«É muito criativo, é muito.. é bestial pá.»
As palavras soam diariamente às 19h na Rádio Universidade de Coimbra (RUC). É hora do Santos da Casa, programa dedicado às novidades, raridades e algumas peculiaridades da música portuguesa. Clã, Mão Morta, Anaquim, Noiserv, António Zambujo, Supernada, B Fachada e Manuel João Vieira foram alguns dos muitos interlocutores de Fausto Silva e Nuno Ávila. São 32 anos e muitos fãs convictos do duo dinâmico dedicado à missão quotidiana de expor o raro e rarear o exposto, que se formou nos estúdios e cimentou no gosto musical.
«Comecei antes de haver RUC, na Centro Experimental da Rádio da Associação Académica de Coimbra», conta Fausto, professor de Matemática e um dos sócios originais da actual rádio-escola da AAC. «Sou professor [do ensino secundário] quase há tantos anos como sou locutor de rádio, e para mim vir fazer rádio é uma ocupação semelhante a outros que se dedicam à pesca ou à caça.»
Foi nos primórdios da RUC, em 1986, que Fausto, com o bichinho de explorar a explosão do rock português que então decorria, se iniciou enquanto curador radiofónico da música nacional com o programa Canto Lusitano. Num dos episódios, recebe um grupo de jovens apaixonados por música a apresentar a fanzine dedicada à música portuguesa Lusomania. Um deles era Nuno Ávila.
É provável que o vejam de máquina fotográfica na mão em muitas iniciativas da Câmara Municipal de Coimbra. Ávila hoje é técnico superior de comunicação da autarquia, e conta que aquela breve experiência radiofónica, há quase 40 anos, o arrebatou. «Foi a partir dessa emissão que comecei a colaborar na rádio», conta, recordando com saudosismo as crónicas em programas que versavam sobre a música portuguesa, como o Canto Lusitano, o Trovas Lusas ou o Cá Se Fazem. Entrou oficialmente para a família RUC em 1989.

O Santos da Casa nasceu em 1992. Ao longo de 32 anos de emissão na sintonia dos 107.9 FM, o programa edificou-se como referência radialista incontornável. Em 2022, foi destacado nos Prémios Autores como um dos melhores programas de rádio a nível nacional. É o único programa de uma rádio local a figurar no pódio da Sociedade Portuguesa de Autores. Não obstante o orgulho pela distinção – e apesar do nome -, os locutores não se consideram divindades e a perseverança advém de um sentimento de grande humildade.
A música
Em mais de 30 anos, a fórmula não mudou nem o indicativo «que é o mesmo do início, gravado ainda num gravador de bobinas», mas as sonoridades sim. «Nos primeiros anos era muito mais indie e, de repente, começou a alargar para o fado, heavy metal e até à música clássica contemporânea.» A descrição delineia o âmbito que tanto o programa como a música nacional foram angariando ao longo do tempo. «Embora sejam franjas do que é a programação habitual do Santos da Casa, acaba por ter um grande segmento dentro do, digamos, pop/rock, o que quer que isso possa ser».
A tradição sonora, aliada ao extenso currículo radiofónico, ajuda a cimentar a relação do Santos da Casa com as vozes da música nacional que apregoam e que frequentemente vai além da mera relação de promoção ou comunicação social. «Ao longo dos anos, surge a importância de termos sido a primeira rádio a passar a música ou a entrevistar certos projectos», aponta-nos Silva, enumerando nomes como Valter Lobo, Conjunto Corona ou Noiserv. «Estas coisas tornam-se obviamente importantes para as bandas» e referem os Anaquim, que são de Coimbra e estrearam ao vivo no Festival Santos da Casa, que entretanto foi criado. Desde 1999, que a dupla também dá literalmente palco à nova música portuguesa, ao vivo e, por vezes, em directo na RUC.
O Festival
Está neste momento a decorrer e vai na 26ª edição. O Festival Santos da Casa segue a curadoria da emissão. «Passamos os monstros sagrados da música nacional, mas damos muito mais destaque a projectos novos ou emergentes», explica Fausto. Embora o programa já transborde para palcos fora de Coimbra – este ano, inclui concertos em Cadima e no Porto -, Fausto nota: «uma das premissas que temos no festival é que mais de metade dos artistas que apresentamos em Coimbra estejam a tocar pela primeira vez na cidade».

Ávila garante que figurar num cartaz ou alinhamento do Santos da Casa é proveitoso para projectos estreantes. «Tivemos muitos músicos cujas primeiras entrevistas que deram foram nesta rádio e que vieram de propósito da Coimbra porque queriam ser entrevistados no Santos da Casa.» O registo também assenta no primor cuidadoso dos locutores em listar esses convidados e alinhamentos em plataformas digitais como a página online do programa, activo desde 2003: «Muitas vezes, as pessoas procuram por uma determinada banda portuguesa na internet e o que é que aparece nos primeiros lugares? É o Santos da Casa, porque passou no programa ou porque metemos no blogue», continua o locutor.
O registo mantém-se igualmente presente – e quiçá mais visível – no Facebook, mas os locutores admitem que a actual pegada digital do programa é algo limitada. «Não somos os melhores exemplos de todas essas novidades tecnológicas e de formatos», confessa um Fausto algo despreocupado. O objectivo do Santos da Casa não é gerar likes, mas criar gostos.
Sobre a resiliência da rádio perante os frequentes prenúncios de morte perante as novas tecnologias e tendências mediáticas, Nuno Ávila declara: «Começámos isto numa altura em que não havia as facilidades que há hoje, com cassetes – porque não havia internet nem nada do género -, e a gente ia descobrindo. E continuamos a descobrir.»
«Muitas vezes, as pessoas procuram por uma determinada banda portuguesa na net e o que é que aparece nos primeiros lugares? É o Santos da Casa, porque passou no programa ou porque metemos no blogue.»
Nuno Ávila, locutor do programa Santos da Casa
A fé na descoberta de novos talentos musicais continua a motivar o alcance que o Santos da Casa, assim como a RUC, visam ter no actual panorama radiofónico: «Continuamos a achar que vale a pena o serviço público, entre aspas, que fazemos, que é o de mostrar que há música portuguesa de qualidade que não tem visibilidade. Metade das bandas com alguma qualidade que existem neste país passam em três ou quatro sítios e nós somos um deles.»
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