Dentro da pequena biblioteca comunitária da República do Kuarenta, Joana Coelho, estudante de Biologia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (UC), Maria Carolina Baptista, estudante de Sociologia na Faculdade de Economia da UC, e Mariana Costa, estudante de Psicologia Forense na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC, falam sobre o movimento Coimbra pela Palestina e refletem sobre como o ativismo impactou a sua visão do mundo.
A revolta de não conseguir compreender
Nesta mesma sala, a 19 de outubro de 2023, foi criado o Coimbra pela Palestina, um coletivo que surgiu da “necessidade de expor o que estava a acontecer com veracidade”, como refere a estudante de Biologia.
Joana e Mariana decidiram criar o movimento porque a libertação do povo palestiniano é uma questão que lhes toca profundamente. “Pesa-me muito saber que existe toda uma população que só pelo facto de ter nascido no sítio em que nasceu, a esperança média de vida é menos de 18 anos”, reitera Joana. Para Mariana, a motivação “veio de um lugar de revolta, de inquietação e também de nem sequer consegui compreender”.
Com experiência ativista noutros campos, Maria juntou-se ao movimento mais tarde, porque queria informar-se. A seu ver, “não há espaço melhor para o fazer do que com pessoas que estão [no movimento] sem nenhum viés político ou de propaganda”. A partir daí surgiu a inquietação e a necessidade de ser um fator de mudança através da união.

Consciencializar, reivindicar e informar
De acordo com as jovens, o coletivo é composto por pessoas “humanistas que têm necessidade de criar autodeterminação para elas e para os outros”, além de um número considerável de indivíduos que participam noutros movimentos. “É multidisciplinar, as peças juntam-se e conseguimos formar um coletivo que é super dinâmico e é versátil em vários níveis”, acrescenta Joana.
Este movimento estudantil, civil e horizontal está aberto a qualquer um que esteja interessado em lutar pela causa palestiniana e contacto pode ser feito através do Instagram ou do e-mail libertem.palestina@gmail.com.
Mariana esclarece que o objetivo inicial passava por consciencializar a comunidade de Coimbra e combater a desinformação nos meios de comunicação tradicionais. Assim surgiram meses de manifestações populares, vigílias, sessões de leitura, mostras de documentários e rodas de conversa, que culminaram numa acampada estudantil em frente a Faculdade de Letras da UC, que durou 30 dias. Daí nasceu “uma revolta sobre a falta de posicionamento do governo, dos dirigentes académicos e dos estudantes sobre a ocupação da Palestina”, declara.

Após os primeiros meses, começaram a perguntar-se “como é que a comunidade estudantil poderia estar tão silenciosa quando, noutros momentos da história, se pronunciou muito assertivamente sobre questões deste género”. Este questionamento levou-os a focarem-se no meio universitário.
Mariana conta que a acampada surgiu porque estavam há meses a recorrer à Assembleia Magna para terem as suas reivindicações ouvidas e tal não estava a acontecer. Para Joana e Maria, a acampada teve um papel importante na “capacitação política” dos envolvidos. “Foi muito surpreendente perceber o quão pouco informada a população estava e o quão distantes se sentiam relativamente ao assunto”, expõe Joana.
Segundo a estudante de Biologia, por tratarem “um tema tão frágil como o genocídio”, lidam com “todo o tipo de reações” durante as ações que desempenham. Mariana explica que muitas pessoas desconheciam a luta que estavam a travar enquanto outras apoiavam e encorajavam a continuar.
Nesse sentido, a ponte entre os problemas nacionais e os problemas na Palestina ajudou à continuidade do grupo, na opinião de Joana e Maria Carolina. “Apesar de estarem empáticas, muitas pessoas sentiam-se distantes geograficamente e pudemos aproximá-las da causa, porque o que está a acontecer aqui é o reflexo do que está a acontecer no resto do mundo”, reforçam.
Mariana considera que é difícil quantificar o impacto que causaram na cidade e na academia. Porém, considera que conseguiram mexer com estruturas, pois organizaram manifestações com 300 pessoas.
“Demonstramos que existe resiliência quando acreditamos que podemos denunciar ativamente aquilo que muitos outros se esforçam para esconder. Os estudantes têm uma posição a tomar sobre a universidade”. (Mariana Costa)
Contudo, reconhece que as ações não foram suficientes para que a UC terminasse as relações institucionais com o Estado de Israel. Por sua vez, Joana sabe que o processo vai ser longo, mas acredita que vai ficar “bem feito” e, por isso, estão dispostas a continuar a produzir mudança.
As reivindicações dos jovens são reconhecidas?
Quando questionadas se as reivindicações dos jovens são encaradas com a seriedade que merecem, Mariana respondeu prontamente que não. A seu ver, as pessoas crescem num meio em que são ensinadas que vão ser representadas por outras pessoas e não podem fazê-lo por si próprias. Sendo assim, considera que não foram levados a sério pelos seus representantes: os dirigentes da Associação Académica de Coimbra, o reitor da UC e o Presidente da República Portuguesa.

