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Quais são as soluções da Câmara para aliviar o congestionamento na rotunda do Almegue?

Na opinião de Luís Neto, urbanista, "Coimbra deveria seguir exemplos de outras cidades europeias que, ao invés de apostar em mais infraestruturas rodoviárias, concentram os seus esforços em medidas que incentivam o uso do transporte público e a mobilidade suave".

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Fotografia: Mário Canelas

Voltamos com a análise de mais uma medida eleitoral, desta vez feita por Luís Neto, urbanista com formação em engenharia civil.

O projecto Torre de Controlo é um esforço coletivo de acompanhamento e análise do cumprimento das promessas eleitorais da coligação Juntos Somos Coimbra, liderada por José Manuel Silva, que atualmente está à frente da Câmara Municipal de Coimbra. Esta iniciativa, promovida pela Coimbra Coolectiva, desafia diversos cidadãos e organizações locais, a avaliar as 112 medidas propostas. O executivo da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) é sempre desafiado a comentar, semanalmente, o estado de execução das promessas eleitorais, partilhando atualizações sobre o progresso de cada compromisso assumido.

MEDIDA #16: Intervir rapidamente para resolver alguns dos pontos de congestionamento que permitem soluções rápidas, como a rotunda do Almegue, e, em articulação com os CHUC, resolver em definitivo o problema das acessibilidades aos HUC, mediante a adopção de um conjunto integrado de soluções (silo(s) de estacionamento, acesso automóvel e em transporte público, MetroBus e ECOVIA).

A promessa eleitoral já foi cumprida?

Parcialmente. Na opinião de Luís Neto, “haveria outras soluções para a transferência modal – que dependem apenas da CMC – que podiam ter sido avançadas.”.

“Coimbra deveria seguir exemplos de outras cidades europeias que, ao invés de apostar em mais infraestruturas rodoviárias, concentram os seus esforços em medidas que incentivam o uso do transporte público e a mobilidade suave.”
(Luís Neto)

O bom, o mau e o assim-assim desta promessa eleitoral

O bom

A promessa eleitoral identifica alguns dos principais pontos de constrangimento na mobilidade rodoviária, e reflete a necessidade urgente de melhorias na mobilidade de Coimbra. A inclusão de soluções integradas, como a criação de silos de estacionamento, a implementação do MetroBus e o reforço da ECOVIA, demonstra uma abordagem abrangente. O reconhecimento de que é preciso articular com outras entidades para resolver os problemas de acessibilidade é um ponto positivo, pois a resolução deste tipo de questões depende de uma colaboração eficaz – nestes casos com a IP, a ULS Coimbra e os CHUC.

Recentemente foi revelado o plano de mobilidade da ULS de Coimbra, que vai ao encontro desta promessa eleitoral. É uma proposta faseada que começará já este ano e será implementada até à entrada em funcionamento do Metrobus nos HUC. O plano prevê a criação de mais lugares de estacionamento – ainda que pagos – mas também aborda uma necessidade real de alternativas de transporte público, que podem reduzir a dependência do automóvel e melhorar a qualidade de vida dos utentes e trabalhadores dos HUC.

O mau

Apesar da promessa se focar em soluções rápidas, pouco ou nada foi feito até ao momento para resolver o congestionamento na rotunda do Almegue, um dos principais pontos de estrangulamento do tráfego em Coimbra. A promessa de uma intervenção rápida seria previsivelmente contradita pela realidade, dado que qualquer intervenção depende da actuação da Infraestruturas de Portugal, uma vez que o IC2 pertence à rede rodoviária nacional.

Embora o MetroBus seja uma promessa positiva, ele já estava previsto antes desta candidatura e, mesmo com o progresso atual, ainda pode demorar alguns anos até estar totalmente operacional em todos os trajetos. Até lá, haveria outras soluções para a transferência modal – que dependem apenas da CMC – que podiam ter sido avançadas.

Já a proposta de silos de estacionamento nos HUC só vai avançar este ano. Quando implementados, serão pagos para os utentes, o que pode ser visto como uma medida penalizadora num contexto hospitalar onde muitos dependem de visitas regulares, se não forem oferecidos planos de isenção ou descontos ajustados a situações específicas. 

