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Programação do Lux Interior

Festival Lux Interior: três noites, múltiplas vozes femininas

Em dezembro, Coimbra acolhe a sexta edição deste ciclo de concertos cuja identidade se molda em torno de vozes femininas marcantes, com Raquel Ralha como protagonista maior. Três noites, cinco vozes e uma editora musical que há trinta anos faz de Coimbra o seu epicentro.

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Fotografia: Francisco Oliveira

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Programação do Lux Interior

A sexta edição do Festival Lux Interior, que acontece a 4, 5 e 7 de dezembro no Teatro Académico de Gil Vicente e no Salão Brazil, faz justiça a um título que sempre se quis duplo: o interior da Lux, mas também a herança de Lux Interior, vocalista dos The Cramps. Desta vez, o nome que evoca punk, culto e iconografia é representado por Poison Ivy, a musa da banda e imagem-base do cartaz — num ano exclusivamente dedicado às vozes femininas.

«Depois de marcar o concerto da Raquel Ralha e com a Tracy Vandal a preparar um disco, percebi que poderia ter uma edição só com mulheres a cantar», conta Rui Ferreira, o fundador da Lux Records e programador do festival. «O Lux Interior sempre teve artistas ligados à editora, mas também outros nomes que fazem parte do nosso percurso cultural. Este ano, além das nossas bandas, era importante afirmar uma ideia de continuidade e força feminina.»

A coerência é antiga. O Lux Interior nasceu em 2017 e já chamou ao palco nomes como Mão Morta, Clã, Belle Chase Hotel ou Legendary Tigerman. Mas mantém-se singular pela independência: «’Não há atritos, não há pressões. O festival não depende de apoios institucionais, e por isso é livre. É investimento meu, e isso garante que posso levar para palco quem quero», afirma Rui Ferreira.

Em 2025, a Lux Records celebra três décadas e este festival retoma o gesto inaugural da editora: revelar, provocar e preservar uma linha de independência estética e ética, promovendo novas gerações e vozes que atravessam a história da música em Coimbra. «Fazemos isto porque gostamos, porque é o interior da Lux», reforça Rui.

Raquel Ralha: voz e percurso de uma carreira

Esta edição é também o palco de uma homenagem viva à criatividade feminina, tendo em Raquel Ralha a protagonista incontornável. «Ela foi a única artista presente em todas as edições do festival, sempre com projetos diferentes. Este ano quisemos que fosse dela a voz e o guião», diz Rui Ferreira. «Pedi-lhe um concerto com canções que escreveu — algo que mostrasse o percurso de uma mulher que é parte essencial da história da editora e da música de Coimbra.»

A proposta surpreendeu a própria Raquel. «Quando o Rui me ligou, pensei: pânico!», admite. «Sempre gostei de trabalhar em banda, não sozinha. Mas percebi que este convite era uma espécie de espelho: olhar para trás e ver quantos caminhos percorremos juntos.»

Raquel iniciou a carreira em 1996 com os Belle Chase Hotel e passou por vários projetos, incluindo Wraygunn, Mancines e The Twist Connection, mantendo uma parceria regular com Pedro Renato. O concerto no TAGV reunirá músicos que a acompanharam em diversas fases, numa carreira marcada por metamorfoses.

«Vou adaptar tons, atualizar canções — a minha voz é outra, mais grave. Este concerto é uma responsabilidade, mas também um privilégio», partilha. Um momento especial do espetáculo será uma versão de um tema italiano que sempre quis interpretar, composto por Bruno Nicolai, nos anos 60. «É um concerto de carreira e de reencontro, onde cada canção abre um fragmento da nossa história», acrescenta Pedro Renato.

A versatilidade de Raquel Ralha atravessa linguagens. Além de cantora e compositora, é também maquilhadora e caracterizadora em cinema e teatro, colaborando regularmente com o realizador António Ferreira. Compôs a música tema do seu primeiro filme, Respirar Debaixo D’Água, e cantou o tema Esquece Tudo Que Te Disse em várias línguas, incluindo alemão e italiano. Nos seus trabalhos mais recentes, como Pedro e Inês, A Memória do Cheiro das Coisas e Bela América, assinou a caracterização e efeitos. «Gosto de experimentar, não consigo focar-me apenas numa coisa. A música é a minha profissão, mas o cinema também é casa», revela. Estudou Línguas e Literaturas na Universidade de Coimbra, e essa origem explica as múltiplas vozes com que canta — português, inglês, francês, italiano. «Cada língua tem a sua musicalidade. Há canções que só fazem sentido naquele idioma. É uma forma de habitar mundos diferentes.»

Hoje, alterna a criação artística com gravações pontuais de novas composições. «Há coisas que ficam a marinar, mas acabam por regressar.» Sobre música e silêncio, Raquel confessa: «Já ouvi milhões de horas de música, mas hoje prefiro silêncio.

Keissy & Marginália: um manifesto em corpo e voz

A primeira noite traz Keissy & Marginália, projeto liderado pela brasileira Keissy Carvelli, radicada em Coimbra e em pleno processo de gravação do primeiro disco, a editar pela Lux no início de 2026. O concerto será uma antecipação desse trabalho, feito de canções autorais e releituras de raridades da música brasileira, como Carcará e Marginália II.

«É o início de uma carreira que vem sendo preparada há quinze anos», diz Keissy. «Essas canções já viveram muito tempo comigo, e agora ganham vida de banda, arranjo, público. É um ritual, um manifesto em corpo e voz.» A banda que a acompanha — Pedro Renato, Miguel Cordeiro, Ricardo Brito e Rubão Barbosa — nasceu do coletivo Tanto Mar, um encontro de músicos e poetas que tem dado nova pulsação à cidade.

Na mesma noite, sobem ao palco os Três Tristes Tigres, a mítica banda portuense liderada por Ana Deus, que regressa a Coimbra para apresentar o novo disco, Arca.

Sofia Leonor e os So DeaD: intensidade e alma coimbrã

Para encerrar o festival, o trio So DeaD sobe ao palco do Salão Brazil. Sofia Leonor, Samuel Nejati e Miguel Padilha formam a banda que, em pouco mais de três anos, já lançou dois álbuns — ambos com selo da Lux Records.

«Não há distinções entre nós e o público. A cada música, tornamo-nos um só», diz Sofia Leonor. «Começámos em 2023, vindos de outros projetos, e rapidamente compusemos material suficiente para mostrar ao Rui, que editou nosso primeiro EP. Agora, cada concerto é um espaço de efervescência criativa — temos tido de travar, porque há sempre novidades a sair.»

Para o festival, prepararam um alinhamento que percorre várias fases: «Vamos tocar canções dos primeiros discos e do novo álbum — é um resumo do que criámos nestes três anos.» Sofia reforça o espírito do festival Lux onde «não há pretensões, apenas a vontade de fazer música sincera e direta.»

O Festival Lux Interior 2025 decorre em Coimbra nos dias 4, 5 e 7 de dezembro, com atuações dos Três Tristes Tigres e Keissy & Marginália no Teatro Académico de Gil Vicente a 4; Raquel Ralha e Tracy Vandal & John Mercy no mesmo local a 5; e So DeaD e Cariño Muerto no Salão Brazil a 7 de dezembro.

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