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O estado dos serviços de urgência é um sintoma da doença do SNS

Pedimos ao presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos e uma enfermeira para nos fazerem o diagnóstico da situação da saúde a nível nacional e local. Devolveram-nos problemas mas também soluções e algumas passam por nós, e toda a comunicação e literacia em saúde.

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Fotografia: Mário Canelas, Pixabay,Olga Kononenko via Unsplash

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Os noticiários davam notícia, a 9 de Junho, da morte de um bebé durante uma cesariana de urgência, nas Caldas da Rainha. O hospital encontrava-se com uma equipa de médicos especialistas reduzida. A situação trágica fez soar o alerta para outros hospitais e respectivos serviços de urgência de obstetrícia-ginecologia que anunciavam o fecho temporário por falta de especialistas. Chegaram notícias de Braga, de Faro, e até dos hospitais em Lisboa

Fomos tentar perceber qual o panorama na cidade de Coimbra e da Região Centro em relação aos serviços de urgência, em geral, e de obstetrícia-ginecologia, em particular, se uma situação semelhante poderia ocorrer em algum dos pólos das maternidades e quais as dificuldades actuais. À Coimbra Coolectiva, Carlos Cortes, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, reitera que a situação é recorrente: «Esta questão das dificuldades sentidas nas urgências não é uma questão nova, parece ser uma questão nova do ponto de vista mediático. Essa dificuldade já existe há muito tempo, há muitos anos».

«Muito atempadamente a Ordem dos Médicos (OM) avisou: atenção que vão haver rupturas na área da ginecologia-obstetrícia e tivemos, imediatamente, a Administração Regional de Saúde do Centro a dizer que não, que as urgências de ginecologia-obstetrícia na Região Centro estavam asseguradas. Passados poucos dias, percebemos que não era assim», relata Carlos Cortes. Para além da situação do hospital de Aveiro, que deixou de ter a escala de serviço completa, a preocupação maior era referente aos serviços de urgência de Leiria, que só de véspera conseguem colmatar a falha no serviço, ou Castelo Branco, que tem apenas um médico obstetra no quadro do hospital. 

Carlos Cortes refere que em Coimbra há também dificuldades e que a escala de urgência só aparece completa, por vezes, «quase de véspera». Apesar disso, Coimbra tem a particularidade de possuir 10 especialistas de obstetrícia-ginecologia em serviço permanente, distribuídos pela Maternidade Bissaya Barreto e pela Maternidade Daniel de Matos. São quatro especialistas por cada maternidade a que se somam dois médicos obstetras no Serviço de Urgência (SU) no Hospital Universitário de Coimbra.  

No entanto, o efeito mediático sobre o fecho de alguns SU esconde realidades mais agudas. É o caso, por exemplo, da urgência da Medicina Interna, no hospital de Leiria. «Esta área fechou 57 vezes, entre Janeiro e Maio, muitas vezes com encerramento da Via Verde AVC, que é algo absolutamente desastroso», explica o responsável da OM, tendo em conta o prognóstico das consequências de um acidente vascular cerebral. Quanto mais cedo for a intervenção, melhor. Numa situação de fecho, esses doentes teriam de ser reencaminhados para Coimbra. 

«O peso que esses cuidadores têm em termos de prestação de cuidados de saúde é impressionante. Se nós retirássemos do país os cuidadores informais, nós teríamos uma catástrofe sanitária em Portugal». 

Carlos Cortes, presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos

«Fiquei assustado com a criação daquela comissão para avaliar a questão da ginecologia- obstetrícia, porque pensei que o Ministério da Saúde estava a acompanhar estas situações sempre», alerta Carlos Cortes. «Se o Ministério da Saúde tem de criar uma comissão para acompanhar a questão da ginecologia-obstetrícia, então e os outros problemas? O maior problema da urgência é a medicina interna. As escalas de cirurgia, por exemplo, de Aveiro, que têm sempre falhas, as da ortopedia e de muitas outras especialidades».

A Urgência é o reflexo do SNS

«A urgência é altamente consumidora de tudo e mais alguma coisa, consumidora de recursos financeiros, recursos técnicos, tecnológicos e de recursos humanos», sublinha Carlos Cortes, naquela que seria, fazendo a analogia, a ponta do iceberg, o sintoma mais visível da degradação do Sistema Nacional de Saúde (SNS). «Neste momento, um dos grande problemas do SNS é não ter os médicos disponíveis para as consultas, para as cirurgias, para as enfermarias». Carlos Cortes assevera: «A urgência não é um problema em si, a urgência é o reflexo do SNS. A resposta para esta questão não é resolver a questão da urgência, é um problema de fundo, temos de resolver muitas questões, são tantas que tem de ser todo o SNS».

Na perspectiva de Ana Paula Gaudêncio, enfermeira gestora da Consulta Externa e Unidade de Intervenção Precoce, na Maternidade Bissaya Barreto, a situação actual resulta de um crescendo ao longo do tempo. Os 42 anos de serviço, também, como enfermeira especialista em saúde materna e obstétrica dão-lhe uma perspectiva diferente da mira médica. A situação hoje é outra, porque «temos muito mais grávidas a precisar de acompanhamento médico do que há vinte anos atrás, as mulheres engravidam mais tarde, muitas vezes, com outras patologias associadas».

Ana Gaudêncio lembra que os filhos únicos são uma realidade em Portugal e que, por esse motivo, há um maior empenho para que na gravidez corra tudo bem, sem incidentes. Em contraste claro com a realidade em décadas anteriores. «A patologia associada à gravidez é sempre um assunto médico, não é um assunto de enfermagem, claro que nós colaboramos, temos o nosso papel, mas não temos autonomia em algumas das decisões, enquanto que no seguimento da gravidez normal os enfermeiros especialistas em enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia podem partejar e têm autonomia no seguimento do trabalho de parto, quando as parturientes não têm patologias.

