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Opinião | Geração Cooletiva reinventa a democracia em Coimbra nos 50 anos do 25 de Abril

Por José Carlos Mota

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Fotografia: Mário Canelas

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Na vida não há muitas oportunidades de expressar coletivamente e de uma forma estruturada o que sentimos pela nossa cidade e são ainda mais raros os momentos em que nos desafiamos a colocar as mãos na massa e a passar das ideias de mudança à prática.

Os 50 anos da celebração da democracia em Portugal deviam fazer-nos pensar porque tal acontece. Uma das razões será o desinteresse ou a apatia pela vida que nos rodeia, tantas vezes hostil ou anónima. Outra, o desconhecimento de como se pode participar ou a forma desadequada como somos convidados a fazê-lo, muitas vezes quando tudo está já decidido.

Outra ainda, a desconfiança de que nada muda por mais que nos esforcemos. Os decisores não nos escutam e não respondem às nossas necessidades.

A análise de experiências participativas bem-sucedidas, tanto em Portugal como no mundo, revela que a clareza e a utilidade dos objetivos, a criação de espaços e métodos apropriados, juntamente com a construção de confiança com os promotores da participação e a sensação de que o esforço é recompensador, são elementos essenciais para o envolvimento cívico profundo e significativo dos cidadãos.

As razões acima apontadas explicam o enorme sucesso que foi o arranque da segunda edição da Geração Cooletiva em Coimbra que contou com quase 200 participantes. Ao longo de um dia intenso e comprometido de trabalho cívico, para terem uma ideia depois de 10 horas de atividade a sala da antiga Coimbra Editora ainda estava cheia – os participantes, organizados em grupos, geraram 27 projetos de transformação social em vários domínios, apoiados por um bem equilibrado programa de palestras inspiradoras e um trabalho personalizado de mentoria.

Houve um elo de ligação que uniu as 27 propostas, mais de metade das quais vai seguir para a fase de capacitação mais especializada ao longo das próximas semanas, e esse elo foi o apelo à proximidade. Uma proximidade relacional entre gerações, culturas, identidades e sentidos de pertença e uma proximidade física entre pessoas que habitam ou trabalham no mesmo território mas que não encontram forma de partilhar os seus saberes, preocupações e vontades.

O resultado desta Geração Cooletiva é, pois, muito mais do que um somatório poderoso de ideias, é um manifesto por uma outra forma de construir a cidade, mais colaborativa e com propósito comum, e uma agenda de temas e causas que podem unir e mobilizar os 140 mil habitantes da cidade, 34% delas com formação superior (bem acima dos 20% da média nacional), os mais de 8.000 novos residentes de 114 nacionalidades, os 34.000 reformados, os 16.500 jovens até aos 14 anos e os 12% de pessoas que vivem sós.

A próxima etapa será certamente exigente e trará novos desafios. O objetivo é ajudar a transformar as ideias em projetos e depois em ação no terreno. Para que isso aconteça, serão realizadas ações de capacitação. Mas há três cuidados a ter.

O primeiro cuidado é garantir que os beneficiários das ações propostas – as crianças, os jovens, os idosos, os migrantes – não sejam só os destinatários, mas os obreiros das suas transformações. Isso significa que deve haver um cuidado em garantir formas de envolvimento desses grupos alvo durante o amadurecimento das ideias e a sua transformação em projetos e ação.

O segundo cuidado é convidar outros potenciais colaboradores para ajudar a pensar, conceber e executar os projetos. Uma boa divulgação dos temas dos projetos, e até uma convocatória explicita a colaboradores, pode mobilizar mais saberes, científicos mas também populares, entidades e projetos, gerando complementaridades, sinergias e, quem sabe, ligações inesperadas, contribuindo para dar coesão, robustez e reconhecimento a um ecossistema de inovação social da cidade.

Por último, é fundamental informar e influenciar a agenda pública para que seja mais sensível às preocupações dos cidadãos e apoie, facilite e incentive uma boa articulação entre projetos cidadãos e ação municipal, reforçando alinhamentos e tornando-se mais permeável à mudança e à necessidade de gerar impacto social.

Coimbra ofereceu no Sábado uma enorme lição que o tempo e a distância irão tornar mais óbvias. Uma lição que tem a ver com uma outra forma de encarar o sonho e a tradição. Um sonho não individual e imaterial mas que emerge duma forma nobre de inteligência coletiva e se materializa em ação palpável. E uma tradição renovada de filantropia pelo bem comum, que se inspira nas obras referenciais de Elísio de Moura ou Bissaya Barreto, mas que se financia e edifica numa base comunitária.

No momento mais difícil que a democracia atravessa em Portugal, é esta a lição de Coimbra que devemos apoiar e replicar para responder aos temores e receios. Dar palco à cidadania de proximidade para criar vínculos e confiança, oferecer aos mais vulneráveis respostas úteis e eficazes aos seus problemas e esperar que os poderes públicos acompanhem e apoiem.

Obrigado, Filipa Queiroz, Joana Pires Araújo e Gonçalo Quadros.

José Carlos Mota é conimbricense, Professor da Universidade de Aveiro e membro da
associação Casa da Participação (jcmota@ua.pt)

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