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Conhecemos as noites dedicadas ao humor do Grémio Operário de Coimbra e pedimos emprestado o olhar de humoristas residentes e visitantes sobre as graças da cidade.

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Fotografia: Mário Canelas, cortesia Grémio Boémio

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Pelas ruas da velha Alta alumiadas a romantismo, a cidade tabela entre sombra e luz, insinuando-se após uma e outra esquina assim que a percorremos, revelando segredos, anunciando outros detalhes. Quarta-feira é uma noite improvável, mas é a noite em que o Grémio Operário se preenche de humor e em que se metamorfoseia em Grémio Boémio, a noite mensal de stand-up comedy.

Segundo Miguel Matias, responsável pelo Grémio Operário, «este é, na sua essência, uma incubadora de artes nas suas mais variadas vertentes. Esteve sempre ligado ao teatro de revista, operetas e zarzuela, desde sempre abraçou todas as “artes”. Neste seu renascimento também quis ser abrangente nas várias vertentes. Relativamente ao humor, este pretende ter uma periodicidade mensal e conquistar os novos valores emergentes na cidade». 

Muito humor já terá passado por esta sala histórica, a mais antiga de Coimbra, fundada em 1887. Também aqui ensaiou Zeca Afonso, celebrado num busto icónico que tudo observa. A boca de cena rasga-se ao fundo da sala, eleva-se o palco uns palmos acima do chão onde surgirá o humorista, pronto a disparar e a fazer rir, vibrando os músculos do riso, os zigomáticos.

Reunimo-nos com os humoristas residentes do Grémio Boémio, Guilherme Gouveia (GG) e José Bernardo (JB), que foram apadrinhados no stand-up por Afonso Paiva, criador do primeiro festival dedicado ao humor em Coimbra, o Coimbra dos Humores. Afonso tinha uma noite regular de humor e convidou-os para a gerir, porque «conhecia o nosso trabalho e confiava neles. Ele perguntou-nos, querem ficar a gerir o espaço? Fazem a programação, escolhem os humoristas. Nós aceitámos o convite, ficámos muito contentes». Foi uma passagem de testemunho, uma continuidade. Seguimos em jeito de conversa.

JB: «O espaço é muito bonito, quase perfeito para fazer stand-up. Tem o melhor de dois mundos: parece exclusivamente uma sala de espectáculos, mas também tem aquela vibe de bar, das pessoas poderem beber um copo. Não é uma sala moderna, é uma sala clássica, a cada vez que passa aumento a minha relação de amizade com o espaço».  

GG: «É um espaço histórico. Há sempre coisas que podemos melhorar a cada espectáculo e a atmosfera que ali se cria é muito cativante».


São os anfitriões desta noite, complementam-se no método e no estilo de humor. Guilherme não gosta tanto de interagir com o público, José adora. Em frente ao público vão testando o material. Explicam o seu método:

GG: «O meu método de escrever piadas começa com ideias soltas. Tento sempre ver aquilo que me faz rir. Às vezes começo a rir do nada e vejo o que é que ali me fez rir, ou estou a ver um filme e rio-me muito de uma coisa, e isso dá-me inspiração que depois se transforma numa piada. Vou para o computador ou telemóvel e começo a desenvolver a piada. Depois de escrita, começo a ensaiá-la antes do espectáculo, uma semana antes. E é assim, vamos testando, riscando ou reinventando aquilo que não resulta. E não podemos fazer a mesma coisa duas vezes porque, ao contrário de outros sítios que já têm um circuito, como Porto e Lisboa, em que os comediantes são os mesmos e o público é sempre diferente, aqui é ao contrário. Os comediantes são sempre diferentes, mas o público é quase sempre o mesmo, porque ainda há pouca procura. Vimo-nos obrigados a mudar o texto de cada vez que fazemos, a não repetir, porque senão torna-se desinteressante. Temos que estar sempre a reinventar-nos, por um lado é óptimo, porque nos obriga a ter mais material, mas também torna-se mais difícil consolidar o material que já temos.


JB: «Eu sou um bocadinho diferente. No início eu também escrevia as piadas, o que faço agora é pensar na ideia, estou todo o dia a pensar nela. Há uma história que costumo contar sobre a minha mãe, a minha mãe é assim meia totó, digamos assim. Há uma história em que uma vez fomos a uma pizzaria, e o que faço é, no meu dia-a-dia, penso várias vezes na história da pizzaria. Uma vez conto uma versão da pizzaria de uma maneira, depois de outra e depois de outra. Estou sempre a pensar em versões diferentes da mesma história.  Depois chego ao palco e no momento o que estiver a sentir como deve sair sai, improviso. Aliás, improviso muito mais do que o Guilherme».

A noite serve para testar material, como dizem, até mesmo humor mais negro. O Grémio Boémio permite essa variabilidade. Para escolher participantes contactam comediantes pelas redes e também são constantemente contactados, por pessoas mais ou menos consistentes, experientes ou não. Acaba também por ser uma escola de humor. JB diz que vê todo o tipo de humor, até o mais underground, será difícil algum comediante escapar-lhe ao radar.


E quanto a mulheres? Já tiveram alinhada uma humorista, a Ema Duarte, que não se concretizou por causa da pandemia. No Coimbra dos Humores houve um concurso de open mic ganho por uma mulher, a Joana Ramos. Há também a Rita Leitão, da Figueira da Foz. Nunca tiveram uma mulher a actuar até agora, dizem. «Tem sido uma luta. Nós temos feito esse esforço [de trazer mulheres], em breve acontecerá.»

Como é que um cómico canaliza ou ultrapassa as suas inseguranças?

