Sabe do convento quem está la dentro. E o mesmo se pode dizer das igrejas, oficinas, hotéis e casas icónicas por onde passamos todos os dias, sem reconhecer nestes espaços tratados de arte, cápsulas do tempo e testemunhos da vida na cidade. «Olhamos, mas não vemos», diz Margarida Mendes Silva, coordenadora da iniciativa Casa Adentro, que este sábado volta a dar a conhecer o interior e a história de espaços de interesse público em Coimbra por quem melhor os conhece, através de um intenso programa de visitas guiadas e gratuitas.
O evento inspira-se no conceito «Open House», criado em Londres em 1992 para aproximar a arquitectura dos cidadãos, e que habita já mais de 50 cidades em todo o mundo, incluindo Lisboa e Porto, onde a programação se estende por dois dias. Por cá, o número de voluntários que respondeu à convocatória (23, a maioria estudantes do ensino superior) ainda não foi suficiente para cumprir a intenção do Casa Adentro de preencher um fim-de-semana com visitas guiadas. Mas o roteiro é amplo, remete para várias correntes de arquitectura, diferentes períodos da história e tipos de edifícios – alguns vedados ao público ou de difícil acesso, como a Casa Berta Vieira Lima, em Celas. A moradia é de 1954 e foi desenhada pelo arquitecto de Coimbra Carlos de Almeida, um dos grandes nomes da arquitectura moderna em Portugal. A visita é comentada por José Pedro Lima, arquitecto e neto da proprietária.
«Estas visitas são uma oportunidade para ver com profundidade, conhecer equipamentos, redescobrir o património, ouvir as histórias de cada espaço e gostar mais da cidade», convida Margarida Mendes Silva, que, nesta «nesta jornada de prazer, gosto e aventura» destaca também a «vista de 360 graus sobre a cidade» a partir do Sapientia Boutique Hotel. Ainda por desvendar está o Edifício do Infinitto, perto do Terreiro da Erva, também projectado por Carlos de Almeida, um espaço privado digno de conservação, com grande valor arquitectónico e muitas histórias: «Foi uma casa de máquinas de costura, onde se fazia também formação. Já nos anos 80, tinha uma loja de roupa muito procurada», resume Margarida.
O evento é organizado em parceria com o Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, a Câmara Municipal de Coimbra e o Centro Cultural Penedo da Saudade. Consultem o programa para confirmar os horários e os roteiros: as visitas duram 30 minutos, acontecem a diferentes horas do dia e tanto podem ser orientadas por voluntários que receberam formação ou comentadas pelos autores dos projectos, arquitectos, historiadores e investigadores.
Espaços e momentos raros
As portas das Estufas Tropicais do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, um dos primeiros exemplos da arquitectura do ferro em Portugal, são abertas por João Mendes Ribeiro, que assinou o projecto de requalificação, reconhecido com vários prémios. É também o arquitecto quem conduz a visita pelo edifício da Casa das Caldeiras, um dos raros repositórios do património industrial de Coimbra, que mantém a alta chaminé e a maioria da maquinaria, com as duas caldeiras de grande porte, de 1939.
Outro momento único no programa é a entrada no edifício da Cerâmica Antiga de Coimbra, no Terreiro da Erva, considerada a última olaria tradicional de faiança em funcionamento em Portugal, convertida também em «espaço museológico de arqueologia industrial e de restauração». A visita é feita pela arquitecta Luísa Bebiano, autora do projecto de recuperação do imóvel, desenvolvido em co-autoria com Carlos Antunes e Desirée Pedro, e várias vezes premiado.
Para a edição deste ano do Casa Adentro, a segunda, foram definidos cinco roteiros: Celas, Praça, Alta, Baixa e – novidade – Santa Clara. Na ligação à margem esquerda, bastante rica em património e com o Mosteiro de Santa-Clara-a-Nova trazido a primeiro plano pela à bienal de arte contemporânea Anozero, a escolha foi para um espaço «menos comum e que não estará nas prioridades de visita dos cidadãos de Coimbra»: o Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, onde, além das cúpulas astronómicas, podem ser vistos antigos instrumentos de observação e um verdadeiro tesouro – o espectroheliógrafo que, há 98 anos, regista diariamente o que se passa na atmosfera solar.
Em Celas, abrem-se ainda as portas da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, do Real Mosteiro de Santa Maria de Celas e ainda da Casa-Museu Miguel Torga. Pela zona da Praça da República, podem também conhecer melhor a Casa-Museu Bissaya Barreto e seguir até à Alta, com paragens na Igreja de São Salvador, na Real República do Bota Abaixo e na Casa Sobre-Ribas 12. Descendo até à Baixa, o roteiro do Casa Adentro leva-nos ainda até à Igreja do Carmo (classificada como monumento nacional desde 2011 e apresentada nestas visitas pelo investigador Rui Lobo, especialista em história da arquitectura universitária) e ao edifício da antiga estação central do CTT, agora transformado no TUMO, aqui numa viagem conduzida pelo arquitecto José António Bandeirinha.







