Na noite de 16 de Julho, testemunhámos junto à Loja do Cidadão o ajuntar de uma multidão distinta dos festins da época que tradicionalmente dão pulso à Baixa nestes meses. Aqui se celebravam não os santos ou as vizinhanças, mas a sétima arte, com Top Gun: Maverick, blockbuster realizado por Joseph Kosinski e o mais recente sucesso estrelado por Tom Cruise – ao ponto de ser badalado enquanto actual redentor pós-pandémico das bilheteiras do cinema mundial -, a passar num ecrã instalado na Avenida Central, numa sessão de entrada gratuita sem portas de entrada e saída.
Um espectáculo cinematográfico onde o sucesso não se media pela venda de bilhetes, mas pelo deslumbre das pessoas que compunham a plateia em constante prosperidade, mesmo quando o total de lugares sentados provisionados já se encontrava completamente lotado. Vimos inclusive grupos que, acabados de desembarcar do comboio na Estação Nova e com a toalha de praia ainda ao ombro, deparando-se com o ecrã cinematográfico de grande esplendor, instalarem a toalha no chão para se sentarem e desfrutarem do filme. Alguns até enviavam mensagens a amigos que eventualmente iam aparecendo com cadeiras portáteis.

O evento inusitado de público crescente inaugurou a edição deste ano do Cinema Fora de Portas. Trata-se de uma iniciativa das Juntas de Freguesia que, aliadas à Casa do Cinema de Coimbra (manifesto regular do Festival Caminhos do Cinema Português), se presta a levar literalmente o cinema para a rua e descentralizar a experiência cinematográfica também para fora da malha urbana, transportando o próprio grande ecrã a zonas onde o consumo de filmes é mais escasso ou porventura somente doméstico, devido à falta de infra-estruturas geralmente associadas às grandes superfícies comerciais e citadinas.
Um dos locais que beneficiou desta investida foi a Carapinheira da Serra, em cujo Largo da Igreja, pessoas de todas as idades e gostos se uniram em gargalhadas sonantes com o filme 2 Duros de Roer, comédia portuguesa assinada por Victor Santos. Luís Correia, presidente da União das Freguesias de Eiras e São Paulo de Frades, falou connosco antes dessa mostra cinemática pontuada por badaladas do sino da igreja, elogiando toda esta «tentativa de descentralizar a cultura e o cinema e as pessoas poderem usufruir de um filme português que está neste momento nas salas».

Embora apontasse um ou outro episódio ocasional de pequenos centros recreativos locais instalarem um projector na praceta (naquela noite também ajudaram à festa, providenciando a venda de pipocas), Luís Correia afirma que, apesar do escopo geral de todas estas iniciativas sociais que urgem após a pandemia, o propósito específico aqui foi «trazer o que está num shopping e fechado numa sala de cinema para outros lugares da nossa freguesia e arriscámos a fazer aqui na Carapinheira da Serra», apontando que foram preparados cerca de 150 lugares sentados para uma exibição num lugar que teria cerca de 100 habitantes.
«Esta foi sempre uma experiência que eu gostava de ter tido, como a do drive-in, que geralmente vemos nos filmes norte-americanos».
Marco Santos, espectador na Carapinheira da Serra
Cria-se assim uma atracção para populações vizinhas, como a do Dianteiro, de onde advém Marco Santos, cinéfilo manifesto que nos relatou grande agrado pela empreitada. «Esta foi sempre uma experiência que eu gostava de ter tido, como a do Drive-In, que geralmente vemos nos filmes norte-americanos». Apesar da ausência de automóveis, a analogia aqui é certeira, dado o espírito de comunidade ao ar livre que transparece pelos risos do público aliado ao crepitar dos sacos de pipocas, encerrando-se com aplausos enquanto surgem os créditos finais.

