No século passado, Coimbra foi um dos principais centros cervejeiros e fabris de Portugal. A comunidade industrial usava roupas de trabalho que não foram pensadas para serem usadas fora do ambiente operário, mas…e se fossem? A marca local Trouxa-Mocha deu o braço à cervejeira Praxis e, quais comadres, inspirou-se nas batas dos cervejeiros e cruzou-as com a típica casaca portuguesa. O resultado foi a nova Casaca Cervejeira by Praxis & Trouxa-Mocha, vendida em diversos materiais, cores e padrões.
Quisémos vê-la de perto. Fomos recebidos por João Varela, CEO da marca fundada pelos sócios João Roxo e Eduardo Mota – responsável pela extensão da Trouxa-Mocha dedicada à recuperação e reparação de bicicletas, a Trouxa Bicla -, na loja que fica encaixada entre negócios clássicos e novidades no corredor comercial mais conhecido da cidade. Varela diz que faz questão de ter o balcão à porta para cumprimentar toda a gente, mesmo os que entram só para ver e explica que «todos os produtos que saem da Troucha-Mocha têm que ter alguma história» e que «as histórias também geram raízes». Mesmo à entrada, está pendurada a novidade. Casacas «muito objetivas, sem grandes propósitos, mas com grande utilidade» e que Pedro Baptista, CEO da Praxis, vai mais longe e considera que as peças são exemplos «de abnegação, de inconformismo, de como o sonho e a vontade de fazer podem ser mais fortes que tudo o resto».
A casaca cervejeira «é aquilo que, aos nossos olhos, poderia ser um casaco cervejeiro. Tem bolsos abertos, mas também tem bolsos fechados. Os tecidos têm cariz de trabalho, nós apenas floreámos um bocadinho a coisa. A roda já foi inventada. Não queremos reinventar a roda, nem brincar os carros elétricos. Pegamos naquilo que sabemos, que é concreto e real, e usamos. Literalmente: fizemos um casaco farda utilizando sobras de uma fábrica que também produzia fardas», conta João Varela.
Pedro Baptista afirma que «a história da Praxis e a da Trouxa-Mocha unem-se à volta de Coimbra, cidade de origem de ambas as marcas, que têm tido a preocupação de recuperar património da cidade para o fazer viver à luz das necessidades dos dias de hoje». A Praxis nasceu do sonho de Arnaldo Baptista, pai de Pedro, de recuperar a enorme perda que foi o encerramento da Fábrica de Cervejas de Coimbra, em 2002. Inspirado no exemplo de países como a Alemanha e Bélgica, não só cria uma marca de cerveja (entretanto premiada internacionalmente) como abre uma Cervejaria/Fábrica/Restaurante com o mesmo nome, Praxis, em 2009. Oito anos depois, também convenceram a Sociedade Central de Cervejas a retomar a produção das históricas Topázio e Onyx.
A Trouxa-Mocha é uma marca de roupas, acessórios e calçado que pretende honrar e recuperar roupas e experiências de vida que são parte do património português. Para o fazer, recolhe materiais tradicionais em feiras, mercados e outros pontos em que seriam desperdício para lhes dar uma nova vida em peças de moda e design. São produzidos em espaços de trabalho tradicionais, muitas vezes de forma manual, para capturar esse modo de vida e características tão singulares dos portugueses. Esta parceria, é mais uma forma de executar a visão comum da Praxis e da Trouxa-Mocha de recuperar tradições. De ter novos motivos de orgulho, a partir de histórias que muitos não conhecem.

Mas a Trouxa-Mocha também tem a própria marca de cerveja, a Sebenta. João Varela explica que a filosofia é de que a concorrência é saudável e traz dinamismo ao mercado e tanto ele como os sócios andam «sempre à procura de tentar comunicar com a cidade, quer através dos produtos que criam, quer através de parcerias». A loja tem prateleiras onde estão produtos de outras marcas e o espaço é um dos 10 estabelecimentos comerciais da cidade a acolher, até 22 de Junho, a exposição «Entre Paredes».
