres ligadas ao trabalho sexual e algumas trans, destacou que é muito importante falar sobre as coisas e a cultura tem um papel importante. Além dos jovens, a profissional defendeu que também é fundamental sensibilizar as pessoas em todos os espaços em que há um atendimento ao público, nomeadamente estruturas de saúde e de apoio social. 

Em Coimbra, a rede ex aequo, PATH – Plataforma Anti-Transfobia e Homofobia e prestam apoio à comunidade LGBT e apoiantes, e levam a cabo actividades de sensibilização na luta contra a discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de género.

O Festival Género ao Centro conta com o apoio da Direcção Regional da Cultura do Centro e com o apoio institucional do Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental (UNRIC). De acordo com a organização, será feito um documentário com as opiniões pessoais e reflexões artísticas das crianças e jovens, testemunhos pessoais dos convidados/as LGBTQIA+, público em geral, e associações envolvidas. O material será divulgado nas redes sociais e meios de comunicação ao longo do ano.

Mais Histórias

Os mais lidos do ano e uma piscadela de olho para 2022

Mesmo que meio às cambalhotas, com esta pandemia que parece não dar tréguas, chegamos ao fim de mais um ano de coração cheio e com a sensação de missão cumprida. Teimámos em manter as mangas arregaçadas e isso, juntamente com os encontros que foram acontecendo e as boas energias que nos foram chegando desse lado, […]

quote-icon
Ler mais small-arrow

Já viram os Concertos para Bebés programados para 2022?

Na recta final de um 2021 ainda bem desafiante, os Concerto para Bebés renovam as energias com um calendário cheio de coisas boas para descobrir em 2022. Além da programação regular no Convento São Francisco, em Coimbra, a companhia que faz espectáculos para crianças dos 0 aos 3 anos apresenta 11 programas distintos nas salas nacionais. A residência […]

quote-icon
Ler mais small-arrow

ACADEMIA STORIES | Estudo permite descontaminar máscaras de forma simples e barata

Uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra (UC) estudou e testou três formas simples e baratas de descontaminação de vários tipos de máscaras de proteção contra a Covid-19, que revelaram uma eficácia de praticamente 100%, permitindo vários ciclos de reutilização. O estudo, coordenado por Marco Reis, docente e investigador do Departamento de Engenharia Química da […]

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow

Discover more from Coimbra Coolectiva

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading