Analisar o resultado enunciado no relatório de pré-seleção do painel de jurados e publicado pela organização da Capital Europeia da Cultura 2027 (ECoC27) e falar e reflectir em conjunto sobre o futuro da cultura em Coimbra foram as propostas do debate público organizado pela Coimbra Coolectiva na quarta-feira, dia 27 de Abril, no Convento de São Francisco, em Coimbra.
Congratulando a organização pelo evento, o primeiro de escrutínio aberto dos resultados e tónica construtiva, Luís de Matos entendeu que era o momento certo para fazer algumas revelações relativas a todo o processo, desde a submissão do Bid-Book até à apresentação, avaliação e anúncio da decisão e respectiva short list finalista, da qual Coimbra foi excluída.
O coordenador do Grupo de Trabalho da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 (ECoC 27) afirmou que não sente que perdeu mas sim que foi «enganado» e que «claramente o júri não leu os Bid-Books», alegando que durante a apresentação de 45 minutos da candidatura, em Março, «as perguntas foram genéricas, repetidas do Bid-Book, denotando um claro desconhecimento do conteúdo, mais tarde evidenciado pelo próprio relatório».

Luís de Matos revelou que enviou um email a Mariya Gabriel, Comissária Europeia para a Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude, assinado por cinco dos seis elementos do Grupo de Trabalho (ficou de fora Nuno Freitas) e com conhecimento de todas as pessoas envolvidas no processo, fazendo perceber que «independentemente dos resultados, todo o processo foi parcial, obscuro e profundamente desonesto, configurando uma farsa clamorosa».
No email, a que a Coimbra Coolectiva teve acesso, o grupo enuncia preocupações como a de que «antigos membros do painel de jurados da competição deviam abster-se de aderir a futuras candidaturas nos seus países de origem durante um mínimo de 2-3 anos» e o facto de «Cristina Farinha ser uma consultora activa da candidatura de Braga, recomendada para a short-list». Alega que a «tendência crescente para a profissionalização das candidaturas (responsabilidade externalizada, peritos importados) subverte todo o espírito do desenvolvimento local» e que considera «imensamente problemático que alguns Bid-Books sejam completamente escritos por consultores subcontratados», o que «diminui qualquer pensamento crítico a nível local. Propostas e buzzwords repetem-se, impondo modelos do exterior, homogeneizando a oferta.»
O Grupo aponta especificamente para o caso da candidatura de Aveiro, uma das cidades portuguesas na short-list.

O Grupo de Trabalho argumenta ainda, no mesmo email, ser «mais perturbador quando as ligações pessoais entre peritos com membros do Painel são públicas e menos do que discretas», consideram que «a geografia deve ser tida em consideração» e, «ao recomendar Braga para a lista restrita, o painel telegrafa que é possível que um país tenha o título de ECoC na mesma metrópole, repetidamente ao longo de três décadas».
Sugere que os membros do painel, ou pelo menos alguns representantes, «devem visitar todas as cidades antes de recomendarem a lista restrita» e alegam que, na apresentação, as perguntas do painel «foram genéricas, simples repetições de critérios, nada de específico sobre a abordagem oferecida», deixando «em algumas cidades a sensação de que o painel não estava suficientemente consciente do conteúdo» e acrescentando que «visitar as cidades candidatas antes de recomendar a lista restrita também ajudaria o painel a ter a certeza de que as dez pessoas apresentadas à sua frente foram de facto das mais activas na criação do Bid-Book. Estamos cientes de que foram formadas equipas no último minuto para aparecerem iguais em idade, raça e sexo.»
Na resposta ao email, Barbara Gessler, do Comissariado Europeu para a Inovação, Investigação, Cultura, Educação e Juventude, afirmou que a utilização de consultores locais, nacionais ou internacionais per se não é vista como um problema e que «cabe naturalmente a cada cidade candidata decidir se – e em que medida – necessitam de consultoria, bem como de seleccionar os consultores mais adequados para cobrir as necessidades que não são cobertas por conhecimentos especializados internos». Continua afirmando: «Sabemos que os critérios da ECoC são extremamente exigentes, reflectindo o elevado nível de especialização necessário para o sucesso implementar um evento do âmbito e da escala de uma ECoC. Isto exige claramente um elevado nível de profissionalismo. Vemos, contudo, muita diversidade na forma como as cidades candidatas e as cidades detentoras de títulos compreendem os critérios e objectivos da acção da ECoC, reflectindo desta forma a diversidade no seio da União Europeia.»

