Penso que foi logo na adolescência que comecei a pensar nesse conceito de liberdade, para o qual me achava devidamente preparado em utilizar, tal como a qualquer outra coisa que se compra por não a querermos/sabermos fazer por nós. Foi algo que se mostrou como um mito adquirido por mim, mas produzido por rebeldes de um passado longínquo. Enquanto miúdos, é-nos apresentado Abril junto de uma lista de uma série de mitos transmitidos de forma quase religiosa, com um «Império» de plano de fundo que importava tanto especiarias, roupas e até… bem… pessoas.
Várias são as vezes que ouço histórias dos «LusÍadas» relatadas como realidade, embelezadas aqui e acolá pela mensagem patriótico-esotérica, mas um pouco nacionalista reconheçamos, de Pessoa. Abril «perde-se» nas escolas junto a todos esses mitos, por não haver ainda estruturalmente uma educação sem medos ou por haver ainda receios de reconhecer as fragilidades, absolutamente normais, de qualquer país ou grupo de pessoas em geral que não seja o nosso. Mas nessas idades vem ainda a adolescência, que nunca corre nem muito bem nem muito mal, supera-se.
O início de consciência da existência de liberdade (como conceito individual e não como produto comprado) foi novidade para a minha voz interior nessa altura. Fui daquelas crianças que viveu uma vida priveligiada, mas ocre. Digo ocre por associar essa cor a tudo o que é lamacento, por isso turvo e pouco claro. Manifestamente com necessidades superficiais regularmente satisfeitas como as de qualquer outra cirança mimada, aquilo que a minha família aparentava como uma estrutura sólida para um futuro luminoso materializou-se numa queda representativa da falta de estrutura da minha parte que aguentasse tão normal tombo: crescer.
Hoje olho para Coimbra e observo uma cidade totalmente diferente daquela que encontrei em 2008, revelando-se um campo em constante plantação e colheita bem menos fria.
Essas gerações de boomers e de utilizadores da recente liberdade política deixaram-nos pouco espaço para pensarmos nisso do crescer e crescer livres (muitos nem foram habituados a isso). Com a adolescência sentia-me livre por assumir na minha biografia o mito português, a saudade imensa transversal a todo um passado, os valores familiares tradicionais, as comidas gordas demoradas, as boas notas, a promessa de uma carreira futura de reconhecimento social respeitável e todas essas coisas bonitas com cheiro a terra molhada e, simultaneamente, a mofo.
Todas essas balizas da liberdades me eram apresentadas como «regras de convivência» e coisas semelhantes: era correcto porque era colectivamente expectável e exigido. Curiosamente, foi nessa fase que estudei Pessoa e que mais reflecti sobre o que era isso da Liberdade, que se apresentava como algo iniciático junto tanto deste como de um dos o que o havia influenciado: Aleister Crowley. Apesar de hoje em dia considerar que Crowley seria claramente cancelado, o seu Liber OZ demonstra uma necessidade colectiva de rebeldia interior, e que se manifestou em mim nessa altura da adolescência.
A revolta dos adolescentes, referida muitas das vezes de forma condescendente, é para mim um ponto de viragem muito importante, por poder envolver o despertar, não só sexual, mas da noção do eu, do corpo e dos limites auto-definidos. É essa rebeldia (ou segunda «fase dos porquês», mas mais densos e existenciais) que não considero que deva ser controlada, mas antes percebida e contextualizada. Ir contra a maré do adolescente, usando poder familiar ou influência dos pares, é evitar a iniciação deste na vida adulta de forma plena. Eu não tive a «liberdade» de me rebeliar por esse motivo. Tendo sido o mimado preferido da família era por ela totalmente moldado.
A minha pequena rebeldia, como tento dar a entender, foi mais por livros, filmes e formas de ver espiritualmente o universo. Por isso a minha adolescência foi passada num universo paralelo, espiritualizado por sonhos e que pairava, lá bem fundo, num armário. Essa acumulação-combustível, baseada por essa rebeldia controlada, só poderia ter resultado numa coisa numa primeira fase: necessidade de fuga. E é precisamente nessa emergência de sair (de ter mais liberdade) que surge Coimbra.
Coimbra também me aparecia naquela lista de mitos portugueses, mas no caso com gente jovem (por isso viva e da minha geração) que era quem queriam ser, numa cidade que recebeu os Albertos Martins desta vida, sem medo de exigirem serem ouvidos, mesmo em tempos negros para a opinião pública. Uma terra de liberdade que me era prometida desde a primeira vez que vi o «Capas Negras» ou, mais tarde, no «Rasganço» de Raquel Freire (com destaque para a própria sinopse). A desculpa de fuga tornou-se mais sólida depois: eu queria sair de uma casa e de uma cidade que me limitavam as liberdades, mas com a justificação da «honra familiar» que era ir fazer direito em Coimbra.
A ironia surge logo aí. Uma cidade que me prometia liberdade, apresentou-se-me numa primeira instância através de um curso que me oferecia curricularmente as diversas formas de a limitar. Aquele fogo de adolescente que ainda tinha acumulado, aquela vontade de sair do armário e amar quem quisesse, a ansia em ouvir intelectuais (idealmente de esquerda), conhecer colegas que quereriam ferver comigo os mitos para se lhes destilar história, afinal não encontrou em Coimbra forma de expansão. O mito da cidade caiu.
