Seria um sonho bonito, um sonho tranquilo, poder caminhar alegremente por passeios largos, sem receio de bater contra um poste; sem quase partir a canela num pino ou pilarete que até nem sempre está subido, sem ser irritantemente penteado pelos ramos de uma árvore por podar; sem esbarrar com uma trotinete ou encontrar um «popó» esparramado no passeio, pelo facto do seu dono achar que a ele tudo é permitido e os interesses dos demais que se lixem; sem chegar a casa com a sola dos sapatos ou mesmo a bengala presenteados com dejetos de cão, esse fiel amigo que em nada é culpado pela falta de civismo do seu dono; sem bater com a cabeça num obstáculo elevado no ar como toldes, sinais de trânsito, andaimes, varandas demasiado baixas, cordas de roupa e reclames em forma de raquete, porque nem a bengala disso nos livra; sem tropeçar num buraco ou pior, ser engolido por ele; sem encravar a bengala nas várias pedrinhas desniveladas da tão linda calçada portuguesa ou sem bater contra tudo aquilo que encontramos estacionado nos passeios esse lugar tão adequado para os colocar.
Falo de caixotes do lixo, cabines telefónicas, postes de sinalização de todo o tipo, postes de iluminação, árvores, marcos do correio e até paragens de autocarro, coisas muito úteis, inclusive como pontos de referência para quem não vê, mas que não deveriam estar localizados em passeios onde a sua largura apenas permite a passagem do pião mas tão só se este fora quase transparente. Sei que muitas vezes o traço antigo das cidades não permite alvejar usufruir de largos passeios, mas ajudaria muito se ao percorrer esses locais, apenas possível em autêntica fila indiana, não esbarrássemos literalmente com um variado leque de obstáculos e que nos obrigam a deslocar-nos para a faixa de rodagem de modo a prosseguir em frente, com o perigo que isso implica para o trânsito e sobretudo para o peão.
Trata-se de uma realidade que torna a opção de ir a pé ou fazer uma caminhada pelas várias
localidades deste país, onde se inclui a mais bonita na hora da despedida, numa verdadeira
aventura ou mesmo num frete. Hábito que deveria estar acessível a todos e praticado por
todos, o andar a pé, como exemplo de uma atividade que visa um ambiente mais sustentável e
um modo de vida mais saudável. De tal forma é assim, que o simples caminhar pelo passeio é uma atividade geradora de stress, pelo receio de embater contra um obstáculo. Inclusive chegamos ao ponto de diversas vezes nos sentirmos tentados, sempre que o tráfego escasso o permite, a descer para a faixa de rodagem, uma vez que enquanto não se ouve o aproximar do ruído de um veículo automóvel, sabemos que não vamos bater com a cabeça num obstáculo que está onde não deveria estar.
Até posso concordar que a famosa calçada portuguesa, com as suas pedrinhas pretas e
brancas fazendo desenhos diversos, dão um ar às nossas cidades que para além de belo, é
ímpar. Contudo, como pessoa que considera que os equipamentos e estruturas ao serviço do
cidadão, devem sobretudo privilegiar a funcionalidade e o bem-estar deste e apenas depois,
uma vez assegurado esse primeiro requisito, se deve pensar em questões como a estética,
defendo há muito que a referida calçada deveria ser substituída por um piso predominantemente liso e menos suscetível a formar buracos com frequência. Penso ser com base nesta ideia que os responsáveis autárquicos de uma cidade insuspeita como o berço da nacionalidade, decidiram abolir dos seus passeios a afamada calçada, substituindo-a por um piso liso e com um material que não exige tanta manutenção. Com tal medida, caminhar em ditos passeios, tornou-se muito mais confortável e as nossas bengalas rodam livremente sem encravar e sem fazer um autêntico Harakiri na nossa barriga.
Outro belo exemplo daquilo que se pode chamar uma cidade confortável para caminharmos,
não apenas nós, indivíduos com deficiência visual, mas também todos aqueles que necessitam
de uma cadeira de rodas para se deslocarem, assim como aqueles que caminham empurrando
um carrinho de bebé, é a cidade espanhola de Oviedo, sítio que já tive o prazer de visitar.
Excelentíssimos senhores presidentes de câmara e responsáveis pela governação em geral: sigamos os bons exemplos por favor!
Não é fácil concluir este pequeno escrito, de uma forma agradável, lembrando aspetos positivos ao nível dos passeios desta cidade, há tanto tempo entregue em mãos de quem tanto anos perdeu sem nada fazer. Mesmo um melhor ordenamento e o rebaixamento dos passeios no local das passadeiras para peões ficam ofuscados pela tal calçada de que já falei, por impedir a melhor deteção do piso com pequenas meias esferas em relevo ao utilizarmos a bengala. Espero que o meu caro colega, agora com a responsabilidade dos destinos desta metrópole, nos permita outro tipo de análise mais favorável, daqui a algum tempo.


António Paulo Pereira é médico psiquiatra, a exercer funções como Assistente graduado no Centro Hospitalar Médio Tejo, fascinado pelos mistérios e singularidade da mente humana.
