Uma startup é criada quando uma ideia se torna num negócio que convence outros (clientes, parceiros, investidores). Uma startup identifica um problema (ou uma oportunidade), que resolve com uma solução melhor que as atuais, gerando valor para quem a usa e para o negócio. Uma startup opera muitas vezes em condições de incerteza, onde procura crescer rapidamente através de um modelo de negócio repetível e escalável.
Em Coimbra, a partir do Instituto Pedro Nunes (IPN), nos últimos 28 anos criámos mais de 460 startups que geraram mais de sete mil empregos qualificados. O salário médio que essas empresas pagaram em 2022, foi 2.7x superior à média nacional e, por cada euro que receberam em subsídios, pagaram 14x mais em impostos. Estes foram alguns dos dados que o Presidente da Direção do IPN, João Gabriel Silva, destacou na sessão de abertura da Startup Capital Summit, no passado dia 10 de maio, no Convento São Francisco.
Esta é a terceira edição deste evento, que é uma iniciativa da Universidade de Coimbra (UC), organizado em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e o IPN. E por que é importante organizar este tipo de jornada em Coimbra?
Coimbra tem uma comunidade única: a UC forma pessoas nas mais variada áreas, gerando novas tecnologias e investigação; o IPN articula com a UC os processos de transferência de tecnologia, isto é, fazer com que a investigação se torne inovação e chegue ao mercado, transformando-as em negócios, através de processos de inovação, empreendedorismo, incubação e aceleração de startups. O município ganha com a instalação de empresas, que geram riqueza e criam empregos, retendo e atraindo pessoas, numa altura onde o declínio demográfico ainda prevalece.
Dedicar um dia ao tema das startups, do empreendedorismo, da transferência de tecnologia e do financiamento é, por isso mesmo, muito relevante! Tão relevante que acolhemos cerca de 1.100 pessoas, entre representantes de startups e outras empresas, de incubadoras, da academia e investigadores/as, de Portugal e do estrangeiro.
Mostrámos o que de mais inovador os nossos emprendedores/as estão a trazer ao mercado: a FiberSight usa tecnologia de fibra óptica desenvolvida no CERN, combinada com dados de Observação da Terra obtidos por satélites, para detetar fugas de água perdidas nos sistemas de distribuição; só em Portugal, perdem-se todos os anos o equivalente a 45 barragens, o que equivale a 30% de toda a água!
A SafeCaring vai permitir que os profissionais de saúde deixem de perder tempo com a «papelada», automatizando os registos de atos de enfermagem e outros cuidados, dando alertas para situações de risco (queda, ou agitação) e ainda lembretes para intervenções agendadas; para isto usa visão computacional e inteligência artificial (IA). É também com recurso a IA que a ByTheLaw vai permitir otimizar as pesquisas de legislação em escritórios de advocacia.
A Noytrall aborda o crescente problema de sustentabilidade na indústria hoteleira, permitindo aos hotéis monitorizar o seu consumo de recursos, como energia e água, integrando tecnologia de Internet das Coisas (IoT) com análises avançadas de dados.
Estas são algumas das soluções propostas pelas 10 startups que foram finalistas do Startup Pitch Competition, que teve mais de 40 candidaturas. A equipa vencedora foi a TimeUp que vai reduzir as infecções urinárias (IU), através de um dispositivo de diagnóstico in-situ/in-vitro desenvolvido para as detetar precocemente. Ao monitorizar continuamente a urina, o TimeUp fornece informação em tempo real sobre a presença de bactérias específicas, permitindo a deteção precoce da IU e a intervenção oportuna por parte dos profissionais de saúde, ainda antes da ocorrência de sintomas. Acoplar o TimeUp a cateteres urinários contribuirá para reduzir a carga de IUs no sistema de saúde e a necessidade de administração de antibióticos. As infeções urinárias associadas a cateteres representam 30% de todas as infeções associadas aos cuidados de saúde, sendo responsáveis pelo prolongamento do internamento hospitalar, pelo aumento dos custos de saúde, da morbilidade e mortalidade.

O ambiente durante o dia foi vibrante! De manhã um programa mais institucional, no Grande Auditório, onde o «Uso Responsável da Inteligência Artificial Responsável» foi debatido por Maria Manuel Leitão Marques e Paulo Dimas. Silicon Valley e a Bay Area de S. Francisco também estiveram presentes mostrando como por lá se fazem os negócios entre startups e investidores. O nosso melhor hacker ético, co-fundador da Ethiack, André Batista conversou com Rita Piçarra ex-quadro da Microsoft, que se reformou aos 44 anos. O som do navio da Bienal de Arte fez-se ouvir intrigando o painel e a audiência, mas rapidamente alguém o explicou, num momento que arrancou sorrisos. Houve ainda tempo para quem gere fundos de investimento, o BEI – Banco Europeu de Investimento, o BPF-Banco Português de Fomento e a PV-Portugal Ventures apresentar e debater o panorama atual deste tipo de financiamento e como o fazer chegar às startups.
Na parte da tarde, nas salas em volta do claustro, o ambiente fervilhou com os/as participantes a dividir-se entre salas com painéis de debate sobre: espaço, saúde, biotecnologia, sustentabilidade, o ecossistema de empreendedorismo e inovação, internacionalização, o papel dos fundos de investimento, as várias conversas, os workshops e a competição de pitchs. Foram mais de 40 sessões paralelas! Uma sala de reuniões 1-to-1 permitiu reuniões entre as startups, investidores e outros stakeholders (parte interessadas). A intensidade do dia culminou com um networking sunset, naquele que talvez seja o melhor spot para este tipo de eventos: o jardim por cima da caixa de palco, com vista sobre a imagem postal da nossa cidade. Com um DJ a animar, Licor Beirão, cerveja e doçaria da Briosa e gelados da Cosí, ninguém arredou pé até o sol se pôr!
Notas finais: menos positivo, num evento com 84 oradores/as, o desequilíbrio de género que marca o empreendedorismo e a tecnologia ainda se fez notar (59 homens e 25 mulheres), apesar do esforço da equipa que organizou. Mais positivo a destacar: a oportunidade criada para gerar conexões significativas, em quantidade e qualidade, entre quem realmente precisa de conhecer e falar, o reforço da nossa comunidade empreendedora e do posicionamento de Coimbra, no panorama do empreendedorismo tecnológico. Última nota para a energia boa, os sorrisos, os cumprimentos, os abraços, o entusiasmo de estar e fazer ligações entre pessoas!
De Coimbra para o mundo, as nossas startups põem-nos no mapa! A Startup Capital Summit volta em 2026.
Carla Duarte é gestora de inovação no IPN
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