O cartão de visita da universidade de 2008 foram gritos de disparates colectivos, aulas de Finanças com conceitos que invocavam a velha senhora ou doutos em Direito da Família que me faziam escrever em exames que o núcleo duro do conceito jurídico de casamento não permitia pessoas do mesmo género juntas (antes de 2010, como é óbvio).
Os tempos livres passados em grupo com colegas de Direito eram apenas para estudar ou beber. Apesar de gostar francamente de ambos (com destaque para o fino bem tirado), fosse a fazer uma coisa ou outra continuava a sentir a minha liberdade balizada. Não podia estudar como queria, mas segundo o método que um determinado professor pensava ser o correcto (até a escola de Lisboa era criticada, quanto mais autores de outras). Também não podia beber em demasia ou correria o risco de me «expor» também em demasia – fugindo assim ao comentário homofóbico dos colegas ou à boca dos seguranças inseguros a qualquer tique meu que me tivesse fugido.
Mas que acontece a tanto fogo e tanto desejo em ser e em ser livre? Explode. Porque àqueles a quem não é dada a liberdade de explorar quem são, àqueles vários adolescentes que agem de acordo com a noção de liberdade alheia, àqueles que entram em Coimbra com vontade e desejo interrompidos pela realidade de imposições normativas, a todos esses só lhes resta serem mesmo cobardes, vítimas da explosão da sua persona em detrimento de outra. Só lhes resta a sua associação automática a noções de liberdade que, no fundo, não se identificam (isso vê-se precisamente no aumento de número de jovens associados a valores muito velhinhos) ou – como foi o meu caso – esconder com humor uma depressão profunda pautada por elementos auto-destrutivos.
Em cima de tudo isso, achei-me sempre com a coragem de reclamar a liberdade sem me rebeliar, como se Coimbra fosse uma qualquer abadia de Rebelais! E apesar de humanamente merecer colher os frutos das árvores semeadas pelos corajosos (como foram tantas as de Abril), acho que fui cobarde por não ter pegado nas alfaias agrícolas mais cedo e pouco merecedor daquilo que outros lutam por mim. A verdade, percebi mais tarde, é que sem o alimento dessa rebeldia adolescente para toda a vida, não se conseguem mudanças a sério.
Abril e o conceito de Liberdade fazem-me olhar para esta altura como época de agradecimento, de manifestação e alimentação da luta, e de perceber que a liberdade não é mito: é antes algo que tem de ser reiteradamente actualizado, reforçado e exigido a todos e por todos.
Hoje olho para Coimbra e observo uma cidade totalmente diferente daquela que encontrei em 2008, revelando-se um campo em constante plantação e colheita bem menos fria. Mas tudo isso decididamente não graças a mim, mas a todos os jovens corajosos que Coimbra recebe anualmente (e muitos outros que cá habitam). A eles, e não ao mito deles, devo a possibilidade de hoje ser um jovem adulto que se sente mais livre quanto à sua expressão física e intelectual. A minha personalidade tem grandes dívidas para com pessoas específicas, de artistas a políticos, mas a sua maior dívida deve ser com esse grupo de pessoas não identificáveis que deram, por mim e por muitos outros, a sua feérica e corajosa energia para fazer a diferença.
Graças a estes novíssimos capitães de Abril (tal como aos novíssimos do cinema) devo a coragem de dizer e esperar ser ouvido, de achar que nada na sociedade se deve cristalizar mas ser tão fluido quanto a vontade de cada um que compõem a colectividade da espécie. Coimbra mostra hoje capitães corajosos, que amam quem querem, que usam os trajes que desejam, celebram novos tipos de amizades e até de cursos. Coimbra mudou, apesar de muito faltar ainda. Mas o sentimento de que faltará sempre algo, em conjunto com essa forte coragem, faz com que inércia não seja o que cá haja.
Este pequeno e desordenado texto (por sinuosamente me unir com esta cidade) não pretende mostrar uma visão de um possível novo mito sobre Coimbra (existe aqui tanto para aclamar como para cuspir). Tem antes o objectivo de dar voz a todos aqueles que, como eu, eram/são cobardes, e para lhes dizer que há sempre tempo e motivos para nos rebelarmos, mesmo nesta cidade aparentemente tão mudada. De dizer que não precisamos de tábuas de morais de outros, mas só de identificar o outro como pessoa merecedora do nosso respeito. E ainda, que tudo está bem em não ser igual, semelhante ou ideal de alguém.
Estas palavras servem também para agradecer a todos aqueles que lutam e lutaram por nós (antes de 74, em 74 e depois de 74), e pedir a tais corajosos que nunca desistam daqueles que não desenvolveram semelhante ousadia. Abril e o conceito de Liberdade fazem-me olhar para esta altura como época de agradecimento, de manifestação e alimentação da luta, e de perceber que a liberdade não é mito: é antes algo que tem de ser reiteradamente actualizado, reforçado e exigido a todos e por todos.
Viva à Liberdade, Abril Sempre, Coimbra pode sempre melhorar!
De um lutador tímido,
João R. Pais


João R. Pais nasceu em Leiria e vive em Coimbra desde 2008. Estudou Direito tem-se dedicado à programação cultural e à promoção e criação da área do cinema e do audiovisual. É actualmente coordenador de programação do festival Caminhos do Cinema Português, em Coimbra.
