Mais uma semana, mais uma promessa eleitoral, desta vez analisada por Tomás Batista, um cidadão com uma visão inovadora, que não só idealizou um sistema de transportes mais eficiente para Coimbra, como também lhe deu uma nova imagem e um nome renovado.
A Torre de Controlo é uma iniciativa colaborativa que propõe monitorizar e analisar o cumprimento das promessas eleitorais da coligação Juntos Somos Coimbra, sob a liderança de José Manuel Silva, atual presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Promovida pela Coimbra Coolectiva, este esforço convida cidadãos e organizações locais a examinar as 112 medidas propostas. O executivo da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) é também desafiado a fornecer informações sobre o estado de implementação dos compromissos eleitorais, atualizando o progresso de cada promessa.
MEDIDA #17: Tornar os SMTUC um meio de transporte fiável em que as pessoas possam confiar para os levar a horas ao seu destino, reforçando o serviço social e inclusivo, através de uma reformulação geral da rede dos SMTUC para simplificação e otimização do seu funcionamento e introduzindo medidas infraestruturais de apoio e priorização dos transportes públicos. Permitir consulta de informação em tempo real e compra de bilhetes e passes à distância, em particular através de smartphones. Reformular profundamente a ECOVIA, necessidade que o recente desastroso relançamento bem evidencia, mediante a criação de uma rede de parques periféricos, devidamente articulados com o sistema do MetroBus e dos SMTUC.
A promessa eleitoral já foi cumprida?
Não. Segundo Tomás Batista, “o elevado número de horários que diariamente não são cumpridos ou a frequência insuficiente em certas linhas-chave (especialmente dentro da cidade) são dois fatores decisivos que continuam a penalizar o serviço prestado, deteriorando progressivamente a confiança e satisfação dos utentes face aos Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra — SMTUC”.

“Se queremos construir uma nova rede dos SMTUC digna do século XXI, é fundamental incluir neste processo a participação dos utentes e das demais entidades públicas e associativas.”
(Tomás Batista)

O bom, o mau e o assim-assim desta promessa eleitoral
O bom
É relevante reconhecer o esforço do executivo e da administração dos SMTUC na modernização da frota, com iniciativas como o aluguer de autocarros seminovos à Guimabus em março de 2023 e a aquisição de novos veículos através de fundos europeus do Programa POSEUR, incluindo a compra de 22 autocarros elétricos aprovada em fevereiro de 2023. No entanto, apesar desse esforço, que ainda é insuficiente face ao desejável, destaca-se uma maior transparência da CMC e dos SMTUC, com a apresentação de um “plano de salvação” que visa renovar a frota de forma progressiva até 2030, adquirindo 15 novos autocarros por ano e reduzindo a taxa de imobilização em 5%. Realçar ainda o recente lançamento de uma aplicação para smartphones dinâmica e com um grande potencial de aprimoramento que permite, entre várias funções, consultar as várias linhas e horários ou ainda uma localização aproximada, em tempo real, de cada veículo.



O mau
O elevado número de horários que diariamente não são cumpridos ou a frequência insuficiente em certas linhas-chave (especialmente dentro da cidade) são dois fatores decisivos que continuam a penalizar o serviço prestado, deteriorando progressivamente a confiança e satisfação dos utentes face aos SMTUC.
Destaca-se ainda as várias zonas do município que ainda não dispõem de qualquer cobertura da rede ou as condições penosas de trabalho a que muitos motoristas estão sujeitos, refletindo-se isto como um fator adicional de desvalorização desta classe profissional e que afasta potenciais novos motoristas de se candidatarem aos concursos de recrutamento onde a totalidade das vagas existentes não é muitas vezes preenchida.
A oferta reduzida em período noturno (pós-laboral) e a inexistência de uma rede de madrugada são outros fatores que afastam a população do transporte público para o transporte individual.
Falta um rebranding que simplifique e modernize a imagem dos SMTUC, tornando-a mais atrativa e renovada.
O assim-assim
A aprovação, por parte da CMC, dos princípios gerais do caderno de encargos para a reestruturação da rede de transportes urbanos, já tendo em vista a futura entrada em funcionamento do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), é um avanço importante e está alinhada com o que tenho vindo a defender nos últimos meses.
No entanto, se queremos construir uma nova rede dos SMTUC digna do século XXI, é fundamental incluir neste processo a participação dos utentes e das demais entidades públicas e associativas.

Espero, enquanto cidadão, que a administração dos SMTUC e a CMC considerem isso à medida que a iniciativa avança. É também importante salientar a comunicação deficiente dos SMTUC nas suas plataformas digitais, como Facebook e Instagram, que permanece muito aquém daquilo que é praticado por outros operadores de transporte público nacionais. Além disso, falta um rebranding que simplifique e modernize a imagem dos SMTUC, tornando-a mais atrativa e renovada.
Declaração de conflito de interesses
O autor desta avaliação não identificou quaisquer conflitos de interesses.

