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Luís de Matos: “O digital foi-nos imposto mas não mais o deixaremos.”

Depois do Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, Luís de Matos #CONECTADOS chega ao Convento São Francisco, em Coimbra, nos dias 8, 9 e 10 de Janeiro. É o primeiro espectáculo híbrido do mágico, onde os espectadores que participam remotamente interagem com a plateia fisicamente presente na sala. Perguntámos a Luís de Matos o que nos […]

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Depois do Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, Luís de Matos #CONECTADOS chega ao Convento São Francisco, em Coimbra, nos dias 8, 9 e 10 de Janeiro. É o primeiro espectáculo híbrido do mágico, onde os espectadores que participam remotamente interagem com a plateia fisicamente presente na sala. Perguntámos a Luís de Matos o que nos espera e aproveitámos para pedir ao também coordenador da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 um balanço deste 2020 que acabamos de deixar e algumas previsões para o 2021 que agora começa.

Luís, em que consiste este novo espectáculo, nomeadamente a particularidade de se realizar “dentro e fora do teatro”? O que é que o público pode esperar?

Neste espectáculo estamos conectados como nunca! Não é um espectáculo virtual nem tão pouco um a que se assiste via streaming. Luís de Matos #CONECTADOS é um espectáculo onde quem assiste no teatro interage com os seus amigos e familiares, que se encontram em suas casas, e os de todos os outros espectadores. É uma experiência que acontece no teatro e em casa de alguém que lhe é querido porque ao efectuar a comprar de bilhetes para o espectáculo receberá, totalmente grátis, por cada dois bilhetes, um acesso virtual de valor semelhante e que poderá oferecer a quem entender. Quando vamos assistir a um espectáculo levamos connosco memórias que jamais esqueceremos e histórias para contar. Imagine poder convidar para assistir, a partir de casa, o mesmo amigo ou familiar a quem iria contar o que aconteceu. 

Estamos cansados de isolamentos totais e parciais, precisamos interagir entre nós enquanto comunidade. Inicialmente este conceito surgiu fruto da contingência mas rapidamente foi alimentado pela ambição de inovar, tentando fazer mais e melhor.

Podemos dizer que o facto de “a plateia ser muito maior do que aquela que caberia no próprio teatro” é uma coisa positiva a sair dos constrangimentos provocados pela pandemia?

Tudo quanto fazemos na vida pode ser fruto das circunstâncias (positivas ou negativas) ou da ambição. Em circunstâncias negativas, como aquelas que se abateram sobre todos nós, tudo fizemos para que o nosso trabalho continuasse a ser fruto da ambição e não da contingência. No ano em que a minha equipa e eu celebramos 25 anos juntos de trabalho contínuo, o ano de 2020 foi passado a celebrar essa efeméride sendo forçados a provar, e relembrar-nos, o que de facto nos une: a vontade e a capacidade de fazer acontecer com base em tudo quanto até hoje aprendemos.

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Estamos cansados de isolamentos totais e parciais, precisamos interagir entre nós enquanto comunidade. LM

Que balanço faz deste 2020 que agora encerra e em que se dividiu (pelo menos) entre o trabalho de produtor, empresário, artista e também coordenador da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027?

Quando a pandemia caiu sobre nós, a minha equipa e eu, íamos iniciar uma digressão europeia que durante 23 semanas passaria por outras tantas grandes cidades europeias, num total de mais de 200 espectáculos contratualizados quase um ano antes. Fizemos a estreia na República Checa, em Praga, e, a seguir, viemos para casa.

No início fiquei apático como todos, revoltado e em negação na esperança de que tudo não passasse de um pesadelo. Não passou e ficámos sem reacção.

A dada altura, numa revista inglesa, li um artigo cujo título era ‘Sink or Swim’. As três palavras da expressão ‘Afundar ou Nadar’ foram para mim uma verdadeira epifania. Percebi que são essas as duas possibilidades de escolha que temos ao nosso dispor. Não temos sequer direito a perguntar por quanto tempo teremos que nadar, ou que distância, ou se a água está quente ou fria… a alternativa a nadar é escolher afundar.

2020 foi, e 2021 continua a ser, um ano de sobrevivência através re-invenção e adaptação. 2020 está a acabar de ser um ano terrível em que tudo é posto em causa e em que as mazelas que deixa são irreparáveis

Um ano em que as nossas famílias ficam feridas para sempre com a perda de pessoas que vivemos a amar. A esse respeito nada pode ser dito de outra forma.A nível científico, tecnológico e artístico sempre nos dizem que para atingirmos nossos limites precisamos de sair da nossa zona de conforto… 2020 fez isso e de que maneira! Sofrimento e perdas irreparáveis à parte, 2020 terá representado uma aceleração inacreditável em sectores como os que referi.

A mim tem-me salvo, pelo menos até agora, o prazer de criar com a minha equipa. Mantermo-nos ocupados e criativos tem sido a grande salvação do abismo. Graças a isso julgo ainda não ter perdido a minha sanidade mental… ou se calhar já perdi… não sei bem… 😉

O espectáculo #CONECTADOS é o claro exemplo do abraçar das contigências transformando-as em oportunidades criativas. Jamais teríamos criado um conceito tão original e surpreendente se não fosse todo o pesadelo por que estamos a passar.

Ao nível da candidatura de Coimbra a ECoC2027, o Grupo de Trabalho tem laborado de forma comprometiva com a missão que nos foi confiada e o mais eficaz possível na busca de uma candidatura integradora, transversal, inovadora e vencedora. Também a pandemia teve consequências na estratégia aos mais variados níveis. O próprio FOR1S, que há muitos meses acontece semanalmente à terça-feira, em directo no Facebook, tem viabilizado conversas que não teriam sido publicamente motivadoras.

Jamais teríamos criado um conceito tão original e surpreendente se não fosse todo o pesadelo por que estamos a passar. LM

Quais são as previsões para 2021, há mais novidades “na manga”?

Enquanto a nuvem da pandemia não se dissipar, 2021 é só o prolongamento de 2020. Acredito na humanidade para sempre retirar o que de melhor for possível. Pela nossa parte, estamos cheios de ideias… 

Se se conseguir finalmente eliminar a pandemia, há coisas que vão ficar relativamente aos espectáculos? 

Claro que sim. Jamais voltaremos ao que era.

O digital foi-nos imposto mas não mais o deixaremos. O digital está há muito nas nossas vidas mas as circunstâncias obrigaram-nos a dele depender no dia a dia. A pandemia deu-lhe uma primazia nunca antes vista. Neste espectáculo usamos o digital para nos levar ao limite da conectividade, no sentido de que a magia aconteça no palco, na plateia e em casa daqueles que os espectadores presentes convidarem para participar remotamente. Acredito que o mesmo se consolide de forma transversal não só no sector cultural mas em todas as áreas da sociedade.

Texto: Filipa Queiroz
Fotos: Ana Dias, LdM

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