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Livro «Da Incerteza como princípio»

Opinião | Uma reflexão urgente sobre o estado do jornalismo e das democracias contemporâneas

Por Ana Teresa Peixinho

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Fotografia: Francisco Soares de Oliveira

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Livro «Da Incerteza como princípio»

No início do verão de 2021, foi publicado pela Tinta da China um extenso volume de homenagem ao Professor Mário Mesquita, ao qual foi dado o título de Liberdade por Princípio. Fundador do primeiro curso universitário de Jornalismo em Portugal, na Universidade de Coimbra, o saudoso Mário
Mesquita sempre reclamou a Liberdade como valor matricial do Jornalismo e da vida democrática, como pilar da vida política, como princípio ético.

Hoje, passados pouco mais de dois anos, num momento em que o curso de Jornalismo de Coimbra celebra os seus 30 anos de existência, é a vez de um professor desse curso, também ele discípulo de Mesquita, também ele antigo jornalista, lançar o livro Da Incerteza como princípio. Jornalismo, democracia, decadência da verdade.

Este título, bem menos otimista, é a todos os níveis inquietante, desafiador e, direi mesmo, provocador. Poderá a incerteza ser um princípio do Jornalismo? Deverá uma atividade profissional e discursiva, fundada no sentido de comunidade, de conhecimento, de mediação simbólica, ter como princípio o
incerto e o fluido? E este princípio funciona como e serve quem? Os jornalistas, as comunidades, as empresas de media? Que consequências tem a incerteza para a configuração e o papel do campo jornalístico?

Lidas as três partes que estruturam a obra, antecedidas por um circunstanciado prefácio de Joaquim Fidalgo e por uma «introdução» (a que João Figueira faz questão de chamar Primeiras Impressões), lidos os 12 capítulos e as conclusões (Impressões finais), não ficamos mais tranquilos, embora convictos de que essa intranquilidade pode e deve ser projetada, como fez o autor nesta obra, como motivo de reflexão crítica, mas também, e sobretudo, como modo ação. Ação de alguém que foi durante muitos anos jornalista, logo, conhece bem a profissão; ação de alguém que, nos últimos 25 anos, se tem dedicado a estudar, como investigador, o campo do jornalismo, dominando, portanto, os quadros conceptuais e metodológicos adequados à abordagem aos problemas; ação de alguém cuja experiência e mundo lhe permitem diagnosticar com rigor o panorama dos media noticiosos num
contexto de crises várias e complexas, mas, simultaneamente, oferecer vias alternativas, caminhos mais firmes, num universo que leva ao extremo a volatilidade pós-moderna, marcada por relativismos, incertezas, desestruturação da verdade, excessos, emoção e fragmentariedade.

Sendo um livro com chancela de uma editora universitária, já com reputação na área das Ciências da Comunicação – a LabCom da Universidade da Beira Interior – e sendo o autor professor de jornalismo e investigador do CEIS20 há mais de duas décadas, o surpreendente nesta obra é o seu registo. Escrita em clave ensaística, esta obra mobiliza um conjunto de autores de referência, mas também outros que, não sendo diretamente esperados num livro sobre jornalismo, nos surpreendem. Desafia, pois, as convenções e normas dominantes da escrita académica, valorizando o registo impressivo e o tom ensaístico, que infelizmente se foi perdendo em prol de uma formatação de pensamento e de escrita, apressadamente importada das outras Ciências ditas exatas e em nome de uma ilusória cientificidade que, na minha opinião, em nada tem beneficiado as Humanidades nem as Ciências Sociais. João Figueira assume com firme convicção e com muita clareza que este livro é o resultado de uma reflexão pessoal amadurecida, de uma visão naturalmente subjetiva, no fundo, de um conjunto de impressões críticas, tanto mais válidas e respeitáveis quanto são devedoras de um sólido percurso profissional e académico.

Numa declaração de interesses inicial, o autor faz questão de chamar à sua introdução Impressões, anunciando, para que não restem dúvidas, que o que aqui encontramos é a sua visão do mundo do jornalismo e das democracias na atualidade, visão essa fundada não apenas no conhecimento dos meandros da profissão, mas também num vasto conjunto de leituras, autores, correntes de pensamento, exemplos concretos que, como cidadão muito atento, retira da realidade mediática e que permitem dar corpo às ideias e às críticas.