Apesar da promessa se focar em soluções rápidas, pouco ou nada foi feito até ao momento para resolver o congestionamento na rotunda do Almegue, um dos principais pontos de estrangulamento do tráfego em Coimbra.

O assim-assim

O fenómeno da procura induzida é particularmente relevante neste âmbito da resolução de problemas de mobilidade. Quando se investe em mais infraestruturas rodoviárias, como novas pontes ou grandes cruzamentos e parques de estacionamento, o número de carros nas estradas tende a aumentar proporcionalmente.

Estudos em urbanismo e engenharia de tráfego já demonstraram que este tipo de investimento pode, na verdade, piorar a situação a longo prazo, uma vez que os motoristas percebem que há mais espaço nas estradas e, como resultado, utilizam o carro com mais frequência. É um ciclo vicioso que, em vez de reduzir o congestionamento, acaba por agravá-lo, sobrecarregando a infraestrutura novamente após alguns anos.

Coimbra deveria seguir exemplos de outras cidades europeias que, ao invés de apostar em mais infraestruturas rodoviárias, concentram os seus esforços em medidas que incentivam o uso do transporte público e a mobilidade suave.

Na verdade, a melhor maneira de resolver os problemas de trânsito é mesmo reduzindo o número de carros na estrada.
(Luís Neto)

Opinião

A proposta eleitoral da coligação Juntos Somos Coimbra para resolver alguns dos problemas de mobilidade é ambiciosa, com uma abordagem que combina várias medidas integradas, mas enfrenta desafios sérios na sua execução e no tempo de implementação

Embora se mencione intervenções rápidas, como a melhoria na rotunda do Almegue, a falta de avanços concretos até agora é decepcionante, uma vez que essa área continua a ser um dos principais pontos de congestionamento da cidade.

A solução que se tem defendido é a construção de uma nova ponte sobre o Mondego, passando pela extremidade Sul do Choupal, culminando num nó em trevo ou numa rotunda desnivelada. No entanto, esse tipo de grandes investimentos em infraestruturas rodoviárias levanta sérias questões sobre a sua eficácia a longo prazo. Especialmente à luz daquilo que tem vindo a ser entendido nas últimas décadas sobre a procura induzida na mobilidade rodoviária. A expansão de infraestruturas rodoviárias, como novas pontes ou grandes nós desnivelados, tende a atrair mais procura de veículos a utilizar essa mesma infraestrutura, um fenómeno que apenas agrava novamente a congestão no médio e longo prazo, mas desta com um volume de tráfego (número de veículos) maior.

Isto é problemático porque exacerba as externalidades negativas associadas ao tráfego automóvel, nomeadamente o aumento de emissões de poluentes atmosféricos, o aumento da sinistralidade rodoviário, a pressão da procura de estacionamento nas cidades, bem como a redução de qualidade de vida associada à utilização do automóvel, como sedentarismo, stress e ruído excessivo.

Soluções mais modestas e de menor custo, como uma intersecção desnivelada simples, semelhante à rotunda da Guarda Inglesa, poderiam ser mais eficazes, sobretudo se implementadas em conjunto com uma política de transferência modal forte. Não exigiria uma nova ponte nem um grande nó rodoviário com um custo na ordem das dezenas de milhões de euros.

Na verdade, a melhor maneira de resolver os problemas de trânsito é mesmo reduzindo o número de carros na estrada. Portanto, a melhor maneira de resolver as demoras em nós problemáticos como o Almegue ou Casa do Sal é oferecer alternativas viáveis de transporte que desincentivem as pessoas a circular com o seu carro na cidade. Isto pode parecer muito intuitivo, mas o que é certo é que mais depressa se equaciona investir dezenas de milhões de euros no aumento da capacidade da infraestrutura rodoviária do que gastar esses mesmos milhões na expansão do Metrobus para a margem esquerda do Mondego; no aumento da frequência dos comboios de proximidade que servem este eixo entre Pereira e Coimbra; ou na expansão dos SMTUC com serviços expresso, servindo capilarmente os diferentes bairros na zona Oeste do município como Arzila, Taveiro, Ribeira de Frades ou Casais, seguindo depois directamente para Coimbra pela via rápida.