Por sua vez, Joana admite que durante muito tempo também achou que as reivindicações dos jovens não eram levadas a sério. No entanto, mudou de opinião quando tiveram oportunidade de contactar com Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, que os parabenizou pelo trabalho realizado. “Para mim, enquanto pessoa que faz parte do movimento, é tudo”, reforça.
Joana defende que “num país adormecido a nível de literacia política”, a importância de movimentos coletivos fala por si, pois mostram que “é possível existir, resistir e criar mudanças com muito pouco e sem associações a partidos políticos”.
“Este fervor dos agentes de ação popular são a motivação de que algo pode ser mudado. A organização em movimentos coletivos é o culminar do cansaço que as pessoas estão a sentir de um sistema que não está a funcionar e que não vai funcionar”. (Maria Carolina Baptista)

Relativamente à ligação entre o Ensino Superior e o ativismo, Joana considera que “o passado histórico da Associação Académica de Coimbra é o exemplo claro de como associativismo estudantil cria transformação na política nacional”. Mariana e Maria referem também a importância da propagação de ideias que existe neste meio.
Apesar de concordarem que Coimbra é uma cidade propícia ao desenvolvimento de grupos ativistas, alavancado pelo papel das Repúblicas e pela associação académica mais antiga do país, não deixam de referir a alienação política que também se evidencia, causada pela praxe.
“Um mundo que não é movido pelo capital”
As três ativistas concordam que o panorama político nacional e internacional influência a decisão de fazer ativismo. “Só não há mais pessoas a fazer ativismo porque tanto a política nacional como internacional oprime totalmente os ativistas”, revela Joana.
Neste sentido, Maria Carolina considera que é difícil “crescer e conseguires radicalizar-te num sistema que não te permite fazê-lo”, pois “todo o processo de te tornares ativista é teres de sair da tua zona de conforto e perceberes que, na verdade, não és livre enquanto outras pessoas não forem”.
Mariana segue a mesma linha de raciocínio: “um processo de desconstrução tem de existir para haver um de construção no qual tu te tornas ativista no sentido de teres uma contribuição ativa e lutares por aquilo que achas que tens direito e a que todos temos direito como povos”.

Quando questionadas sobre o que gostavam de alcançar através do ativismo que realizam, Maria expressa que tudo o que almeja corresponde ao “fim do sistema capitalista e imperialista”. Só assim, na sua perspetiva, é possível alcançar oportunidades iguais, casas com saneamento básico, alimentação, trabalho digno e, por fim, a libertação dos povos. “Quero uma Palestina livre, independente, autodeterminada”, conclui. Opinião partilhada por Mariana. “Também almejo um mundo que não é movido pelo capital. Pelo contrário, que é movido pelo humanismo, por toda a gente ter os mesmos direitos. Livre na sua plenitude”.
“O que gostava mesmo era que houvesse recursos financeiros públicos acessíveis a todos para ajudar a desenvolver a nossa sociedade de uma maneira muito mais humanista e igualitária”. (Joana Coelho)
Para Mariana, o ativismo trouxe-lhe a perceção de que ainda existe muito trabalho por fazer. “Exercita-se muito quem somos, tanto a nível individual como comunitário. O ativismo trouxe-me resposta a muitas das impotências que nos são incutidas é um instrumento de disseminação da informação coletiva a pontos que nós nem sequer imaginamos”.