A segunda qualidade do livro prende-se com a inscrição da epistemologia do Jornalismo no campo da cultura, recuperando uma linha de pensamento e de estudos de autores como Mário Mesquita, José Rebelo ou Fernando Resende. Sintoma disso mesmo é a cuidadosa escolha dos títulos das duas
primeiras partes desta obra, em estreito diálogo com nomes de referência de escritores-jornalistas. O Jornalismo no seu labirinto, título da primeira parte, traz ecos – que aliás são explicitados – de García Márquez, repórter e Nobel da literatura; Intermitências da Democracia, glosando as Intermitências da
Morte de José Saramago.


A evocação destes nomes não é fortuita, não é casual nem serve apenas como figura de retórica ou adorno estilístico. Ao adentrarmos pelos labirintos do jornalismo e pelas crises da democracia, descritas, ilustradas e pensadas ao longo dos primeiros nove capítulos da obra, o leitor percebe bem que estes nomes são referentes importantes na conceção de jornalismo de João Figueira, como campo cultural com ligação umbilical a ideologias, princípios e outras artes da escrita que enriquecem o espaço público. Estes dois nomes constituem-se, portanto, como referências incontornáveis de um certo tipo de jornalismo, uma certa forma de conceber a importância da narrativa como construção da
realidade e forma privilegiada de acesso ao conhecimento do mundo.

E assim chego à terceira qualidade deste livro. Descrevendo criticamente um quadro contemporâneo marcado pela incerteza, palavra-chave deste ensaio, em que a velocidade, a fugacidade, o excesso informativo, o esvaziamento da memória, a mercantilização da informação, o domínio do pathos sobre o logos e o ethos são marcas da comunicação e do espaço público, a reflexão que somos convidados a acompanhar permite um retrato muito preocupante do quadro das práticas jornalísticas do nosso tempo. Como disse Miguel Carvalho na sessão de apresentação pública da obra, no passado
dia 19 de outubro, este novo livro de João Figueira «não deixa nada por dizer, é um sobressalto cívico que tem um carimbo de urgência». Uma farpa certeira que a todos deve convocar e inquietar. Este é, de facto, um livro de desassossego para todos quantos assistem ao esboroamento das democracias contemporâneas, e ao estertor do jornalismo, pilar estruturante da vida democrática.

Desengane-se, porém, quem pensa que nele encontramos um discurso saudosista, ecoando a voz de um «Velho do Restelo» para quem «dantes é que o Jornalismo era bom». Não. De todo. O quadro desenhado e comentado por João Figueira, ao longo dos 12 capítulos que compõem as três partes desta obra, é demasiado complexo, poliédrico e labiríntico, para se reduzir a um binarismo primário que opõe o velho e o novo, o antigo e o moderno, oanalógico e o digital. Além do mais, ao partilhar a sua reflxeão com os leitores, o autor vai apresentando alternativas, fundadas em valores, princípios e conceitos paradigmáticos do jornalismo que é urgente resgatar e reinventar.

Adentrando e desvelando os meandros do labirinto do jornalismo hoje, João Figueira vai apontando caminhos, sugerindo soluções alternativas e, através das suas impressões, sempre respaldadas em outros autores de referência e em exemplos que extrai do campo mediático, aponta os deveres do jornalismo como salvação da Democracia, como recuperação da verdade, como combate
às incertezas dominantes. Ao longo da primeira parte da obra, são desenvolvidos cinco grandes princípios do jornalismo, que devem ser reponderados, e, em alguns casos, resgatados:

Primeiro princípio

Espera-se do jornalismo uma compreensão reflexiva do presente. As narrativas do jornalismo são, neste sentido, uma história em tempo real, exigindo dos seus atores um constante exercício auto-hermenêutica. Isto é, devem os jornalistas refletir sobre o que escrevem e sobre o que produzem, exercício tanto mais difícil quanto exige tempo e disponibilidade de autocrítica. O tempo não existe, já que as lógicas organizacionais e empresariais dos grupos mediáticos são máquinas vorazes que seguem um ritmo acelerado pouco afim à reflexão crítica. Por outro lado, uma auto-hermenêutica requer sempre um distanciamento, uma alteridade, exercício tanto mais difícil porquanto sujeito e objeto são, no caso, coincidentes.