Propõe-se também criação de silos de estacionamento nos HUC com o objetivo de disciplinar o estacionamento desorganizado e caótico nas proximidades do hospital. No entanto, há preocupações legítimas sobre o facto de os utentes terem de pagar este estacionamento, especialmente num contexto hospitalar. Ainda que faça sentido financiar este investimento através da cobrança de estacionamento, e até dissuadir o uso de automóvel nesta zona da cidade, é importante garantir que os utilizadores mais vulneráveis possam ter acesso facilitado aos hospitais através de viatura própria. É necessário criar planos de isenção ou descontos ajustados a situações específicas.

Vendo esta proposta por outro prisma, embora o aumento de 1.600 lugares de estacionamento possa aliviar a pressão no curto prazo, o aumento de estacionamento também é uma forma de induzir a procura de mobilidade automóvel. Se construirmos infraestrutura para facilitar a utilização do automóvel, vamos ter ainda mais automóveis a pressionar essa mesma infraestrutura no médio ou longo prazo.

Para reduzir o número de automóveis na cidade, seria importante contar também com uma boa rede de Park & Ride. Ou seja, parques de estacionamento periféricos associados a sistemas de transporte público de alta capacidade, com trajectos rápidos e frequentes, que sejam suficientemente atractivos para dissuadir a entrada de automóveis no perímetro urbano. Nesse aspecto, a atual rede ECOVIA é claramente insuficiente e mal concebida. São parques de estacionamento já no centro da cidade – que implicam que se entre pelos nós rodoviários mais problemáticos – associados a um sistema de mini autocarros que circulam no meio do trânsito de Coimbra. Estes parques de estacionamento dissuasores deveriam estar localizados na periferia, fora dos limites urbanos, e associados a meios de transporte de maior capacidade que circulam em canal dedicado. Concretizando, idealmente deveria existir um sistema de Park & Ride associado aos comboios suburbanos e ao Metrobus (desta primeira fase e de fases futuras), em locais como Souselas/Adémia, Taveiro/Casais, Antanhol ou Ceira.

Declaração de conflito de interesses

O autor desta avaliação não identificou quaisquer conflitos de interesses.

O que diz a Câmara Municipal de Coimbra sobre a medida #16?

Na resposta à Coimbra Coolectiva, numa nota preliminar, relativamente ao objetivo da Torre de Controlo, de avaliação das medidas eleitorais, a CMC entende que “esta análise está a ser feita de forma estranhamente prematura, pois ainda falta cumprir 25% do mandato e foi apresentado um programa para oito anos.” O objectivo da Coimbra Coolectiva é permitir um acompanhamento próximo e regular da execução do programa eleitoral, procurando informar e envolver a comunidade no escrutínio do trabalho do governo local.

A CMC afirma que, “no que concerne a ação considerada, que envolve múltiplos agentes, está parcialmente cumprida, particularmente no que diz respeito à responsabilidade da CM de Coimbra, aquela pela qual respondemos”.

Rotunda do Almegue

Para contextualizar as disfunções relativas ao trânsito na rotunda do Almegue, a CMC informa que “o nó do Almegue, da responsabilidade da Infraestruturas de Portugal (IP), nasceu como uma solução provisória, para dar resposta emergente à abertura ao serviço da variante sul a Coimbra, assim permanecendo há cerca de 15 anos.” O município “tem travado negociações com a IP no sentido de as ultrapassar/atenuar, apresentando soluções alternativas definitivas e transitórias.”

Para a CMC, a resposta que pode resolver, de forma definitiva, esta zona de congestionamento consiste na construção da 4ª ponte sobre o Rio Mondego e a adaptação da rotunda do Almegue a um nó em “Trevo” que assegura todos os movimentos principais em correntes contínuas.