Na mesma mensagem, a responsável declara que «não existe actualmente um período de reflexão nos contratos que a Comissão tem com Membros do Painel de Peritos da ECoC» mas «podemos considerar a introdução de um tal período no futuro sem limitar desproporcionadamente as oportunidades profissionais dos membros do painel». Finalmente, afirma: «Não temos conhecimento de qualquer situação que possa ter comprometido a capacidade dos membros do Painel para avaliar as propostas de forma imparcial. Devo acrescentar a este respeito que o painel chegou a consenso sobre a maioria das aplicações, mostrando uma forte convergência na apreciação das candidaturas.»
Em jeito de conclusão, a responsável assegura que a Comissão Europeia se mantém «segura de que o processo em Portugal, como em concursos anteriores, foi justo. Estamos também confiantes de que honrará o espírito competitivo e de fair play que menciona na sua carta, e prosseguirá com a produção de mudanças positivas na cidade de Coimbra.»
De volta ao debate, questionado acerca da existência de uma agenda para a colocação em prática da estratégia cultural para a cidade que o Bid-Book e o Pacto de Cidade propõem, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, José Manuel Silva, respondeu que o Bid-Book é um documento «bastante completo, embora o júri o tenha considerado incompleto e subdesenvolvido» e acusou o júri da competição de ter elogiado o orçamento para a cultura de Aveiro de 4,6 milhões de euros depreciando o de Coimbra, «dizendo que é apenas 3,5% do orçamento, e faz a Aveiro valor absoluto e Coimbra em valor relativo. Os 3,5% do orçamento de Coimbra, correspondem a 5,7 milhões de euros.»

«É evidente que coletivamente falhámos», continua, «não fomos escolhidos, não conseguimos ultrapassar as barreiras que também me parece que estariam predefinidas, mas posso estar também a ser tremendamente injusto». José Manuel Silva acrescentou que, não pondo em causa que o Bid-Book fosse uma obra perfeita, «pelo menos serviu de aprendizagem para darmos mais valor a princípios que extravasam as questões da cultura».
Durante o debate, Luís de Matos explicou: «Nesta quarta geração das capitais europeias da cultura desde que foram criadas pretende atribuir-se o título às cidades que precisam e não às cidades que merecem. Ou seja, deixou de ser uma bandeira para assinalar que aquela grande cidade é uma capital europeia da cultura, mas que seja um motor transformador em que a cultura é vista e usada como um eixo estratégico que deixa uma cidade diferente a seguir. Obviamente, poder-se-á dizer que todas precisam, há que identificar qual é o melhor terreno e Coimbra, era, é e será, não é o título que faz que não seja.»

Envolvimento da Universidade de Coimbra
Questionado sobre o ponto referido no relatório do júri da ECoC de que «também não é claro se a Universidade está envolvida», Luís Filipe Menezes, que fez parte do Grupo de Trabalho mas compareceu no debate em representação da academia e substituição do reitor Amílcar Falcão, foi peremptório: «O envolvimento foi desde a primeira hora». «Aliás, se prova mais houvesse, o grupo de trabalho tem três membros da UC», continua e dispara: «Este relatório é uma farsa».
«Há uma coisa que se chama plágio e há hoje em dia softwares que identificam perfeitamente plágio, se vocês passarem este relatório nesses softwares de plágio, o que se verifica é que a maior parte destas frases são retiradas de outros relatórios, de outros anos. Isto é uma treta e acho que não vale a pena estar aqui a discutir o que é uma treta. Vale sim a pena estar a discutir o Bid-Book e a importância que ele tem e o que podemos evoluir com ele para o futuro», disse Luís Filipe Menezes, que apontou ainda como exemplo o facto de constar no Bid-Book uma declaração do presidente do Coimbra Group a apoiar a candidatura de Coimbra «a dizer que as parcerias iriam existir e, no entanto, o júri da competição denunciar a falta de parcerias europeias».