Dissemos que as tábuas e loiças de cerâmica junto à Sebenta pedem a faca e o queijo. «Quem sabe num futuro nós não abrimos um Troucha-Mocha Café», admite João Varela, que também explica o carácter assumidamente unisexo da oferta. Há calçado do tamanho 36 ao 46 e roupa do XS ao XXL. A aposta é na qualidade e durabilidade. «O objectivo é: chegar o Inverno e os clientes terem vontade de abrir a gaveta da cómoda para ir buscar aquela nossa camisola de lã. E por isso é que vendemos atacadores, porque o calçado dura imenso.»
Ok, já percebemos. Na Trouxa Mocha não há moda, mas é tudo à moda portuguesa e com materiais reciclados ou reutilizados. «O que é que se sente a ventilar aqui? Produção nacional, produtos portugueses, arquitetos que brincam as coisas para entrarem em diálogo com os seus.» Desta vez, o diálogo foi com a Praxis. Varela diz que foi ter com Baptista e disse: «Somos Coimbra, temos que também tentar pôr este bolo a funcionar». E o resultado parece ser a prova de que é possível mudar ou evoluir, sem perder a identidade.
Na colaboração é que está o ganho
A Praxis fica em Santa Clara e a primeira Trouxa-Mocha abriu no Quebra Costas, depois viveu na Praça do Comércio, mas deu o lugar gelataria Doppo e mudou-se para junto a Brasileira, Briosa, Ourivesaria Costa e outras lojas históricas da Baixa. Varela garante que o convívio é saudável. «Nós conseguimos perceber como é que o tecido vivo funciona e reajustamos. Acho que, actualmente, começamos a despertar para outro tipo de consciência, a de que nós surgimos sempre a reboque dos outros. “Ok, eles estão a fazer assim, isto resultou, se calhar vamos tentar implementar esta estratégia”», exemplifica.
A expressão Trouxa-Mocha significa «fazer à portuguesa, fazer de um modo meio atabalhoado» e assentou como uma luva. «Porque recolhemos tecido e inicialmente começámos a misturar sem muito critério, tecido sobre tecido, para tentar perceber. Foi como começámos por fazer as nossas trouxas (sacas)», conta Varela. «Servimo-nos do senhor José que tem um par de máquinas montado na garagem e, para além de ter muita paciência para receber o João, percebe o que é que se está a tentar fazer e é da zona.» O CEO diz que gostava que o conceito «espalhasse mais e contaminasse». «Queremos potenciar o saber desta gente que se começa a perder. Isto mantém-nos vivos e isso é espetacular!» Com os outros comerciantes da Baixa também. «São frentes unidas e acho que unidos somos sempre mais fortes. A concorrência é boa e até o não concordar com as ideias é o que te faz crescer. A Baixa não precisa apenas de ser para turistas. As pessoas ficam muito surpreendidas quando sabem que nós somos a marca que nasceu e foi criada em Coimbra.»

No Natal, a Trouxa Mocha fechou o website. Interrompeu o «grande fluxo de vendas» para que as pessoas fossem à Baixa. «E resultou. As pessoas vieram à baixa», conclui Varela. «É este tipo de estratégias que às vezes tentamos tomar. As pessoas são pessoas e agora no pós pandemia nota-se que estão a fugir do digital. Vamos continuar a ser incentivados pelo toque. Ninguém consegue viver sem o toque. Porque senão nós teríamos que o subtrair àquilo que nós chamamos de sentidos.»
Tal como Arnaldo e Pedro Baptista, o CEO acredita que o propósito e a persistência são fundamentais. «Uma cidade que apenas vive de serviços nunca vai dinamizar. Vai estagnar. Vai minguar. O poder compositivo dos pequenos empresários é que começa a gerar investimento. Coimbra não pode ser somente a Queima das Fitas. Não podemos apenas almejar um acontecimento anual para contar a história de Coimbra.»
As casacas cervejeiras estão disponíveis nos espaços físicos da Praxis e da Trouxa-Mocha e também nas lojas online de ambas as marcas. Até ao fim de maio, quem encomendar online recebe um pack de oferta de quatro cervejas Praxis.












