Com uma memória que não falha um pormenor, Alexandre Sousa, de 78 anos, chega de Castelo de Vide ao Exploratório de Coimbra para falar do CriarCiencia, o seu projeto em incubação no Fator C’Idade. Conta-nos coisas sobre o Arduino e como quer levar programação e pensamento computacional aos miúdos do secundário, ajudando-os a criar objetos eletrónicos interativos com sensores e dispositivos autónomos.
«Aos seis anos já lia, escrevia e conhecia as operações inclusive divisor com dois algarismos», recorda, levando-nos numa viagem ao Porto da infância e adolescência. Descreve o icónico Café Guarany, na Avenida dos Aliados, com tantos detalhes — o aroma do café, as conversas dos amigos do pai — que parece estarmos lá, sentados à mesa com ele.
Filho único de um engenheiro eletrotécnico com raízes germânicas, Alexandre cresceu entre histórias de centrais elétricas, o trabalho do pai. Educado no silêncio disciplinado — «sem vaidade bacoca», como diz —, destacou-se na Faculdade de Ciências do Porto. Aos 14, já era rádio-amador, falando com o Canadá e Timor. Devorou «Álgebra de Boole», conquistou a IBM — International Business Machines Corporation empresa multinacional americana de tecnologia, e foi chamado para trabalhar em Genebra nos anos 70 — ficou em segundo entre 42 candidatos — e, desde 1988 no LIACC – The Artificial Intelligence and Computer Science Laboratory (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto), trabalhava redes neuronais «quando ninguém sonhava com IA a não ser via programação lógica». Hoje ainda treina maratonas e cita, com frequência, o físico Richard Phillips Feynman: «Escrever ciência é transmitir ideias às novas gerações, senão perdem-se».

Para explicar o CriaCiencia, Alexandre volta algumas casas no tabuleiro de xadrez e conta sobre o Arduíno, como um dos melhores amigos dos enamorados de eletrónica. Esta plataforma eletrónica de código aberto, baseada em hardware e software de fácil utilização, é usada para dar instruções ao microcontrolador da placa através da linguagem de programação própria: «Arduino baseado em software (com suporte em linguagem C++) tem só 29 comandos básicos e mais uns quantos ditos “avançados”», explica, simples. Professores do secundário podem usá-lo para guiar os miúdos dos 9.º aos 12.º anos em projetos reais: partilhando sensores, coisas interativas, «fazendo o que não sabemos fazer, demonstrações, experiências guiadas, investigação — complementa a teoria, dá autonomia através do laboratório das ciências…», diz.
Para ele, ciência não é só «curar doenças ou lançar satélites». É compreender o mundo, honrar o espírito humano — sem virar refém do sucesso prático, apesar dos desafios da IA e da pressão por resultados imediatos.
Coimbra no momento certo
Chegou a Coimbra (profissionalmente), chamado por um projeto gerido pelo Instituto Pedro Nunes (2011/2013), mas foi o Fator C’Idade que se encaixou melhor no seu CriarCiencia. Alexandre quer mais do que ensinar a programar. Sonha reacender a ciência viva nos jovens, à moda das lições de Feynman — em O Significado de Tudo: fazer perguntas inquietas («O que quero mesmo saber? Como sei que não me engano?»), projetos que tocam o real com autonomia para explorar o desconhecido.



«O CriarCiencia não é só aplicações úteis, o projeto quer ajudar os jovens a formular as melhores perguntas porque perguntas ruins limitam a ambição», avisa. E resume: «Não basta pensar, passem à ação. Com a ajuda do Arduino através do CriarCiencia, cada aluno vira criador, cada professor farol.» Ele, aos 78, mostra que nunca é tarde para semear essa chama.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