Cristina Robalo Cordeiro, também do Grupo de Trabalho mas a intervir como elemento do público, desabafou que ainda está «numa fase de irritação», agradeceu à Coimbra Coolectiva a iniciativa e afirmou que é preciso «olhar para a frente», mas não quis deixar de referir a questão do orçamento total de cerca de 1 600 000 Euros levantada pela Coimbra Coolectiva durante esta conversa aberta a toda a comunidade. José Manuel Silva referiu que «a conta que foi divulgada está incrementada face à realidade, porque está incluído o valor de 500 mil euros do Orçamento Participativo, cujo tema foi a Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027, mas que o valor total de um milhão e cem mil é um valor que «não causa urticária, se calhar devíamos ter gastado mais, porque quando se aposta ou se investe a sério ou não se conseguem resultados e ficamos a meio caminho».
Cristina Robalo Cordeiro disse que «gostava que fosse esclarecido em que é que se gastou esse dinheiro» e enumerou que o grupo organizou «fóruns internacionais, o encontro das Cidades Geminadas, o Festival Cidades Resilientes, encomendámos variadíssimos estudos, um de impacto sobre a cultura em Coimbra, um sobre o bem estar cultural ao CES [Centro de Estudos Sociais da UC], coisas que ficaram registadas, ficaram em actas e onde toda a cidade participou. O nosso primeiro FOR1C foram dois dias de debate sobre a cidade com personalidades internacionais e nacionais de altíssimo relevo, alguns dinamizadores de capitais de cultura noutros locais que penso que foram um mais para a cidade.» A professora da UC afirmou que «temos de passar para o futuro rapidamente e é essa visão que quisemos passar, mas para termos verdadeiramente noção do que se passou precisamos de ler todos o Bid-Book».

O pedido de leitura e análise do Bid-Book foi mesmo a afirmação mais repetida ao longo das mais de três horas de debate público, aberto a toda a comunidade, que contou com a participação de cerca de uma centena de pessoas no Convento São Francisco. «[O Bid-Book] não é de uma leitura completamente linear, é um estudo sobre a cidade e, ouso dizer, que essa dimensão de estudo sobre a cidade foi talvez negativa, porque se calhar o júri não queria estudos profundos, sistémicos sobre as cidades mas sim propostas de uma outra natureza em «bruxelês» que nós de todo não utilizamos, aliás a dificuldade da tradução em inglês ficou patente, e além disso há o princípio básico da comparabilidade», notou ainda Robalo Cordeiro. «É preciso comparar aquilo que fizemos com o que as outras cidades fizeram, assim como os relatórios. Ora só um Bid-Book – o nosso está aqui e esteve, está disponível e consultável para toda a gente desde que o escrevemos, desde 1 de Dezembro -, nós não temos os outros Bid-Books, o único que está público é o de Braga.»
Num discurso de alguma auto-crítica, António Pedro Pita assumiu: «Lixámo-nos». Já Luís de Matos insistiu que «perder é normal, ser enganado é que não». O coordenador do Grupo de Trabalho, que entretanto cessou funções, disse que «é essa a diferença ou pelo menos a consequência em nós é diferente. Quando perco ganho sempre, porque aprendo. Perder com dignidade e aceitar essa derrota é um acto de profunda elevação». Luís de Matos destacou ainda o papel de José Manuel Silva, sucessor de Manuel Machado, que tomou posse em Outubro de 2021. «Veio a todos os eventos da candidatura, acompanhou de perto e quando ganhou as eleições e colocámos o nosso trabalho à sua disposição, inclusive a eventuais mudanças, ele reempoderou-nos de uma forma extraordinária. Outro presidente podia ter sacudido a água do capote, era muito fácil, mas não o fez. A cultura conseguiu unir no tempo e na continuidade dois executivos visceralmente opostos.»
