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Categorização do consumo excessivo de álcool

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Dados sobre o consumo de álcool em Portugal

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Alcoolismo no cinema

E quando um copo são dez?

Por ter uma forte componente cultural, o consumo de bebidas alcoólicas começa cedo, é comum e até incentivado, mas pode facilmente transformar-se num problema. Coimbra tem um plano operacional de respostas integradas para a dependência química.

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Fotografia: Louis Hansel via Unsplash (capa), Mário Canelas, Bridges Ward, Hermes Rivera

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Categorização do consumo excessivo de álcool

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Dados sobre o consumo de álcool em Portugal

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Alcoolismo no cinema

Num vídeo da rubrica Actors on Actors da revista Variety, publicado em Dezembro passado, Jaime Lee Curtis e Colin Farrell conversam sobre os filmes pelos quais concorreram aos Óscares, em Fevereiro – onde a actriz acabou por vencer a estatueta de Melhor Atriz Secundária, pela interpretação no filme Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo (2022).

Ao ser indagada pelo ator irlandês sobre o legado que quer deixar, ela responde, sem um segundo de dúvida: «Estar sóbria vai ser um legado, seguramente. Porque consegues parar aquela que é, há gerações, uma “questão” na minha família biológica. A sobriedade é a melhor coisa que eu posso deixar, se conseguir mantê-la». A filha das igualmente estrelas de Hollywood Tony Curtis e Janet Leigh, bem como Farrell, são dependentes químicos em recuperação e quem viveu aprisionado nas garras do alcoolismo entende e identifica-se profundamente com a declaração. 

«Eu vou morrer sóbria.»

Maria, sóbria há 20 anos

Doença silenciosa

Até há alguns anos falar de depressão era um assunto delicado. Continua sendo. Mas agora há mais debates sobre saúde mental e também mais respeito – recordo o tributo que publicámos de João José Coelho à sua irmã. Há muito tempo que passou a hora de se debater e desmitificar o alcoolismo, para minimizar o preconceito. Em razão de se beber um copo para relaxar ou sentir-se mais solto, é comum imaginar que o álcool é uma droga estimulante. Mas é exatamente o contrário. Como a heroína, o álcool é uma droga depressora do Sistema Nervoso Central (SNC) com efeitos desinibidores. O Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) alerta que por ser uma droga legal não se dá a devida atenção aos riscos.

«O álcool é visto como presença indispensável em festas e comemorações.» Segundo Ilda Murta, coordenadora da Unidade de Patologia Dual do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), geralmente a iniciação da exposição ao álcool começa na adolescência, entre os 14 e 18 anos, como imitação de hábitos dos adultos (muitas vezes no seio da própria família), para afastar a desinibição, por pressão do grupo, entre outros motivos. Entre os jovens, especialmente as mulheres, o consumo excessivo de álcool é do tipo binge drinking, que ocorre «no espaço de duas horas, de cinco bebidas ou mais, seguida de, pelo menos, duas semanas de abstinência até nova exposição aguda». Ilda Murta ressalta que está comprovado cientificamente que o consumo de álcool antes dos 14 anos faz com que a dependência do álcool na idade adulta seja quatro vezes superior aos que iniciam depois dos 20 anos.

Foto: Bridges Ward via Pixabay

«Eu não bebia uísque, vodka, cerveja, conhaque. Eu bebia raiva, vergonha, ressentimento, culpa,  frustração»

Miguel, sóbrio há 15 anos  

Beber de forma descontrolada é resultado da «dificuldade de lidar com as emoções, uma maneira de as anestesiar, mas com consequências muito graves», diz o professor Rui Paixão, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, da Universidade de Coimbra (UC), pesquisador da área de comportamentos aditivos. Resolver as agruras da vida através do álcool é facilitado por ser amplamente disponível, aceito socialmente e incentivado entre amigos e até mesmo estimulado entre familiares.

«O consumo de álcool tem um forte componente cultural», diz o professor. O que geralmente leva a duas situações que tornam ainda mais difícil pedir ajuda. A primeira é julgamento de valores quando a pessoa não consegue ter controlo, o que é expresso em acusar não ter força de vontade ou vergonha. Por ser uma doença, alcoolismo não tem nenhuma ligação com caráter ou personalidade, nem com estatuto social, raça, género e educação. 

«Eu não me considerava alcoólica porque tinha emprego, carro, pagava minhas contas. Eu só bebia demais. Depois vim a descobrir que eu era uma “alcoólica funcional”.»

