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Nesta sala de aula o tecto é o céu

Coimbra é palco de um projecto educativo especial: durante todo o ano, as crianças brincam e aprendem ao ar livre.

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Imaginem uma escola onde o dia começa às 9h com a ida da turma para um jardim onde vão ficar até ao final da tarde, a brincar e a aprender. Crianças e educadores equipam-se a rigor com roupa mais confortável ou impermeável e há uma refeição a meio da manhã, ao ar livre, numa mesa corrida enfeitada com flores acabadas de apanhar. Esse momento é aproveitado para uma assembleia de grupo onde todos têm a possibilidade de participar e sugerir tarefas para o dia: hoje quero construir um carro de bombeiros, quero construir uma casa na árvore, quero um jardim para fazer massagens, quero uma parede de escalada, quero regar.

Este projecto não é ficção, é realidade e é em Coimbra, chama-se Sereia no Jardim. Se nunca ouviram falar, mergulhem connosco neste recanto do Jardim da Sereia, mesmo nas traseiras da Casa Municipal da Cultura.

As instalações da creche e jardim de infância (CJI) da ANIP – Associação Nacional de Intervenção Precoce situam-se junto à Maternidade Bissaya Barreto mas o Sereia no Jardim é uma extensão da CJI no exterior, numa parte do Jardim da Sereia cedida pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) à ANIP e à associação Coimbra em Transição.

Fizemos a visita num dia de sol e conversámos com a equipa educativa responsável pelo projecto que nos contou que tudo começou em 2011,  quando o Exploratório já tinha deixado as instalações e o jardim era um diamante em bruto que não estava a ser valorizado. A vontade da direcção da ANIP, em conjunto com estagiárias do curso de Psicologia, resultou no hábito de levar semanalmente as crianças da CJI ao Jardim da Sereia.

Em 2017/2018, foram mais longe e criaram um projecto piloto que permitiu que um grupo heterogéneo de 8 crianças, entre os 3 e os 6 anos, estivesse lá em permanência, 4 dias por semana. O projecto foi monitorizado pela Universidade de Aveiro e a própria ANIP e os resultados, segundo a equipa educativa, foram fantásticos: ao fim de um ano lectivo, todas as crianças, incluindo algumas com necessidades especiais, tinham beneficiado muito da abordagem, em todas as áreas e domínios do desenvolvimento.

No ano seguinte (2018/2019), sempre com o apoio da CMC, melhoraram-se as estruturas físicas, as limpezas tornaram-se mais frequentes, ampliaram-se as instalações sanitárias e fez-se uma ligação de água quente. E, assim, foi possível fazer o Sereia no Jardim II, desta vez com 12 crianças.

Actualmente, o Sereia no Jardim desenvolve-se num conjunto de ambientes. Desde logo, existem as instalações físicas do projecto, onde há uma sala ampla que serve para brincar e dormir, e o refeitório e a copa onde estão os cabides e coisas necessárias para apoiar as refeições. 

Depois, uma zona de brincar, generosa em tamanho, a que chamam de playground – aqui fazem projectos temporários, há uma mesa que serve para comer (mas que pode também servir de palco), uma zona de trepar, um castelo e um carro de bombeiros construídos com paletes de madeira, e um baloiço feito com um pneu.

Há ainda um espaço com um lago geodésico com uma forma geométrica muito interessante, onde as crianças gostam muito de brincar e onde existiam imensos peixes e nenúfares (que estão a regressar, depois da destruição do Leslie). No meio da horta, há um tesouro escondido: um antigo tanque de rega que se transforma em piscina, no Verão. As crianças aproveitam ainda as estufas (também cedidas pela CMC) para fazer experiências e germinar plantas.

Por último, as instalações sanitárias ficam ao lado do armazéns dos jardineiros da CMC e têm um chuveiro com água quente, para aconchegar as crianças, e secador de cabelo. A preocupação é que existam condições de conforto para todos.