Marco realça igualmente o carácter inovador deste projecto para a região, pois «nunca aqui na zona de Coimbra tinha ouvido falar de uma iniciativa destas a não ser agora este ano». Este último apontamento foi-nos relatado com uma breve nota pessoal de pesar, pois havia falhado a sessão de Top Gun: Maverick, filme que gostaria de rever ao ar livre. E gratuitamente pois, como referimos, as sessões do Cinema Fora de Portas não requerem a compra de ingresso, sendo apenas recomendável que se chegue atempadamente para desfrutar de um dos assentos disponibilizados.
Não obstante, tem sido bastante comum a audiência expandir-se além da lotação, com muitas pessoas a sentarem-se de lado ou recostarem-se num muro para apreciar o filme. Contudo, Tiago Santos da Casa do Cinema de Coimbra afirma que, para já, «é um pouco premeditado pensarmos que este tem mais público». Clarifica-nos é que a principal diferença do público manifesta-se via um ambiente mais relaxado quanto aos protocolos e preocupações pandémicas. «As pessoas estão efectivamente mais descontraídas e mais aptas a ter um usufruto cultural e é nesse sentido que sentimos que a participação tem sido mais massiva.»

«As pessoas estão efectivamente mais descontraídas e mais aptas a ter um usufruto cultural e é nesse sentido que sentimos que a participação tem sido mais massiva.»
Tiago Santos, Casa do Cinema de Coimbra
Ao salientarmos o aglomerar de público na Avenida Central, replicou que a localização geográfica é também um factor a ter em grande conta. «Quando estamos num sítio de passagem como a Baixa de Coimbra, é natural que de repente tenhamos 300 pessoas a ver um filme. Já o Jardim da Sereia é uma atracção turística, à qual as pessoas têm de se deslocar. No entanto, termos mais de uma centena de pessoas a ver uma longa-metragem de animação também acaba por ser um ponto muito positivo.», esclareceu após a sessão de Os Mauzões, onde também falamos com membros do público composto por núcleos familiares.
Com efeito, Rui Nuno Castro confidencia-nos que frequenta regularmente as salas de cinema sobretudo para acompanhar os filhos, mas enfatiza igualmente que o carisma único destas sessões excede o escopo original de tornar o grande ecrã mais acessível. «Eu acho que o maior triunfo desta iniciativa é atrair as pessoas a locais naturalmente bonitos que a cidade tem e que as pessoas no seu dia-a-dia se esquecem um bocadinho de os vivenciar. O cinema e a cultura são mais que um incentivo, são excelentes álibis para trazer as pessoas a estes espaços».

«O cinema e a cultura são mais que um incentivo, são excelentes álibis para trazer as pessoas a estes espaços»
Rui Nuno Castro, espectador no Jardim da Sereia
Ouvimos este testemunho enquanto encerrava um evento feirante que partilhou a ribalta do Jardim da Sereia com o ecrã, dinamizando o espaço com bastante luz e som. A presença desses acrescentos audiovisuais condicionou inclusive a montagem do recinto para a sessão, como nos relatou António Pita: «Hoje não só tivemos aqui bastante luz por causa das barracas do Summer Market, mas foi também preciso adaptar o posicionamento das colunas». Porém, acrescenta que «cada caso é um caso, mas o público percebe que as coisas são feitas no dia para aquele dia, e isso também é o que torna isto tudo interessante».
Quando lhe perguntámos sobre os desafios decorrentes da natureza nómada deste ciclo de cinema, nomeadamente em se adaptar às variadas condicionantes e limitações que o ar livre tem, respondeu-nos com um vasto elenco de obstáculos a ter em conta, desde uma vasta miríade sonora composta por barulhos veiculares e ecos prediais, até mesmo ao colocar as janelas, ou seja, enquadrar o formato dos filmes no ecrã. «Isso é relativamente desafiante, porque a sessão é às nove e meia e até meia-hora antes não está bem de noite e ainda há demasiada luz do dia.»