Sandra, sóbria há quatro anos

A negação

Quando se pensa numa pessoa alcoólica é fácil imaginar de imediato uma pessoa em situação de rua. Pensar em artistas também pode ocorrer, mas senhoras casadas respeitáveis e com filhos também podem sofrer da doença. Foi o caso da ex-primeira-dama americana Betty Ford, que admitiu publicamente a dependência de álcool e tranquilizantes e, anos depois, criou um centro que trata não apenas os dependentes como também os respectivos filhos. A história é contada na série First Lady (2022) na plataforma de streaming HBO, em que Ford é interpretada pela actriz Michele Pfeiffer.  

Assim como com qualquer outra moléstia, se a pessoa não aceitar a doença, intervenções ou tratamentos pouco ou nada ajuda. A negação faz com que mesmo quem passou por internamentos de três semanas, como na Unidade do CHUC, ao sair volte a beber. Segundo Ilda Murta, é o que acontece a 20% dos pacientes. É também a negação que leva alcoólicos a afirmarem repetidas vezes: «Paro quando eu quiser», quando são acusados de beber descontroladamente, muitas vezes com consequências graves. Operando no modo autoengano, os dependentes respondem que bebem por causa do chefe, do cônjuge, dos problemas financeiros ou de qualquer outro motivo externo que passe pela a mente naquele momento. São discípulos de Jean Paul Sartre: «o inferno são os outros».

Foto: Hermes Rivera (Unsplash)

«Lá no fundo eu sabia que não podia beber MAIS, mas não conseguia imaginar minha vida sem o álcool porque me iludia, achava que me divertia quando ia para os copos».

João, sóbrio há 7 anos

As soluções

Para a psicóloga do Posto de Saúde da Cámara Municipal de Coimbra, Norma de Carvalho, como os alcoólicos bebem para esquecer uma dor – ou várias delas – o tratamento passa necessariamente pelo processo de construção de uma autoestima saudável, a partir da compreensão das emoções do dependente químico, para que possam viver a vida como ela é, cheia de desafios. Segundo a profissional, trabalhar as emoções é vital para a recuperação do alcoólico, pois a pessoa pode genuinamente querer parar de beber, mas às vezes um evento singelo, uma frase banal pode funcionar como gatilho que trará à superfície feridas antigas e volta-se aos copos para aplacar a dor.

Na Unidade do CHUC, há reuniões com os familiares dos utentes, que recebem também acompanhamento médico depois de terem alta. «É do humano acreditar que se tem o controle sobre tudo», ressalta Norma referindo-se à relutância em admitir que se bebe de forma descontrolada. Mais uma vez a operar no modo autoengano, o alcoólico tem enorme dificuldade para aceitar que não consegue controlar a bebida. Daí entrar num círculo vicioso, pois suas emoções tornam-se uma avalancha e como ainda não aprendeu a lidar com elas, só resta a garrafa.

«Eu só controlo a bebida se eu não beber, pois se eu beber é a bebida que me controla.»

Margarida, sóbria há 20 anos

Ao invés de «beber» as emoções não resolvidas, os dependentes podem encontrar a solução nos grupos de ajuda mútua como os Alcoólicos Anónimos (AA), onde encontram pessoas com os mesmos problemas e um objetivo comum: não beber um dia de cada vez, como recomendam a psiquiatra do CHUC e os psicólogos. Os três profissionais são também unânimes em afirmar que uma vez alcoólico, a pessoa jamais poderá beber socialmente, de forma controlada. Voltar aos copos acreditando que conseguirá ter o controlo remete ao ditado: «Fazer a mesma coisa e esperar ter resultado diferente é insanidade». 

Desde 2020 que é possível consultar facilmente o Plano Operacional de Respostas Integradas de Coimbra da Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) que tem a lista de instituições públicas e privadas que contribuem para minimizar os problemas relacionados com o consumo descontrolado de álcool e outras drogas. A página do brasileiro Centro de Informações sobre Saúde e Álcool também tem muita informação útil. Só não vale ficar indiferente. Se precisarem ou conhecerem alguém que precisa de ajuda, entrem em contacto com o médico de família ou liguem para a linha Vida SOS Droga do SICAD 14 14, para a linha SNS24 808 24 24 24 ou contactem os Alcoólicos Anónimos Portugal ligando o número 217 162 969 ou enviando email para info@aaportugal.org.

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