Não seria exagero afirmar que o grau de infâmia da frase da ex-primeira ministra britânica Margareth Thatcher é proporcional ao efeito devastador que teve no tecido social. «Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos.» Trinta e cinco anos depois, continuam a proliferar mais e mais caixinhas onde enfiar aqueles indivíduos. Se não está na minha caixinha, está nas franjas da sociedade, portanto, não me diz respeito. O que remete ao poema erroneamente atribuído por vezes ao poeta russo Vladimir Maiakovski e outras ao dramaturgo, poeta e encenador alemão Bertolt Brecht. Na verdade, é de Martin Niemöller, pastor luterano alemão abertamente opositor do regime nazista:
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram
meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram
e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…
É exatamente sobre isso que gira a peça O Senhor Biedermann e os Incendiários, do suíço Max Frisch, amigo de Brecht, escrita em 1958 e encenada agora no palco da Oficina Municipal de Teatro (OMT). O espetáculo faz parte do Projeto A Meu Ver, coordenado por Isabel Craveiro e João Santos, iniciativa do Teatrão com a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) Coimbra, que criou um núcleo de trabalho dedicado à prática teatral constituído na sua maioria por pessoas com deficiência visual.

No palco estão 12 pessoas com deficiência visual, entre cegos e pessoas com baixa visão. Carlos Pimentel é um deles. Ele dá vida ao personagem que dá título à obra. O senhor Biedermann é um ganancioso empresário que está pouco preocupado com os recorrentes incêndios criminosos que estão a acontecer na cidade onde mora. Ele acredita que está a salvo, mesmo a despeito de ter dado abrigo aos incendiários na sua mansão. Como o narrador do poema acima, o senhor Biedermann repete com frequência: «Ainda bem que não é cá». A obra de Frisch, ressalte-se, é uma metáfora da chegada ao poder do nazismo e do fascismo pela Europa. «Texto que cai como luva na atualidade política e social», enfatiza a coordenadora, que é também diretora artística do Teatrão.
Segundo Ana Eduarda Ribeiro, assistente social da ACAPO, o projeto tem proporcionado percorrer sendas ainda hoje pouco percorridas, e espera-se que «este caminho agora desbravado possa ser precursor de novas e grandes caminhadas, que unem a deficiência visual e a cultura», tão necessária para iluminar. Inicialmente, o grupo foi composto por indivíduos com graus diversos de deficiência visual. Mais de metade vive em isolamento social, dependente e sem participação cívica. Uma parte dos utentes teve acesso à formação profissional e trabalha, embora o seu rendimento não permita a independência financeira. No que toca à atividade cultural, raramente consomem bens culturais, limitada à televisão ou rádio. O grupo conta também com participantes normovisuais, da comunidade circunvizinha, perfazendo um total de 18 pessoas.

O isolamento social que Carlos Pimentel conhece bem. Já tínhamos ouvido a sua história. Ele perdeu completamente a visão do olho esquerdo e a do direito é seriamente comprometida em 2018, como resultado de um acidente vascular cerebral (AVA) que sofreu quando tinha 52 anos de idade. «Foi uma maneira de sair de casa.» Para Guida Álvaro, que na peça faz parte do coro dos sapadores, é uma oportunidade para «conviver com a normalidade, trocar experiências e ganhar visibilidade».
A iniciativa do Teatrão com a ACAPO é ainda uma intervenção sobre a cidade de Coimbra, nomeadamente no que diz respeito à acessibilidade cultural. A OMT é o único espaço da cidade que faz parte da Rede de Teatros com Programação Acessível. Sua programação regular inclui tradução em Língua Gestual Portuguesa e, desde o ano passado, oferece serviço de audiodescrição para as audiências com impedimento visual.

No horizonte
O projeto A Meu Ver prevê a encenação de uma terceira peça, em 2024, e depois a formação de um grupo teatral com os atuais participantes. O que colocaria Coimbra no panteão dos pioneiros, pois, como ressalta Isabel Craveiro: «A prática teatral com pessoas com deficiência visual é praticamente inexistente em Portugal».
A experiência de subir ao palco, conviver com várias pessoas tem sido tão gratificante e enriquecedora para Carlos que ele pretende dar prosseguimento com sua carreira artística e fazer parte do grupo que há de se formar posteriormente. Através da arte «ficamos mais libertos de nosso problema». Já Guida não sabe ao certo se integrará o novo grupo, pois depende de outros projetos que tem em mente.

No primeiro ano do projeto, em 2022, foi encenada a peça O Que É Invisível, com texto construído a partir dos universos individuais de cada participante. «O nosso foco voltou-se para as pequenas coisas, para a microscopia dos sonhos, para aquilo que apenas é visível quando paramos e olhamos para dentro de nós», explicam os encenadores.
Com este novo espetáculo, em cartaz nos dias 8, 9 e 10 de junho e com audiodescrição, a proposta é mais ambiciosa e vai além do que é invisível: somar os vários «eus» a que se deu voz anteriormente, a um coro de vozes que vão tornar-se um «nós». Indivíduos antes isolados que agora, através da arte, tornam-se uma pequena sociedade que desafia o capacitismo para mostrar a todos que «a falta de um sentido de coletivo torna-nos insensíveis às chamas que ameaçam casas distantes sem percebermos que, se nada feito, mais cedo ou mais tarde, também a nossa casa sucumbirá às chamas», como alertam os encenadores.

A frase infeliz da Dama de Ferro pode ser comparada à treva branca que se abateu sobre a humanidade no Ensaio sobre a Cegueira. Contudo, com uma grande diferença. É que a doença ficcional criada por José Saramago tem origem desconhecida e alastra-se rápido. No mundo real, ela é insidiosa e contamina aos poucos por ser gerada no universo mental do preconceito. Mas há solução. Coimbra em particular e Portugal em geral são afortunados porque através do projeto A Meu Ver o Teatrão tomou para si «a responsabilidade de ter olhos quando os outros o perderam» e para isso está a seguir o conselho de Saramago: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara».