Considerando o desenvolvimento do Plano de Pormenor da Estação Intermodal de Coimbra (PPEIC), desde que iniciou funções, sabemos que o actual Executivo municipal não só iniciou conversações com a IP no sentido de assegurar a construção da 4ª ponte, como exigiu a sua incorporação no PPEIC, “o que já aconteceu”. A CMC partilha que a IP aceitou avançar desde já para o estudo prévio da nova Ponte, que considera “um progresso enorme”.

Naturalmente, esta solução “só poderá ser construída depois da entrada ao serviço da Alta Velocidade, uma vez que a nova ponte rodoviária irá aproveitar o canal atualmente atribuído ao Domínio Público Ferroviário – a atual ponte ferroviária”. 

Admitindo que se trata de um processo de longo prazo, a Câmara assume ser necessária “a adoção de medidas transitórias, que permitam mitigar o problema a curto prazo” e confirma que “está por isso em fase final de celebração um protocolo de colaboração para o estabelecimento de responsabilidades entre as duas entidades IP/CM de Coimbra, para implementação de um sistema semaforizado no nó do Almegue”. A CMC assumiu a elaboração deste projeto e a abertura de procedimento para a instalação do sistema.

Problema das acessibilidades aos HUC

A medida eleitoral #16 prometia ainda, em articulação com os CHUC, resolver em definitivo o problema das acessibilidades aos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).

A CMC afirma que, “com o arranque das obras do Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), aquele complexo sofreu condicionamentos adicionais, o que obrigou a repensar os acessos ao interior dos hospitais”. A proposta feita pela CMC aos HUC e IP consistiu na “troca de sentidos de trânsito no interior do complexo e a transferência da entrada principal para a entrada norte, a partir da Avª Afonso Romão, limitando a entrada através da Rotunda Mota Pinto às urgências e a ambulâncias”.

A solução apresentada foi acolhida, “o que se veio a revelar numa melhoria substancial da fluidez do trânsito no interior do complexo, bem como no controlo das filas de entrada junto à rotunda Dr. Mota Pinto”. A CMC declara que “curiosamente, o trânsito melhorou relativamente à situação anterior”.

Construção do silo nos HUC

A CMC “tem-se afirmado como parceiro ativo” no desafio de construção do silo nos HUC, uma responsabilidade dos CHUC. Com efeito, “tendo o espaço previsto para construção do silo sido afetado à localização da futura maternidade, está em avaliação a possibilidade da criação de um silo conjunto, a localizar no Pólo III da UC, que dê resposta às necessidades de estacionamento nos HUC e naquele Polo universitário.”

O contributo da CMC para este projecto implica que tenha “assumido a responsabilidade de conceber a solução e elaborar o projeto de execução da ligação da Avª Afonso Romão a estes dois equipamentos”. Trata-se de um projeto que “foi alargado à reformulação da Rotunda Dr. Mota Pinto, de forma a integrar um espaço destinado a interface e promoção da intermodalidade”.

Este novo espaço de interface vai “permitir retirar a paragem dos transportes públicos do interior da Praceta Dr. Mota Pinto e localizá-la num espaço adequado, onde se conjugam paragens de táxis, bicicletas e outros modos de transporte, devidamente articulado com a rede pedonal, que garante, em conforto e segurança, a ligação pedonal ao Polo III/HUC e à futura paragem do SMM”.

Ecovia

Relativamente à ECOVIA, a CMC informa que sofreu alterações, com a eliminação da linha roxa e o alargamento e reforço da linha vermelha. “Ainda em 2022, e perante os níveis de procura que comprovavam a realização de 82 viagens diárias para transportar cerca de 12 pessoas, decidiu-se eliminar a linha roxa, a qual mantinha uma procura totalmente negligenciável. Em contrapartida, em 2023, a linha vermelha foi alargada e reforçada, através da criação de um novo parque de estacionamento junto a Coimbra-B, reforçando a ligação estratégica entre a estação ferroviária e o complexo dos HUC.”

Uma boa notícia para a comunidade foi o alargamento do acesso à ECOVIA “a todos os possuidores do passe geral, o que permitiu aumentar de forma significativa o nível de procura do sistema.”

E a CMC remata: “Está a ser feito o que nunca tinha sido feito.”

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