GG: «Acho que isso depende de cada um, da sua personalidade. No meu caso, não diria que é um refúgio, mas é uma realidade para onde eu não levo tudo o resto. Ou seja, quando estou em cima do palco, se estou mal, se estou bem, é secundário naquele momento. Dou o meu melhor».

JB: «Por acaso comecei a ler o livro do Woody Allen, A Propósito de Nada. Ele diz algo como, que quando começou a fazer arte, o mundo real tornou-se desinteressante. E identifico-me com isso, na medida em que é isso que vamos fazer e é muito fácil abstrair-nos. Pode parecer egoísta da nossa parte. Assume-se uma persona em palco.

Haverá mais talento humorístico a explorar por Coimbra? JB diz: «Há algum, não tanto como gostaríamos.» Como ambos estudam, têm de conciliar a sua faceta de humoristas, mas asseguram: «É muito interessante estar envolvido no avanço da comédia em Portugal. Fico contente por termos uma noite regular. Venham assistir a comédia, é uma oferta cultural muito barata». E certamente bem humorada.

Noite Boémia

Acontece mensalmente, na primeira quarta-feira de cada mês, às 21h30. Conta com 5 a 6 humoristas em sequência, cujos nomes não são revelados com antecedência, somando cerca de duas horas de espectáculo. Os anfitriões explicam: «Os últimos dois [humoristas] são os headliners, já têm alguma experiência, à partida terão mais risos. Depois nós os dois estamos ali no meio, e há dois lugares open mic, para pessoas que estão a começar, com menos experiência.»

Sobre não serem revelados os nomes, explicam: «No teatro ensaia-se para depois apresentar. No stand-up as apresentações servem para ir melhorando o material. Um nome maior que quiser vir testar coisas, sem se querer comprometer, vem um bocado solto e faz uns 10 minutos. E é bom que as noites valham por elas mesmas, é bom que as pessoas confiem na programação. Não interessa quem é que vai, interessa é que me vou rir». A média de público são cerca de 40 a 50 pessoas por noite, reservem por Instagram , por E-mail ou via Facebook. Preços 3€ para estudantes e 4€ não estudantes.

Outros humores em Coimbra

Reitor Comedy Club – No bar O Reitor, organiza-se uma noite semanal de stand-up, todas as terças-feiras às 22h, com André Carmo como anfitrião.

Festival Coimbra dos Humores – Foi criado por Afonso Paiva, depois de ter sido uma das propostas mais votadas do Orçamento Participativo Jovem. Talvez regresse em 2022. Vejam aqui sobre a edição de 2019.

Conversas Comédicas – É o programa/podcast de JB e Rodrigo Melícias na Rádio Universidade de Coimbra, sobre humor, todas as terças-feiras, às 11h. Ouçam em RUC 107.9 FM.

Visitantes bem-humorados


Fábio Porchat e Marta Bateira (Beatriz Gosta) estiveram recentemente em Coimbra para apresentações. O humorista brasileiro, que é um dos rostos de maior destaque do coletivo criativo brasileiro Porta dos Fundos, esgotou o Convento São Francisco com o seu espectáculo O novo stand-up de Fábio Porchat. Bateira, levou ao rubro o Salão Brazil com Quem Acredita Vai na primeira noite do Batom – Festival no Feminino.

No final do espectáculo, Bateira, que no palco é Beatriz Gosta, comenta sobre o ser ou não humorista: «Eu acho que até sou mais do que humorista, eu tenho uma cena de fazer o bem, de mudar o estado de espírito. Eu vou a um café e naturalmente meto-me com uma pessoa. Sou naturalmente assim. Eu conto histórias. Em todo o lado, eu boto carisma na cena, pimenta, uma malagueta».


Deixa também um conselho para a nova geração de humoristas: «O medo é uma coisa que nos paralisa muito, nos jovens também, a insegurança e o medo. E nas mulheres ainda mais. Há pouquíssimas mulheres no humor e no rap. E eu sei porque é. Os homens [são educados] que eles são capazes, que o mundo é deles, que eles vão conseguir, e as mulheres são educadas como cuidadoras. Uma coisa na maternidade deixou-me revoltada que é a carga mental. [Devem ir] sem medo. Até hoje, sempre que vou [actuar], bato uma reza. Eu vou entrar no palco, eu tenho que cumprir a minha parada, bato uma reza. Não tenham medo, vão sempre melhorando, vão criando confiança. Ao menos fizeram, ao menos arrancaram. Vai, faz, ao menos fizeram».


Fábio Porchat fala da importância dos pequenos espaços como o Grémio Operário para ir burilando e legitimando a rotina do humorista, ainda que seja um nome estabelecido: «O que eu fiz [antes da apresentação em Coimbra], e foi pouco, eu queria ter feito mais, foi testar o material em pequenos fragmentos de dez minutos em bares e lugares de stand-up em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eu consegui fazer isso umas dez vezes antes de vir para [Coimbra], fazendo dez minutos aqui, 15 minutos ali. Só que é muito pouco, de um modo geral, o ideal é que se faça 100 vezes isso».

O humorista também confessa que tem um plano: «Eu quero muito [estudar na Universidade de Coimbra]. É muito encantador, é impressionante, muito forte a energia daqueles estudantes, as pessoas tocando, aprendendo, conhecimento ali. Eu fico com muita vontade de fazer alguma coisa, porque não o curso de Filosofia? [Talvez] para o ano que vem». Podem ler a entrevista completa a Fábio Porchat aqui e conversa com Marta Bateira, a propósito da participação no Festival no Feminino, aqui.

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