Dúvida: Estamos mesmo a falar de uma escola ao ar livre? As crianças estão lá o ano inteiro? Não se instala a anarquia no quotidiano daquele grupo? Durante todo o ano lectivo, de 2ª a 5ª, entre as 9h e as 17h, o grupo do Sereia no Jardim passa os dias a executar as tarefas que foram definidas na assembleia matinal. Há liberdade de escolha nos pares da brincadeira, come-se cá fora e dormem-se sestas profundas porque, explicaram-nos, como o espaço é muito amplo é mais exigente fisicamente, por isso há necessidade de descanso.

Não fiquem a pensar que o grupo é obrigado a suportar, na rua, todas as condições atmosféricas. Acontece muitas vezes estarem, ao mesmo tempo, crianças a brincar dentro da sala e outras lá fora porque há total liberdade na exploração dos espaços, mas tudo dentro da responsabilidade e do compromisso que o grupo assume quando decide levar a cabo uma determinada tarefa. As sextas-feiras são passadas no Jardim de Infância.

Será que todos os miúdos gostam de brincar com a terra, mesmo os que nem conseguem pôr um pé na areia da praia? 

Ficámos a saber que este é um modelo inclusivo, que funciona para todas as crianças. Segundo nos contou a equipa educativa, trabalham na natureza e a natureza oferece os estímulos na medida certa, na medida em que cada um quer e precisa, o que também tem a ver com o papel que o adulto assume e a forma de ele estar no exterior. A equipa é meramente facilitadora, lê e ajuda as crianças a perceberem o que se está a passar à volta delas e ajuda a transformar esse processo numa aprendizagem.

Aliás, a natureza oferece um estímulo ideal para crianças identificadas com necessidades especiais. A equipa garante que crianças autistas encontram uma tranquilidade fabulosa e assistem-se a momentos de interacção com os outros que são muito raros no dia-a-dia delas.

Muitos pais levantam ainda a preocupação de este modelo de aprendizagem poder não adequar os mais novos àquilo que será um dia-a-dia convencional, organizado das 9h às 17h. A equipa da ANIP explicou-nos que, muito pelo contrário, o facto de a criança ao ar livre se confrontar com mais desafios físicos e que implicam a cooperação para atingir um determinado objectivo, a resiliência e a autonomia são trabalhadas de uma forma mais natural. Asseguraram-nos que as crianças que participaram na 1.ª edição do Sereia no Jardim e seguiram para o 1.º ciclo estão a ter resultados muito bons.

Não ficam mais vezes doentes? Pelo contrário: crianças que tinham bronquite asmática com várias crises por ano, e recorriam a vasodilatadores com frequência, diminuíram bastante a frequência dos episódios.

A ANIP é uma IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) especializada em intervenção precoce (IP) que nasceu em 1998, com o objectivo de disseminar as boas práticas de IP a nível nacional. A sede fica na Rua do Instituto Maternal, em Coimbra. Para além de ser a referência nesta área, a ANIP arregaça agora as mangas no sentido da criação de um modelo educativo em todo o país de brincar e aprender ao ar livre, que já é pioneiro na cidade, já que se desenvolve ao longo de todo o ano (e não apenas durante um determinado período de tempo).

As instalações da CJI desenhadas pelo Professor Bissaya Barreto são autênticas obras de arte e todo o espaço foi concebido a pensar na criança no espaço exterior. Aliás, na década de 50, Bissaya Barreto construiu um dormitório para bebés no exterior que é ainda hoje considerado uma ideia inovadora. 

Assim, ao instalar-se naqueles edifícios, a ANIP já bebeu de forma natural esta relação com o espaço exterior. A equipa educativa responsável confessou-nos que a ambição da ANIP era que isto impulsionasse outros projectos a nível nacional, que o modelo servisse para serem criadas outras escolas da mesma natureza. 

Dizem que o trabalho é revigorante e o ambiente tranquilo e familiar, de muita proximidade com as crianças e as famílias. Na ANIP, as restantes turmas de crianças visitam o grupo do Sereia no Jardim com muita regularidade (uma vez por semana), porque a filosofia da exploração do espaço exterior como ferramenta de aprendizagem está mesmo no ADN da instituição.  

Texto e fotos: Joana Pires Araújo

Artigo actualizado às 12h20 de 11 de Março de 2020

 

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