O que diz a Câmara Municipal de Coimbra sobre a medida #17?
A CMC afirma que o objectivo de tornar o sistema de transportes públicos fiável, confortável e eficiente foi identificado como uma sua “ação chave e primordial, tendo já sido empreendidas inúmeras medidas essenciais à reversão do caminho de decadência em que estavam mergulhados os SMTUC, ao longo da última década.”
Reformulação dos SMTUC
A Câmara confirma estar a promover a reorganização da rede dos SMTUC, “numa ótica de complementaridade ao Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM)”. Esta iniciativa “assenta na criação de uma hierarquização de linhas, prevê o reforço das carreiras entre áreas âncora e a otimização dos serviços, tirando partido dos pontos de transbordo pré-definidos.”
Com efeito, um aspecto positivo consistiu na apresentação do Plano de Renovação da Frota e de Melhoria do Desempenho dos SMTUC, apresentado em fevereiro de 2023, que lista um conjunto de medidas a implementar até 2030, num investimento de cerca de 40 M€, para a compra de novos veículos. Assim, está prevista a aquisição, em média, de 15 autocarros novos por ano, de forma a reduzir para cerca de 6% a taxa de imobilizado.
De acordo com a Câmara, este plano tem vindo a ser seguido e executado: “em 2022 foram adquiridos 22 veículos, operação que representou um investimento total de 10,8 milhões euros (M€), tendo sido comparticipada em 7,8 M€ por fundos comunitários e os restantes pela CM de Coimbra, ao abrigo de uma candidatura que realizou, através dos SMTUC, ao POSEUR para “Promoção da eficiência energética nos transportes coletivos de passageiros incumbidos de missões de serviço público”. Esta aquisição não só contribuiu para “incentivar o uso de veículos mais eficientes e que utilizem fontes de energia com melhor desempenho ambiental”, como ainda “permitiu abater 15 autocarros velhos, com os inerentes benefícios, designadamente em termos ambientais”
Em abril de 2024, “foi aprovada a aquisição de mais 30 novas viaturas elétricas destinadas à
renovação da frota, permitindo a substituição de igual número de autocarros com motores de combustão a gasóleo, com idades superiores a 20 anos, contribuindo para a redução significativa da idade média da frota, diminuindo os custos da operação, os tempos de paragem, otimizando assim os recursos existentes e sobretudo contribuindo para a descarbonização da frota”.
Consulta de informação em tempo real e compra de bilhetes e passes à distância
Em 2023, os SMTUC implementaram uma nova plataforma digital que permite o carregamento de
passes, o portal Coimbra conVIDA, que “visa simplificar e agilizar os processos de carregamento de passes e de consulta de movimentos do cartão. Trata-se de um portal simples e intuitivo, que pode ser
acedido através de qualquer dispositivo com ligação à internet, seja smartphone ou PC, e
elimina, assim, a necessidade de deslocação aos locais de venda, proporcionando uma gestão
mais imediata e abrangente dos passes de cada utilizador.”
Por outro lado, esta aplicação, “que disponibiliza a informação ao utilizador, está em fase final de implementação nos SMTUC” e a Câmara indica que “será possível planear, em tempo real, as viagens, podendo, cada utilizador receber alertas sempre que ocorram imprevistos nas linhas pré-selecionada (incidentes, atrasos, suspensões de serviços…)”, não adiantando nenhuma data para o lançamento desta funcionalidade.

Também no ano passado, e apoiando-se no estudo dos fluxos de utilizadores, a CMC instalou duas máquinas automáticas de venda e carregamento, disponíveis 24 horas, no piso inferior do Elevador do Mercado Municipal D. Pedro V e na Estação de Coimbra-B. Está ainda planeada a instalação de mais duas máquinas similares, no Polo I da Universidade de Coimbra e na zona do Largo da Portagem.
Passe único
Recentemente, a assinatura do contrato de sociedade entre a CMC e a CIM-RC para constituição da AGIT – Entidade de Gestão do Sistema Intermodal da Região de Coimbra, abriu caminho para a criação de um passe único, “que permitirá aceder aos diferentes operadores de transportes (Metrobus, SMTUC, CP, outros operadores privados), com um só titulo e sem pagar mais quando optar por transbordo”. A CMC estima que “este título único esteja a funcionar a tempo da entrada ao serviço do Metrobus, em 2025“.
Reformulação da Ecovia
Como já havia sido divulgado, “os serviços oferecidos pela ECOVIA têm vindo a ajustar-se, de forma a cativar mais utilizadores, em particular nas linhas vermelha e verde (CHUC e Polo I).” Neste sentido, a linha vermelha foi estendida à estação de Coimbra B, associado a um novo parque de estacionamento de forma a facilitar os movimentos de toda a zona norte e Oeste, ao complexo dos HUC.
Também o modo de acesso à ECOVIA sofreu alterações. Foi aprovado o alargamento dos títulos dos SMTUC aos serviços oferecidos pela ECOVIA, o que, sem desvirtuar o princípio de interligação dos parques de estacionamento e os principais polos de destino dos utilizadores, permitiu aumentar significativamente os níveis de procura do sistema.
Os desafios dos SMTUC
A Câmara Municipal de Coimbra atribui as grandes dificuldades atuais dos SMTUC à falta de investimento na última década, especialmente na frota e no capital humano, reconhecendo avanços, mas afirmando que uma resolução completa ainda levará alguns anos. A entrada do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM) é vista como um desafio estrutural e uma oportunidade de melhoria.
Segundo o município, os principais problemas persistentes são a falta de motoristas, para a qual buscam apoio do Governo e uma possível empresarialização dos SMTUC, e as obras em curso, que afetam os horários. A Câmara sublinha que a reestruturação dos horários em setembro ajudou a tornar o serviço mais confiável, e acredita que as medidas implementadas garantirão a fiabilidade e qualidade desejadas pelos munícipes.
A CMC remata: “estamos crentes que as soluções que têm vindo a ser implementadas irão conferir definitivamente aos SMTUC, tal como nos comprometemos, a fiabilidade e a qualidade que os
munícipes de Coimbra legitimamente desejam.”