Segundo princípio

O jornalismo é sobretudo um dos processos de narrativização do mundo: não oferece factos, não traz consigo a realidade, mas capacita para a compreensão de parcelas do mundo; constrói acontecimentos a partir dessa realidade, permitindo aceder a um certo tipo de conhecimento. Recorrendo à narrativa como modo matricial de conhecimento e de representação, a mediação jornalística deve sobretudo dar sentido e explicar. E, para isso, escolhe e revela, mas também omite e oculta. Ora, sabemos que é tão
importante o que se revela quanto o que se oculta, o que é dito, quanto o que é silenciado. Neste processo complexo, cabe ao jornalismo dar visibilidade ao quadro social e à complexidade humana, construindo narrativas «poderosas e desconfortáveis» que tocam e ferem a consciência (pp. 38 e 39). Parece-me que o exercício de, a partir da realidade, complexa, multímoda, caótica, incerta e fluida – é assim e sempre assim foi a realidade – selecionar o que contar, decidir como contar, escolher quem ouvir e citar, implica sempre – não há outra forma de o fazer – escolhas.

Terceiro princípio

Estas escolhas são necessariamente ideológicas porque decorrem de visões do mundo e dão a ler certas perspetivas dos acontecimentos. Por isso, decorre deste um terceiro princípio: a transparência como ritual estratégico. Glosando o célebre ensaio de Gay Tuchman, João Figueira privilegia a
transparência à objetividade. E bem. Porque tais escolhas – sempre parcelares, mas nem sempre necessariamente parciais – devem procurar combater a lógica de proximidade, devem procurar olhar para os invisíveis, devem divergir do pensamento dominante. Só assim, o Jornalismo cumprirá o seu dever de constituir como um poder transformador. E aqui João Figueira inspira-se nos exemplos de Kapucinski, mas também no de Spivak. Na impossibilidade de chegar à verdade, perante a complexidade e, sobretudo, a polarização do mundo hoje, o jornalismo deve rever o princípio da imparcialidade, substituindo-o pelo de transparência. De acordo com o autor, esta será uma atitude mais honesta, mais consentânea com as práticas hodiernas e só desse modo as narrativas do jornalismo poderão assumir combater os «universos de invisibilidade» e traduzir de modo mais equilibrado a realidade.

O mundo é feito de muitas camadas, de muitos poderes, de muitos atores, de muitas vozes. A grande responsabilidade do Jornalismo é, pois, procurar resgatar da sombra e do silêncio pessoas, atores políticos, acontecimentos e visões plurais.

Quarto princípio

É este aparente paradoxo – a implicada atitude de seleção no ato de dar legibilidade ao mundo, dilema de toda a representação e o necessário compromisso de desocultar, iluminar e retirar do silêncio factos, pessoas, temas, dinâmicas – que nos conduz ao quinto princípio do jornalismo: organizar as realidades diárias, integrando-as num todo mais complexo e abrangente, olhando os cidadãos e as cidadãs, não como consumidores vorazes, dormentes e passivos, não como audiências que é preciso entreter, mas como conjunto diverso, heterogéneo, cujas vidas devem ser melhoradas pelo jornalismo. O jornalismo tem de fazer a diferença na vida das pessoas e estas têm de ter essa consciência. Não basta afirmar que não há democracia sem jornalismo ou que este é fundamental para todas as decisões que tomamos como coletivo ou como indivíduos. Até porque atualmente um conjunto de fenómenos, perfeitamente identificados ao longo dos 12 capítulos deste livro, tem contribuído para contrariar esta asserção, relgando o jornalismo para um papel secundário, esvaziando-o: a «trivialização do instante», o monocromatismo temático, as bolhas informativas, a absorção de linguagens do marketing, o
sensacionalismo, a chamada «disneylandização do jornalismo».

«Isto mesmo, aliás, vem sendo assumido por várias outras vozes, na medida em que as distinções entre média popular e de referência são cada vez mais escorregadias e ténues, em consequência de uma crescente espetacularização do espectro mediático e da sua predominante lógica de construção de sentido que se aproxima do ideário do entretenimento e de toda a gramática dos universos digitais, onde atualmente as audiências passam o seu tempo e onde toda a economia da atenção é arduamente disputada. Acresce ainda a circunstância nada despicienda de os discursos (políticos, em primeira instância, mas não exclusivamente) virem a insistir em modelos simplistas de pensamento, daí emergindo apetecíveis soundbites que, dada a radicalização que por vezes assumem, fazem as delícias do espaço mediático. E se neste sentido se torna difícil apurar as diferenças entre o que é popular e o que e populista, o mesmo diremos relativamente ao respetivo tratamento jornalístico e às frágeis e incipientes fronteiras que durante anos dividiram os média de referência dos populares.»

excerto do livro Da incerteza como Princípio: Jornalismo, democracia, decadência da verdade, de João Figueira