Contudo, perante todos esses percalços de replicar a melhor qualidade possível de uma sala clausurada no exterior, a resposta principal é uma de optimismo: «temos sempre que achar que vai tudo correr pelo melhor, pois tudo se faz. No cinema é tudo igual todos os dias, já aqui não.» Tiago Santos ecoa o brio do colega, sublinhando o alento em ser itinerantes «porque para estarmos num único sítio, faríamos tudo de seguida, tipo festival. Procuramos assim mostrar que há vários sítios que têm esta capacidade para receber sessões de cinema ao ar livre, pois queremos mostrar que há caminhos para consumir cinema em Coimbra.»
«Temos sempre que achar que vai tudo correr pelo melhor, pois tudo se faz. No cinema é tudo igual todos os dias, já aqui não.»
António Pita, Casa do Cinema de Coimbra
Um outro desafio bem mais imprevisível para Tiago – latente da sua experiência de várias décadas a colaborar com os Caminhos do Cinema Português – é atrair uma plateia a aproveitar esta oferta cultural. «Resta-nos ver como é que vai correr nos locais mais fora do perímetro urbano de Coimbra», diz-nos, listando como exemplos a Carapinheira da Serra, a Pedrulha ou o Bairro de Santa Apolónia. Enquanto em 2021 o ciclo deu passos em locais maioritariamente próximos do centro urbano de Coimbra (como a Escola Secundária José Falcão ou o Jardim Botânico), o objectivo é ser cada vez mais abrangente, não só em geografia, mas em público.
Por isso procuram ter «uma oferta que vá ao encontro de várias estéticas e de públicos distintos, quer com longas-metragens de animação hollywoodesca» como Os Mauzões ou Buzz Lightyear (este último exibido Centro Pastoral Irmã Lúcia, no Loreto), «quer com um cinema português mais próximo do entretenimento e não tanto numa oferta tão autoral, com aquelas personagens que as pessoas em geral reconhecem, como o Quim Roscas e Zeca Estacionâncio», referência directa a Curral de Moinas – Os Banqueiros do Povo, filme português que este ano mais rendeu nas bilheteiras e que foi exibido no bairro da Pedrulha.

Embora o Cinema Fora de Portas tenha já passado pela Pedrulha em 2021 (com o filme Bem Bom de Patrícia Sequeira), «não é uma zona onde há salas de cinema ou costuma haver esse tipo de actividades, daí o motivo para que esta descentralização do cinema passasse pelo bairro», confidencia-nos João Francisco Campos, presidente da União de Freguesias de Coimbra. O Largo da Igreja revelou-se a escolha óbvia – já o era originalmente no ano passado, até ser sido reagendado para o Polidesportivo da Pedrulha, devido às restrições do Covid –, até porque «é onde as pessoas se reúnem e estão habituadas a ir para este tipo de eventos.»
«Estávamos para fazer a segunda em 2020, mas entrou a pandemia.»
João Francisco Campos, presidente da União de Freguesias de Coimbra
Francisco Campos esclarece-nos que a pandemia acabou por influenciar a evolução de toda a iniciativa, revelando que antes da criação da Casa do Cinema, já haviam feito uma primeira edição em 2019, com duas sessões no Jardim da Sereia. «Estávamos para fazer a segunda em 2020, mas entrou a pandemia. Entretanto, eles também vieram falar por causa do festival Caminhos e eu desafiei-os a participar, pois na altura tinham uma candidatura para comprar um projector e uma tela para o exterior. Juntou-se o útil ao agradável, pois em 2019 tínhamos contratado com uma empresa do Porto, mas fazia mais sentido deixar cá o dinheiro.»

Um desafio que se revela recíproco e bem frutífero, de acordo com Tiago Santos: «Estamos muito satisfeitos que as Juntas de Freguesia, tanto de Coimbra como de Eiras e São Paulo de Frades, tenham acedido aos desafios que lhe propusemos, mas gostaríamos obviamente de trabalhar com mais freguesias de modo a que nos fosse possível democratizar ainda mais este acesso. Como só existe oferta e equipamentos culturais na região urbana, é preciso abrir essas ofertas e mostrar que há cinema português para todos, que há outro tipo de cinematografias e sobretudo que não é necessário estarmos a ver os canais de TV ou serviços de streaming desta vida pra nos divertirmos, porque o cinema ao ar livre tem de ser usufruído em comunidade.»
Remata esse ensejo de alargar fronteiras ao realçar-nos que essa é «a importância de sermos itinerantes, de dar a oportunidade a quem não vê cinema ao longo do ano, de ver uma experiência de entretenimento cinematográfico. E com boa qualidade.» Uma motivação que resplandece quer no propósito das Juntas de Freguesia de reunir toda os estratos populacionais, dos mais novos aos mais velhos, numa comunidade que se volte a ver uns aos outros sem máscara, quer no apreço cinéfilo de Marco Santos ao afirmar que «é de saudar o empenho e espero que iniciativas destas voltem a ocorrer. Especialmente no verão, que é mais apetecível.»

