Lara Lima
Directora BmQ, Terapeuta e Coach
lara@bmqbylaralima.com
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Começo este texto reivindicando perante as minhas semelhantes o direito a Ser Mulher, que é algo que sempre defendi no meu trabalho com gestantes e que, muitas vezes, me frustrou. Sobretudo por não perceber a dificuldade das Mães em se posicionarem como mulheres quando o bebé nasce, cresce ou mesmo quando até ele ou ela já é Mãe ou Pai. Três filhos depois, percebo finalmente a dificuldade, mas felizmente sem resignação. Sou Mãe sim, mas também sou Mulher!
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Quero ter a liberdade de me assumir como Mulher sem me sentir julgada e condenada no papel de Mãe. Mas, acima de tudo, quero mostrar-vos a vocês, se forem Mães e Mulheres, que ser Mãe é apenas um papel do Ser Mulher. Talvez o mais importante, talvez não. É um papel à vossa medida e a vossa medida é a única que vos deveria importar, porque para os vossos filhos serão sempre a melhor Mãe do Mundo. Quero também mostrar aos Pais que estiverem a ler que a Mãe dos vossos filhos continua a ser Mulher, e que se ela não o vê vocês podem fazer com que ela o sinta de novo oferecendo-lhe tempo, atenção e oportunidade.
Sendo Mãe é fácil para mim compreender que, quando o dia termina, a sensação é a de que não se fez o suficiente, e que cinco minutos em silêncio debaixo do chuveiro são fundamentais para encontrar alguma paz. Juro que entendo o dilema de tirar um fim-de-semana para descansar sozinha, a angústia de não ser a Mãe perfeita, de estar a treinar em vez de ter ido buscar os miúdos mais cedo à escola ou não ter a casa arrumada. Conheço a realidade dos bastidores e, por isso vos digo, sem receio, que no processo de Maternidade para além de amor existe também o medo, a tristeza, a renúncia e os dias negros. Nem só de luz e sorrisos é feita a maternidade, apesar de por vezes nos quererem convencer disso e de ninguém falar do lado negro abertamente.
Seja nos grupos no Facebook ou no Chá de Bebé, seja nas conversas com amigas ou na noite de Natal, quando as mulheres estão grávidas todos lhes falam do amor incondicional e imensurável que vão sentir (e que afinal não é imediato, chega a seu tempo), da renúncia normal de tomar um banho na hora desejada, de não poderem voltar a dormir quando e como querem, de não poderem ir e voltar de onde e quando entenderem. A partir do momento em que as mulheres engravidam, a sociedade tenta fazê-las crer que é normal o M de Mulher doar-se por completo ao M de Mãe e que ser Mãe faz tudo valer a pena. Aposto que dentro de cada Mãe mora uma vozinha que já chorou baixinho a incerteza de ter tomado a decisão certa ao dizer sim à maternidade, e ao mesmo tempo um vozeirão familiar que grita: escolheste, agora aguenta! É certo que ser Mãe passa por renunciar da vida antiga, processo que varia de Mulher para Mulher, mas uma renúncia à vida antiga não é uma renúncia à Mulher e muito menos à Vida. A Mulher agora Mãe precisa de aprender a renascer como Mulher Mãe, e não Mulher versus Mãe.
Neste renascimento, há coisas de Mãe que ficam na vida da Mulher:
- o trabalho não remunerado (e muitas vezes ingrato) que começa no momento em que os miúdos acordam e às vezes nem termina quando vão dormir;
- as tarefas pendentes, que apesar de iniciadas raramente são terminadas por causa do constante desvio de atenção;
- os momentos de descanso quando estão por conta própria em casa são sonhos e não a realidade, especialmente se falamos em fim-de-semana ou férias;
- a lista interminável de tarefas, num ciclo que nunca tem fim e que se renova de dia para dia;
- o julgamento constante de outros – quanto mais próximos pior -, por deixarem os vossos filhos ao cuidado de outras pessoas para irem trabalhar, descansar ou relaxar;
- o acordar 1h antes de toda a gente para terminar alguma tarefa inacabada, começar uma nova ou ter um tempo em silêncio;
- o segundo turno, depois do trabalho e antes de chegar a casa, de pagar contas, fazer compras, serviço de lavandaria e, claro, táxi das crianças;
- o terceiro turno de trabalho ao chegar a casa, de fazer o jantar, dar banho e jantar aos filhos e contar-lhes histórias na hora de dormir;
Mas também há coisas da Mulher que devem integrar a vida da Mãe:
- reclamarem um mimo, um beijo, um abraço, um presente e um obrigada;
- terem hora marcada no cabeleireiro, na esteticista e na manicure porque sim;
- chorarem de amor ou simplesmente de emoção;
- serem gentis, determinadas, energéticas e éticas;
- cuidarem da alimentação e da balança;
- terem tempo para as amigas, para o cinema e para o bate perna;
- gostarem de namorar e comprarem lingerie;
- não perderem um bom desejo de TPM;
- lutarem e acreditarem na igualdade de género no trabalho e em casa;
Acima de tudo lembrem-se que é normal fazerem planos para tudo isto e incluirem os filhos. Sim, ser Mulher é fundamental mas ser Mãe, é uma marca registada que deu continuidade à Humanidade, por isso passa de um Papel a um modo de Ser, um estado de espírito e uma força vital.

