Contribuir small-arrow
Voltar à home

Fomos até ao Bussaco e redescobrimos a Mata Nacional a caminhar

Fernando Pessoa afirmava que a melhor forma de chegar a Lisboa era de barco, de ver as casas a crescer a cada avanço do barco e a ela aportar. Com a Mata Nacional do Bussaco reconhecemos algo de semelhante, há que chegar até ela caminhando, de passos firmes serra acima, adentrando assim por esta floresta […]

Partilha

Fernando Pessoa afirmava que a melhor forma de chegar a Lisboa era de barco, de ver as casas a crescer a cada avanço do barco e a ela aportar. Com a Mata Nacional do Bussaco reconhecemos algo de semelhante, há que chegar até ela caminhando, de passos firmes serra acima, adentrando assim por esta floresta mágica.

A fórmula até é simples: deixar o carro no Luso, levar apenas o necessário, água q.b. e calçado confortável e meter pelas escadas que ladeiam o descuidado Teatro Avenida – que necessita de uma rápida intervenção, antes que sucumba às intempéries (vejam lá isso, Câmara Municipal da Mealhada) -, e penetrar na Mata por uma das suas portas. Neste caso, a de São João.

Há muito a explorar, a Mata soma 105 hectares, o que, para percebermos a ordem de escala, é 10 vezes a Alta de Coimbra, a original cidade intramuros. Tracei um percurso, entre as múltiplas possibilidades oferecidas pelos caminhos existente, que me conduzirá até à Cruz Alta, um dos pontos mais altos da Serra, a 547 metros de altitude, assim os gémeos contribuam.

A primeira coisa com que nos deparamos ao chegar ao Bussaco é a cerca conventual que delimita a Mata. O Bussaco é o único Santo Deserto construído em Portugal pelos Carmelitas Descalços, a partir de 1628. Aqui, viviam em clausura e isolamento total. Mantinham um mundo à parte, que separava o exterior, o mundano, do interior, a vida dedicada à contemplação e à experiência da penitência e oração.

Os monges moldaram incansavelmente as encostas, construíram e plantaram, movidos a devoção. Além do Convento de Santa Cruz, ergueram 4 capelas devocionais e 11 ermidas de habitação, das quais restam 9, e onde residiam alguns monges, isolados da restante comunidade em absoluto ascetismo. Construíram também a Via Sacra, um Sacromonte com 22 passos, que pretendiam reproduzir a Cidade Santa, em pequenas capelas num percurso com cerca de 3 quilómetros.

Na cerca que circunda o Deserto, rasgam-se Portas que a ele permitiam aceder. Como as Portas de Coimbra, outrora as principais, e onde estão gravadas, entre o empedrado embrechado, duas curiosas bulas papais: uma a interditar o acesso às mulheres, a outra a proibir que se cortassem árvores. Faz-se o caminho percorrendo a Via Sacra e visitando os eremitérios, fazendo os desvios necessários até à Cruz de Vopeliares (que integra os capitéis da antiga igreja de São Cristóvão, na Alta), descendo a encosta até à degradada Porta das Lapas, acompanhando o riacho até aos Lagos, Grande e Pequeno, em sucessão.

[post-ad]

Sacode-se alguma energia a subir a Fonte Fria e percorrem-se os trilhos espreitando as fontes, os passos e as ermidas, em esforço crescente, até alcançar o topo da Mata, o topo deste mundo. As horas sucedem-se, a subida é exigente e tomaria 3 horas, não fossem as constantes paragens que a fazem prolongar a gosto. As paragens servem para observar esta ou aquela árvore, e abraçá-la à altura do peito. Para saborear o silêncio e encontrar alguma dessa contemplação de que os monges tanto ansiavam.

Aqui, o panorama oferece um enquadramento num perfeito equilíbrio entre o céu e as copas dos Cedros-do-Bussaco (que não são nem cedros, nem do Bussaco). Ao saltear alguns degraus, oferece-se uma bifurcação e uma escolha. Este é um deserto pulsante de vida, uma entidade que sobrou da época em que os mistérios da Natureza se associavam à presença do divino. Os lugares elevados, as formações rochosas, os riachos, as árvores, em tudo se identificava a presença de Deus. E os monges do Bussaco acreditavam que tinham que plantar árvores o mais altas possível, para mais próximo se encontrarem com o firmamento.

Outros percursos

Há diversos trilhos que se podem fazer, organizados, como o Trilho da Água, o da Via Sacra, o Militar e o da Floresta Relíquia. Este último, permite conhecer melhor a Mata Climácica (paisagem primitiva), o Adernal do Bussaco, um olhar sobre o que seria a primitiva floresta antes da presença humana. Preferimos este trilho informal, este mapeamento ao dará, que vai impulsionando a voltar uma e outra vez para descobrir novos recantos desta floresta encantada. E agora que a Mata Nacional do Bussaco é candidata a Património Mundial e se recuperam muitos dos seus recantos, há que vir e revisitá-la.

 

Mata Nacional do Bussaco
Horário: 2ª-6ª 9h-18h | Sáb, Dom e Feriados 9h-18h30
Preços: Acesso gratuito a pé e de bicicleta, pagável para acesso automóvel
Site 

Texto e fotos: Rafael Vieira

Mais Histórias

Os mais lidos do ano e uma piscadela de olho para 2022

Mesmo que meio às cambalhotas, com esta pandemia que parece não dar tréguas, chegamos ao fim de mais um ano de coração cheio e com a sensação de missão cumprida. Teimámos em manter as mangas arregaçadas e isso, juntamente com os encontros que foram acontecendo e as boas energias que nos foram chegando desse lado, […]

quote-icon
Ler mais small-arrow

Já viram os Concertos para Bebés programados para 2022?

Na recta final de um 2021 ainda bem desafiante, os Concerto para Bebés renovam as energias com um calendário cheio de coisas boas para descobrir em 2022. Além da programação regular no Convento São Francisco, em Coimbra, a companhia que faz espectáculos para crianças dos 0 aos 3 anos apresenta 11 programas distintos nas salas nacionais. A residência […]

quote-icon
Ler mais small-arrow

ACADEMIA STORIES | Estudo permite descontaminar máscaras de forma simples e barata

Uma equipa multidisciplinar da Universidade de Coimbra (UC) estudou e testou três formas simples e baratas de descontaminação de vários tipos de máscaras de proteção contra a Covid-19, que revelaram uma eficácia de praticamente 100%, permitindo vários ciclos de reutilização. O estudo, coordenado por Marco Reis, docente e investigador do Departamento de Engenharia Química da […]

quote-icon
Ler mais small-arrow
Contribuir small-arrow

Discover more from Coimbra Coolectiva

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading