Ao sairmos de casa à pressa, sem ter antes a precaução de beber um copo de água, torna-se comum o nosso andar pela cidade com uma acentuada necessidade de matarmos a sede antes que ela nos mate. Essa aflição aumenta momentaneamente com o pânico fugaz que nos passa pela cabeça sempre que ligamos uma torneira e não saií água… Trata-se de uma premissa atormentadora que já serviu de semente subtil a diversas ficções caucionárias assentes na escassez de água, quer pela caneta do escritor norte-americano Neal Shusterman, quer nas filmografias do australiano George Miller ou do malaio Tsai Ming-Liang.
Isto porque a água é não só um bem essencial comum a todos, mas um recurso cuja inesgotabilidade parece cada vez mais ameaçada, não obstante a sua presença nos nossos lares e ruas ao longo dos tempos. Aliás, a edificação dos centros urbanos desenvolveu-se precisamente em torno de estruturas que permitem a distribuição pública da água, sendo o curso da mesma uma constante na génese arquitectural da maioria das cidades. E por se encontrar precisamente numa zona fluvial, a história de Coimbra é registada tanto pelos monumentos naturais derivados do Mondego, bem como pelos que advieram de mão humana.

É o caso das fontes, fontanários e chafarizes, obras de proveito público que ao longo da vasta história da nossa cidade se tornaram igualmente locais de encontro social, muito antes das esplanadas ou discotecas. E embora muitas dessas construções já estejam cobertas pelo típico véu museológico que parece pairar sobre toda a nossa cidade, há exemplos ocasionais que resistem aos avanços do tempo e onde os hábitos sociais persistem imutáveis. É o caso da Fonte dos Carvalhos, localizada na Freguesia de São Martinho do Bispo, onde ainda hoje as pessoas recorrem diariamente para ir buscar água para variados usos domésticos.
Quem nos confirma é Agostinho Campos, um freguês habitual da citada fonte há mais de 20 anos e que se desloca com deleite para ir buscar água e se abstrair do clima abafado dos meses estivais. «Agora nesta altura do ano, com o calor, normalmente vou à tardinha e há lá sempre muita gente com os seus garrafões. São pessoas que vivem ali próximo, é sempre lá que eles vão abastecer-se de água.» Quando perguntámos sobre o porquê de ir buscar água a essa fonte, responde-nos com uma empatia honesta:. «Gosto de lá ir e gosto da água que, aliás, é muito boa. Além disso, tá bonito aquilo. Não é um fontanário que está assim abandonado.»

Anotamos então o zelo da vizinhança que trata da fonte e faz a limpeza, bem como o cuidado da Junta de Freguesia de São Martinho do Bispo ao mandar analisar regularmente a água na Faculdade de Medicina, como pudemos atestar no edital envidraçado que apresenta os resultados dessas análises da água datado no mês passado. «Eles geralmente fazem aquilo duas três vezes por ano», salienta-nos Agostinho Campos, com plena confiança naquela água que consome. Uma credibilidade que é-nos igualmente comprovada pelo professor Alfeu de Sá Marques, no que diz respeito à qualidade geral da água no Concelho de Coimbra.
Actual Presidente do Conselho de Administração da Águas de Coimbra – entidade responsável pelo sistema público de abastecimento de água pública -, o especialista em Hidráulica e Recursos Hídricos assegura-nos que «em geral podemos dizer que temos 99,9% de confiança na água da rede pública de Coimbra», embora entenda que ainda há trabalho a ser feito no que diz respeito à promoção da qualidade da chamada «água da torneira» no município. «Isto porque eu posso ter água em excelentes condições à entrada de minha casa, e depois ter uma canalização em chumbo, em ferro fundido ou em cobre que vai-me condicionar a qualidade que eu depois estou a utilizar, dentro de minha casa.»

E quanto às infraestruturas públicas de acesso público? Referimo-nos aos bebedouros, que sucederam aos chafarizes enquanto aparelhos que nos permitem saciar a sede enquanto andamos pela cidade. Mais especificamente, pelas zonas verdes de lazer, como parques e jardins, onde tradicionalmente se encontram. Alfeu de Sá Marques aponta-nos que, embora a qualidade da água que é proporcionada pelos aparelhos de distribuição seja providenciada pelas Águas de Coimbra, a manutenção é da responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra, nomeadamente da Divisão dos Espaços Verdes e Jardins.
Ao falarmos com o engenheiro José Vilhena, o chefe dessa divisão confirmou-nos a função: «Onde há lazer, onde há desporto, onde há actividade física, é fundamental que esteja disponibilizada a água. A nossa competência em si é a manutenção e garantir que esses bebedouros que disponibilizam a água funcionem e que está disponibilizada ao público.» Francisco Queirós, vereador em regime de permanência nesse mesmo pelouro, ecoa essa tarefa de perservação e manutenção, não descurando o já citado papel auxiliar das Juntas de Freguesia nesse escopo qualitativo, como o exemplo de São Martinho de Bispo comprova.
«Além do dever de preservar e valorizar esse património, temos a noção que, em pleno século XXI, é fundamental a água para consumo humano ter toda a qualidade.» Com essa nota firmada no hoje e agora, indagámos sobre como a actual situação da seca e latentes variações climatéricas em vindouros anos poderão influenciar ou até mesmo limitar o consumo público da água. O vereador começa por esclarecer que, embora o grande volume de água esteja orientado para a agricultura, «essa é uma questão que um país como o nosso tem que equacionar muito bem com estas alterações climáticas, que é o tipo de modelo de desenvolvimento que tem, o tipo de agricultura que faz.»

Dito isso, salienta que «só cerca de 15% da água que gastamos é que é para consumo humano e, no caso concreto de Coimbra, felizmente não estão previstas quaisquer rupturas ou restrições de água, muito menos para consumo humano.» Um apaziguar que Alfeu de Sá Marques nos confirma ao indicar que «enquanto houver água na barragem da Aguieira e vier afluindo até Coimbra, não há razão nenhuma para que haja qualquer racionamento de água e, neste momento, não prevejo que haja qualquer necessidade de condicionamento ao consumo de água.» Contudo, tanto o vereador da Câmara como o dirigente das Águas de Coimbra concordam na ressalva de que a água não deve ser tratada como um bem inesgotável.
«Isto não significa obviamente que todos nós não devamos ter uma enorme atenção com a poupança e com a gestão dos recursos que temos», aponta Francisco Queirós. «Nada de pânico relativamente a esse consumo de água, mas toda a consciência e toda a racionalidade na gestão do mesmo.» Já o professor doutorado em Recursos Hídricos enfatiza a solidariedade latente a essa gestão racional: «naturalmente, pelo nexo que existe entre a água, a energia e os alimentos e sendo a primeira um bem que para o resto do país está com algumas dificuldades, havemos de ter sempre uma certa atenção de não a desperdiçar, pois a água de facto não deve ser vista como um bem inesgotável». Recomenda, pois, um maior espaçamento das lavagens de rua e considera essencial uma maior fiscalização, de modo a evitar os roubos de água, feitos através de ligações clandestinas na própria rede de distribuição.

Neste tópico, qual acaba por ser então a maior ameaça aos bebedouros? De acordo com José Vilhena, é o desuso e consequente desactivação, decorrentes de actos de vandalismo. Nomeadamente através de um furto, desta feita não de água mas de torneiras. «Estamos a reequacionar qual vai ser a metodologia porque a torneira clássica de disparar não funciona, porque levam a torneira. Da maneira que esse vandalismo com o qual lutamos diariamente acaba por ser o grande inimigo dos bebedouros.» Salienta assim a constante necessidade de vigilância em que, através de uma manutenção periódica, verificam se os bebedouros estão em funcionamento ou não. «Se verificamos que está a funcionar, não lhe fazemos nada, mas se precisar vai logo para a reparação, vamos ter que o recuperar.»
A essa intervenção constante de recuperação acresce uma inspecção visual, bem como uma inspecção operacional de minúcia. Esta última é efectuada mensalmente pela ASAE, no âmbito da fiscalização dos parques infantis. Trata-se de uma monitorização que implica maior atenção e rigor, dado que tais parques infantis formam, juntamente com os jardins, «a zona privilegiada para fornecer água às pessoas», nas palavras do vereador Queirós. É nestas zonas de privilégio que assenta o mapeamento dos bebedouros em Coimbra, embora tal questão do planeamento não caia na alçada da Divisão dos Espaços Verdes e Jardins, como aponta o engenheiro Vilhena: «trata-se de um ponto fundamental, obviamente, mas é da gestão da empreitada, do arquitecto paisagista».

O que esta divisão faz é uma avaliação sistemática de todo o equipamento, através de um levantamento de todas as diversas infraestruturas (bebedouros, fontes, lagos, etc), estando a cargo da sua respectiva identificação e acompanhamento técnico, mesmo quando alguns são da responsabilidade conjunta com as diferentes Juntas de Freguesia. «Ainda são de umas dezenas largas, se tivermos a falar de 186 fontanários, à volta disso, a juntar estes bebedouros e estes lagos, são ainda muito significativos.» Números apontados pelo vereador que, por sua vez, aponta o total aproximado de três dezenas de bebedouros actualmente em Coimbra, dado que um dos exemplos enumerados tenha sido «desactivado por falta de uso, porque não tinha sequer consumo durante anos», de acordo com o engenheiro Vilhena.
Dado a quantidade de locais e o uso esporádico que é feito dos bebedouros, foi-nos dificil angariar testemunhos e citações de utentes para este artigo. No entanto, observámos alguns episódios caricatos, entre os quais vários bebedouros não funcionais ou mesmo abandonados (um dos quais convertido em cinzeiro, no Skate Park) ou até mesmo um uso insólito desses bebedouros, não por pessoas mas por animais de estimação, no Parque Verde Mondego. Espírito de vigilância citadino que se manifesta como uma ferramenta útil à Divisão de Espaços Verdes, composta por uma equipa não muito numerosa mas responsável por uma área bem vasta de 110 hectares de manutenção. José Vilhena salienta mesmo que «vigiar isto tudo, se não fossem as pessoas a darem o seu contributo, era muito difícil.»

Estes inputs dos cidadãos são fundamentais e, nas palavras do vereador Queirós, «além de um direito, é um dever. Qualquer munícipe que veja alguma coisa que está deteriorada ou estragada, pode e deve comunicar», indicando os contactos telefónicos ou o email com a Divisão de Espaços Verdes e Jardins como canal de comunicação ideal. Nesse aspecto, foi-nos relatado que muitas vezes os cidadãos acabam por recorrer erroneamente às Águas de Coimbra para apresentar tais queixas, assumindo que se trata da entidade fiscalizadora apropriada. No entanto, o trabalho de monitorização da entidade acaba apenas por se centrar na vertente qualitativa da água, na medida em que recebem a água das Águas de Centro Litoral, após a sua captação e tratamento, transportando-a de seguida até à torneira do consumidor, garantindo a sua qualidade e potabilidade.
Iniciativas de teor legal – como Diretiva 2020/2184 do Parlamento Europeu – e de louvor social – como a Right2Water – demonstram que há uma preocupação premente e global no que diz respeito ao acesso à água potável a todas as camadas sociais. E embora a Câmara Municipal entenda que Coimbra é um concelho onde a rede de distribuição de água já é universal, quando perguntámos sobre como a vertente mais sustentável que a cidade possa vir a ter poderá influenciar esse panorama sistemático, o vereador Francisco Queirós expõe que «do ponto de vista ambiental e também da racionalidade dos consumos de água, essa é a grande preocupação para quem pensa as políticas de cidade hoje em dia. Embora de uma forma diferente do que em cidades mais novas, essa preocupação existe em Coimbra.»
