Não é intuitivo pensar numa galeria de arte para fazer compras de Natal. Muito menos de forma económica e sem ter algum conhecimento artístico. Mas é isso que a Galeria Sete oferece na arte de Bolso, além de tudo aquilo que vende. Nesta altura do ano, pinturas, desenhos, esculturas, esboços, fotografias, colagens e outras peças de cerca de 150 artistas, sobretudo nacionais, forram as paredes da galeria de arte contemporânea de Coimbra, à espera de quem as quiser levar para casa, para o escritório ou para oferecer a um familiar ou amigo.
O proprietário, Eduardo Rosa inspirou-se no conceito de livros de bolso: «fornecer um conteúdo de qualidade, idêntico ao de uma obra normal, mas com uma capa mais fraca, embalagem pior, transporte mais fácil, para poder cortar alguns custos. «Fomos afinando isto ao longo dos anos, sempre com a ideia de termos um preço acessível, para que os artistas pudessem fazer algum dinheiro para continuar a produzir». Rosa conta diz que inventou «este modelo mais democrático, para atingir mais público e para que as pessoas que já gostavam pudessem ir comprando», depois de um ano em que «ninguém comprou nada por causa da troika», em 2012.
«Depois [da primeira edição], outras galerias em Lisboa e outros sítios adoptaram o modelo dos pequenos formatos», continua. «Fomos os primeiros, não havia este tipo de abordagem no país.»
«Há muita gente que chega aqui e que diz: eu só venho ver, eu não percebo nada de arte!», conta Carlota Reimão. A técnica, licenciada em História de Arte e mestra em gestão e programação do Património Cultural e Museologia confessa que, quando lhe dizem isso, lhe apetece lembrar que «a arte não é uma coisa que se perceba, ou se gosta ou não se gosta, ou cria algum tipo de sentimento ou não, é para isso que ela existe.»
É com esta abordagem simples e desempoeirada que a dupla recebe qualquer visitante da Arte de Bolso. As peças são sempre novas no arranque da exposição colectiva e todas as dúvidas e curiosidades são atendidas. Este ano, a mostra tem a particularidade de ter alguns jovens talentos, como Pedro Versteeg e Mariana Esteves Pereira. Mas também estão à venda «pequenas grandes» obras de nomes consagrados como António Olaio, Carlos Correia, Cecília Costa, João Jacinto e Eugénia Musa. «São artistas que fazem uma atenção no valor para esta exposição, porque já têm uma cotação mais elevada.»
O preço das peças na Arte de Bolso varia entre os 30€ e os 300€. Todos os artistas foram convidados, mas Carlota explica que têm cada vez mais auto-propostas e sugestões. Para a galeria é importante manter a diversidade e «o objectivo número um é pôr as obras de arte a circular». «Ganhar dinheiro é fundamental», explica Eduardo Rosa, «mas não deixamos de vender uma obra por causa disso. Se houver realmente quem a queira comprar, a gente faz o pino para que essa pessoa pague em quatro vezes, em três ou com desconto. Antes de mais, por respeito aos artistas. Sabemos que muitos vivem disto e sem esse dinheiro não têm meios de produção e mesmo entusiasmo».
Arte acessível não só a quem não compra porque não pode, mas também a quem já compra só que procura algo mais pequeno e prático. Os clientes são tão diversos como os autores, mas os responsáveis contam que há pouco interesse local. «Acho que se investe em Arte mas a maioria das pessoas de Coimbra que o faz, não o faz cá», comenta Carlota. «Temos jovens curiosos, sobretudo brasileiros», lança Eduardo. «Mas os universitários não são público para a cultura, sobretudo as artes plásticas, tirando o pequeno oásis que é o Colégio das Artes e deve-se, sobretudo, aos estudantes estrangeiros.»

A Galeria Sete tem loja online e exposições ao longo do ano inteiro. Está aberta de terça a Sábado, de manhã e de tarde. Tem um piso inferior, com outras duas salas de exposições e depósito, com obras a perder de vista. A primeira a piscar-nos o olho é uma de João Cutileiro.
Carlota ajuda Eduardo no planeamento e criação de exposições, catálogos e outros conteúdos de divulgação, acompanhamento e atendimento de clientes e gestão da base de dados e inventário. «Vamos sobrevivendo com dificuldades, mais por amor do que por lucro. Vamos aguentando o barco por entusiasmo, senão já tinha acontecido como aconteceu com muitas galerias em Coimbra», desabada Eduardo, coleccionador e comerciante de arte há mais de três décadas. Abriu a Galeria Sete com o irmão, há 18 anos.
Quanto a ser artista em Portugal: «É um caminho sinuoso e difícil. As escolas estão cheias. Coimbra não tem um curso de Belas Artes, tem uma pós-graduação e um doutoramento no Colégio das Artes. Tem alguns artistas, mas em part-time, essencialmente. Sempre foi uma terra muito madrasta para os artistas. Os que temos aqui ou são auto-didactas ou que se formaram fora. Foram esses que deram azo a, por exemplo, grande parte do trabalho que o Círculo de Artes Plásticas fez no início. E a ArCa “animou” muita gente, artistas que vieram do Porto. Esta exposição junta muita gente dessa escola».
A Arte de Bolso é uma oportunidade para quem se quiser deixar surpreender. «Aqui deparam-se com uma coisa em que não conseguem distinguir o mais importante do menos importante, e isso também é interessante do ponto de vista da arte. Permite que a pessoa veja por si mesmo o objecto. Não é o nome do artista que soa.» As peças estão identificadas, mas o nome está bem pequeno e discreto junto às obras.

Além da venda de arte, o objectivo da Arte de Bolso é criar uma dinâmica entre os artistas e construir comunidade. «A inauguração estava cheia de gente», conta Eduardo Rosa, «e alguns não se conheciam e passaram a conhecer-se». O proprietário diz que têm «feito este investimento de estar em Coimbra», mas lamenta o «esvaziamento da cidade» por falta de oportunidades profissionais. Diz que quando clientes e visitantes começam a familiarizar-se com a galeria «vão viver para Lisboa» e «obviamente, depois não vêm a Coimbra, porque Lisboa tem oferta de tudo, nomeadamente galerias, tem havido um grande crescimento». Desenvolvimento económico e melhor mobilidade ajudava.
Eduardo Rosa nasceu em Moçambique, mas vive na região de Coimbra desde jovem. Quando era miúdo o que mais gostava e fazer era desenhos. Formou-se em Engenharia Electrotécnica, mas quando começou a ganhar dinheiro a primeira coisa que fez foi investir em tintas e materiais para pintar. «Ainda fiz uns serões no escritório, mas o jeito não se desenvolveu. Não basta ter uma técnica e habilidade, é preciso ter alguma coisa para dizer. Se não tivermos alguma coisa para dizer, mais vale estarmos calados.» Começou a comprar quadros dos outros e, a pouco e pouco, a paixão pela arte tomou conta da sua vida. «Sou uma espécie de auto-didacta, sempre fui a muito lado e li muita coisa, vi muita coisa.» Abriu a Galeria Sete com o irmão, Paulo Rosa, em 2005. Defende que «os artistas portugueses têm uma arte barata, mas que para os portugueses é cara», no nosso país temos «tendência para gostar do que é de fora» e a internacionalização deve passar por dar aos artistas nacionais a visibilidade que merecem.


