Quinto princípio

O jornalismo deve contrariar a naturalização dos factos. Embora o autor não cite Roland Barthes – que nos ensinou a decodificar ideologias e mitos em diferentes comunidades e tipologias discursivas – João Figueira assume uma visão construtivista: não há factos nas notícias. Estas são sempre narrativização do mundo, construções textuais e discursivas. O jornalismo, na sua dimensão simbólica e ideológica, é, pois, um ser de linguagem. E aqui reside, a meu ver, a centralidade do jornalismo como campo de mediação simbólica, responsável pela nossa leitura do mundo, pela nossa perceção dos outros e de nós mesmos como comunidade. Pensar criticamente o jornalismo, analisar os media noticiosos obriga-nos a refletir antes de tudo bem sobre o poder da linguagem:

«Tal atitude releva a responsabilidade social do jornalismo, na medida em que não significa que se desconsiderem ou ignorem os factos na sua objetividade, mas que se procure indagar e perceber porque é que tais factos aprecem sob uma determinada forma e linguagem. O jornalismo enquanto leitor do tempo presente tem de saber incorporar essa capacidade de indagação e sentido crítico diante dos factos, uma vez que a sua tarefa não pode reduzir-se nem confundir-se com a mera burocracia de quem faz, criticamente, uma simples ata de um acontecimento. Este, por sua vez, além da evidente impossibilidade de poder ser apresentado fora do artefacto textual que lhe vai dar vida e expressão, surge aos olhos do público segundo uma encenação gráfica e sequência temporal, consoante os meios que o noticiam, cuja materialidade composta de imagens e palavras é posta em relação e conexão com outros acontecimentos que, no seu conjunto, formam um todo que constitui uma interpretação da realidade»

excerto do livro Da incerteza como Princípio: Jornalismo, democracia, decadência da verdade, de João Figueira


A este respeito, permitam-me uma breve reflexão pessoal. Uma vez que celebramos 30 anos de ensino universitário de jornalismo, direi, com João Figueira, e outros que o antecederam, que ensinar futuros jornalistas não pode ser um ato mecânico de domínio de um conjunto de técnicas ou de tecnologias nem simplesmente um ato de imposição de quadros teóricos ou conceptuais desgarrados do mundo em que vivemos. Esse ensino deve ter no seu centro a linguagem como principal sistema de modelização do real de que o jornalismo não pode prescindir porque ela está na sua natureza. Como fica claro da leitura deste livro do João, uma reflexão sobre Jornalismo e a necessária autorreflexão dos jornalistas, que se impõe e é incontornável, não são dissociáveis de uma reflexão sobre o poder da linguagem:

«Ao situarmos a ideia de linguagem como poder – em parceria com o poder de decisão dos jornalistas, como bem assinala Traquina – pretendemos fazer sobressair a importância decisiva que ela tem, não apenas enquanto elemento e instrumento de uma certa enunciação discursiva, e, por extensão, na construção de um certo sentido, mas também como ela, em função do lugar que o seu autor ocupa na escala económica, política, cultural ou social, é apropriada e assumida através das narrativas mediáticas designadamente as jornalísticas (…) As palavras têm uma dimensão estratégica incomensurável e aquilo que (não) dizem e deixam intuir na narrativa jornalística – que é ideológica, insistimos neste ponto – acabam por ir criando um efeito de cimento na opinião pública.»

excerto do livro Da incerteza como Princípio: Jornalismo, democracia, decadência da verdade, de João Figueira



Termino como comecei e permitam-me que insista: Da incerteza como princípio, embora não tenha sido escrito com o intuito de celebrar o quer que seja, é o motivo perfeito para assinalar as três décadas do ensino universitário de Jornalismo em Portugal, para celebrar a Escola de Jornalismo de Coimbra, que sempre se pautou por ser humanística, envolvendo os saberes matriciais das Humanidades – a filosofia, a ética, a teoria da linguagem, a literatura, a história, as artes – aliando-os a dimensões mais tecnológicas, profissionais e específicas. Uma epistemologia do jornalismo deve inscrever-se no vasto
campo da cultura: esta é a mensagem essencial desta obra, que, a meu ver, faz justiça a um dos fundadores do curso de Coimbra, o saudoso Mário Mesquita que evoquei no início e com que termino.

Ana Teresa Peixinho é professora associada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e estas foram ideias que partilhou originalmente na apresentação da obra de João Figueira Da Incerteza como princípio: Jornalismo, Democracia, Decadência da verdade (Covilhã: LabCom, 2023), no passado dia 19 de Outubro

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