Dulce Amaral, que trabalhou 41 anos na administração municipal lidando com presidentes de Câmara, ação social e proteção de menores, reformou-se mas nunca aceitou o repouso: insiste que «descansar é morrer» e que precisa de mãos ocupadas, sempre a produzir ou a pensar no próximo passo – «se não, entro em depressão, uma tristeza» –, o que a levou a converter o andar de cima da própria moradia num alojamento para partilhar a tranquilidade que construiu à beira-rio.

A River House ocupa um lugar onde sempre viveu com a família, numa rua muito tranquila, no limite da Rebordosa, com vista aberta para o Mondego. Depois da morte do ex-marido, com quem partilhou a casa durante anos em andares separados, o espaço tornou-se grande demais para uma só pessoa e a ideia de «turismo rural com vista para o rio» ganhou forma, alimentada pelos comentários de turistas que passavam e perguntavam se não haveria quartos para alugar naquela casa de localização tão especial – «ah, que maravilha», diziam ao ver a vista. Hoje, está quase pronta para receber quem chega em busca de sossego, luz, água e espaço para respirar fora das caixas da cidade.
Mais do que um alojamento, descreve-a como uma casa inteira para viver «como se fosse sua», durante um fim de semana, uma quinzena ou um mês inteiro – «para cozinhar, para ver televisão à noite, para fazer o meu churrasco». Em vez de quartos soltos, oferece um lar temporário com cozinha equipada, sala com lareira, quartos amplos, acesso a um jardim, horta, churrasqueira, baloiço das netas e espaço suficiente para crianças correrem em segurança, com portões elétricos e quintais vedados. Famílias com filhos, casais em segunda lua-de-mel, pessoas que precisam de isolamento para terminar uma dissertação ou de sossego para trabalhar à distância encontram ali internet, secretária, varanda com vista para o rio, uma rede para ouvir os ranchos e a possibilidade de colher uma alface diretamente da horta da proprietária.
Vida inteira de trabalho em cada detalhe
A maturidade com que prepara o negócio assenta numa biografia de trabalho contínuo: entrou na Câmara de Penacova aos vinte anos, fez carreira na área administrativa, completou um curso de formação autárquica que incluía Direito Administrativo, Fiscal, História, línguas e contabilidade, e passou as últimas décadas de serviço ligada à ação social, à área escolar e à proteção de menores. Pelo caminho, acompanhou vários presidentes de Câmara, viveu por dentro a transformação de um concelho pobre, sem creches nem respostas para a infância, ajudou com a mulher de um autarca da época a criar a primeira pré-primária em Penacova numa casa de crianças desprotegidas e aprendeu de perto como as políticas públicas podem aliviar ou agravar desigualdades. Fora do horário, ainda vendia têxteis porta a porta, complemento de rendimento que lhe permitiu viajar e que geria ao mesmo tempo que levava o filho às piscinas e ao ténis em Coimbra e a filha às aulas de ballet no bairro Norton de Matos, enquanto ainda cuidava da casa.





A infância em Penacova foi marcada pela fome e pela dureza de um Portugal pobre: «Meus colegas de escola pediam as cascas da minha banana do lanche para raspar com os dedos e eu trocava a carne estufada que a minha mãe fazia para o almoço pela broa frita, para dar aos que só levavam isso», lembra emocionada. Dos avós lavradores, Eugénio e Helena, herdou a ideia de dignidade no trabalho: em casa, os empregados sentavam-se à mesma mesa e eram servidos primeiro, e havia sempre sopa e uma manta para quem batia à porta em busca de um lugar seco onde dormir. Essas experiências, somadas à memória de um país sem vacinas, sem médicos e dividido entre poucos ricos e muitos pobres, explicam a irritação quando ouve «antigamente é que era bom» – «não havia respeito, havia medo» – e o valor que dá hoje ao acesso generalizado à saúde, à educação e às tecnologias que aproximam o filho no Bahrein e as netas que se espantam com a sua máquina de escrever.
Energia sénior e um impulso certo
A decisão de avançar com o alojamento local ganhou corpo ao integrar o Fator C’Idade, onde encontrou o impulso certo para transformar a casa em projeto e pôr datas naquilo que até então era sobretudo um sonho. Para ela, os seus 70 «são os antigos 50» e recusa a ideia de que a reforma é um ponto final, lembrando que, para quem se aposenta hoje, podem faltar ainda 25 ou 30 anos de vida ativa, tempo demais para «não fazer nada». Na River House, canaliza essa longevidade para um acolhimento que valoriza escuta, conversa e partilha de histórias, fazendo do alojamento um lugar de descanso, mas também de transmissão de conhecimento intergeracional – das memórias da televisão a preto e branco às explicações sobre como se montava uma vida inteira com poucos recursos.
Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

