«Hoje é um dia importante, é um dia de luta contra a discriminação de uma comunidade e, para mim, é bastante importante por ser mãe de uma criança que pertence à mesma», diz Joana Videira. Está emocionada, a voz treme-lhe. Fala connosco ao lado da bandeira arco-íris hasteada na Escola Eugénio de Castro. Foi içada pelo filho, Manuel, que também fez questão de fazer um discurso pela irmã (que frequenta outro estabelecimento de ensino do mesmo agrupamento). «Nós hoje viemos cá para defender [a comunidade LGBT]. Tenho uma irmã que pertence à comunidade, eu não pertenço, mas defendo e tenho de apoiar. Mesmo tendo uma irmã LGBT ou não, temos de apoiar», diz a criança, de 11 anos, rodeada por uma dezena de amigos orgulhosos.

A 17 de Maio celebra-se o Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia. Foi a data em que se decidiu retirar a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde, em 1990. Nas Nações Unidas, António Guterres saudou o «trabalho corajoso dos defensores dos direitos humanos das pessoas LGBTIQ+ que lutam para acabar com a discriminação e garantir a igualdade perante a lei», mas deu conta de «uma tendência preocupante na direção oposta. Novas leis estão a codificar velhos preconceitos, a explorar medos e a alimentar o ódio». Relembrou «a nossa obrigação de respeitar os direitos humanos e a dignidade de cada pessoa. Precisamos de ação por todo o mundo para tornar esses direitos uma realidade».
Se a homossexualidade e bisexualidade já serão mais compreendidas, a disforia de género, que é o desconforto emocional sentido por alguém que manifesta uma incongruência entre o seu género vivenciado e o género que lhe foi atribuído no nascimento, nem tanto. Há um ano, visitámos a Unidade Reconstrutiva Génito-Urinária e Sexual do Centro Hospitalar e Universitário, pioneira no tratamento dessa condição médica, e contámos que apesar de ninguém ser operado com menos de 18 anos, é crescente o número de pedidos para iniciar o tratamento de disforia de género em jovens. No entanto, a violência, discriminação e práticas prejudiciais contra as comunidades LGBTIQ+ também são uma realidade.

Manuel conta que quando a irmã assumiu a identidade feminina «os funcionários não a deixavam ir à casa de banho das raparigas, por exemplo, só que as pessoas não conseguem perceber a dor». Nem ele consegue. «Só a pessoa é que tem a ideia máxima do que sente», explica. Ele e os amigos acham que em Coimbra há pessoas mais e menos tolerantes e observam que, muitas vezes, é o desconhecimento que leva ao preconceito.
«Não é por serem dessa comunidade que são diferentes. São iguais e têm de ser tratados assim», dizem Ana, Matilde, Gabriela, Julia, Santiago, Laura e Leonor. «Existem pessoas que não pensam desta forma e pensam que essas pessoas não devem ser defendidas», diz Manuel. «E que não devem pertencer a este mundo», diz Santiago. E as crianças apontam soluções. «Quando vemos uma criança dessa comunidade ou outra a ser afastada do grupo devemos integrá-la, ajudar, dar apoio moral», atira uma. «As casas de banho podiam ser mistas», atira outra.

«É bom saber que a nossa escola apoia», atira uma das crianças de 11 anos. António Couceiro, diretor do agrupamento de escolas Eugénio de Castro de Coimbra, diz que «é um dia importante em que as escolas têm um papel muito importante». Nota que as crianças «têm de começar a perceber que as pessoas têm o direito a serem o que quiserem e serem sobretudo felizes, quando as pessoas forem felizes o mundo será melhor» e conclui que «no século XXI estas questões já não fazem sentido nenhum».
«Há pessoas que não apoiam porque não sabem. Acham que as pessoas são más ou diferentes, mas elas não sabem. Não sabem o que é uma pessoa trans ou lésbica», dizem as crianças, e garantem que há aulas de cidadania que «também deviam ser dadas aos adultos, porque há adultos que não percebem porque nunca foram ensinados.»
Antes de voltarem às aulas, disseram-nos que é preciso ajudar as crianças que sofrem bullying e acabar com hábitos carregados de preconceito que não se devem perpetuar. «Usam-se pessoas da comunidade como se fosse uma ofensa. Por exemplo: “O último a chegar é gay!”». Também sugerem casas de banho mistas, para se acabarem os constrangimentos das minorias. «Inclusive dos não binários!», notam.
Desconhecimento, aqui, não há.

António Couceiro afirma que a escola vai entrar numa fase de requalificação e a implementação de casas de banho mistas e outras medidas inclusivas podem estar na calha, mas ainda «têm de ser discutidas».
«Surpreendida» com a facilidade com que o diretor aceitou a ideia da bandeira, Joana Videira está feliz. «Acho que não há sítio melhor para este acto simbólico em prol das futuras gerações. É a escola que educa, que ajuda a educar. Sentir o apoio da mesma é o mesmo que sentir que a minha filha está segura.» Também sugeriu que os alunos recortassem e pendurassem corações nos portões das escolas, como sinal de harmonia, solidariedade e respeito pela diversidade humana.
«As crianças «têm de começar a perceber que as pessoas têm o direito a serem o que quiserem e serem sobretudo felizes. Quando as pessoas forem felizes o mundo será melhor.»
António Couceiro, diretor do Agrupamento de Escolas Eugénio de Castro

A bandeira arco-íris também foi hasteada na Universidade de Coimbra e nos Paços do Concelho como sinal de reconhecimento pela diversidade e de incondicional apoio à igualdade. Uma das crianças com quem falámos disse que «outras escolas também deviam fazê-lo e criar uma moda». Manuel corrigiu: «Não é uma moda, é apoiar de facto, porque às vezes parece que podemos dar centenas de aulas, dizer o quanto as pessoas sofrem e mostrar, que há pessoas que nunca vão entender.»
O tema deste ano do Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia foi «Ninguém fica para trás: igualdade, liberdade e justiça para todos». Em Coimbra, há Marcha e Festa Fora do Armário, no Atelier A Fábrica.