A profissional da Maternidade Bissaya Barreto fala na necessidade de aumentar e dar mais autonomia aos enfermeiros especialistas numa tentativa de contrariar «uma grande medicalização da gravidez». Ana Gaudêncio enfatiza esta diferença entre a realidade portuguesa e a de outros países europeus: «estar grávida não é uma doença, é uma situação normal na vida reprodutiva das mulheres.» «No nosso país todas as mulheres são vistas pelo médico de família ou pelo médico obstetra, noutros, quando o nascimento é normal, o seguimento é feito pelos enfermeiros obstetras e apenas quando se detecta alguma patologia é que a grávida é encaminhada para o médico», acrescenta. 

«Em Coimbra, não se tem falado nem no fecho de maternidades nem na escassez de pessoal, apesar de também haver. Coimbra tem duas maternidades que, num tempo, cada uma delas já realizaram mais de três mil partos»

Ana Gaudêncio, enfermeira

A enfermeira Ana Gaudêncio aponta a necessidade de uma maior partilha de responsabilidade e tarefas, que reflicta o nível da formação e exigência que é pedida aos colegas de profissão. Ao longo dos últimos anos, refere, não existiram entradas nos quadros das instituições de enfermeiros especialistas; apesar de terem formação, são considerados como enfermeiros generalistas e sem recompensa económica por essa mesma especialização. «Isso desmotivou as pessoas no sentido de fazerem formação e, depois, chegamos a um ponto em que os profissionais são poucos para as necessidades». A sugestão de alterar ou repensar, em particular, a saúde materna e obstétrica tem sido apontada pela Ordem dos Enfermeiros, todavia Ana Gaudêncio não acredita que o Governo tenha qualquer acção nesse sentido. 

Carlos Cortes resume três áreas de actuação para contrariar a situação que se sente nos SU. Numa primeira fase, a literacia em saúde. O Ministério da Saúde e a Direcção Geral da Saúde «não têm um mecanismo forte e suficientemente eficaz de transmissão de informação para as pessoas saberem o que fazer quando estão doentes». Nesse sentido, o médico afirma que «a linha Saúde 24 tem de ser mais valorizada e reforçada em termos de recursos humanos e em termos de formação, com protocolos de actuação muito bem definidos com os hospitais».

O papel dos cuidados de saúde primários é também aqui mencionado. «Não há médicos de família e o mapa para colocação de especialistas é um desastre autêntico». O presidente da Secção Centro da OM elucida que «os médicos de família só estavam a pedir que se abrissem vagas nas áreas carenciadas», onde, muitas vezes, os profissionais já lá estavam a fazer a especialidade e, dessa forma, favorecer também a fixação dos médicos no SNS, sem aguardar pelo mapa de vagas.

Numa segunda fase, Carlos Cortes fala numa má gestão dos SU por parte do Ministério da Saúde, com falta de recursos humanos, falta de organização e a situação do material técnico do SNS, que está a ficar obsoleto e compromete a capacidade dos médicos tratarem os seus doentes. Também é «o vencimento base dos médicos que não está adaptado às responsabilidades, ao desgaste e ao trabalho que os médicos têm», acusa, enfatizando a importância de dar atenção e valorizar os seus profissionais. 

Um outro aspecto que carece de atenção é o destino de muitos doentes após a alta clínica que «não têm quem os receba», ora «porque não têm ninguém ou porque os cuidadores formais ou informais não têm formação suficiente para depois os acompanhar». É um problema que afecta maioritariamente a população sénior. «O peso que esses cuidadores têm em termos de prestação de cuidados de saúde é impressionante. Se nós retirássemos do país os cuidadores informais, nós teríamos uma catástrofe sanitária em Portugal», elucida Carlos Cortes. 

«Em Coimbra, não se tem falado nem no fecho de maternidades nem na escassez de pessoal, apesar de também haver. Coimbra tem duas maternidades que, num tempo, cada uma delas já realizaram mais de três mil partos, assevera Ana Gaudêncio, que explica que o serviço «têm-se mantido, claro, com recurso a horas extraordinárias e com pedido de esforço aos profissionais».

Ana Paula Gaudêncio sublinha também os SU, de um modo geral, como área problemática, «porque os cuidados de saúde primários não têm recursos de imagiologia, de patologia de análise, quando há uma dúvida, quase sempre são drenados para a urgência, porque temos TAC, temos Raio X, temos laboratórios.»

Há um efeito acumulador nos SU em Portugal, até se compararmos como os profissionais são alocados. «Há países que têm equipas de SU dedicadas, em que só trabalham na urgência. No nosso país, os médicos pertencem a um serviço e depois têm dias de SU. No dia que estão de urgência, não estão nos serviços, no dia a seguir estão a descansar e também não estão nos serviços, depois é um acumular».

Ainda sobre o evento trágico nas Caldas da Rainha, Ana Paula Gaudêncio aponta que essas notícias quebram uma confiança que levou muitos anos a ser construída com os utentes do SNS e perturbam também os próprios profissionais de saúde. «Ainda hoje, não sabemos exactamente porque é que o bebé morreu».

Um problema da mediatização destes casos é que «os resultados do inquérito nunca têm o mesmo impacto de divulgação que têm as situações que não correm bem», aponta Ana Gaudêncio, ainda a sublinhar que apesar da evolução nas últimas décadas, «nunca conseguiremos reduzir a mortalidade fetal ao zero, mesmo com gravidezes bem vigiadas e com número de profissionais suficiente, porque há sempre situações não previstas».

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