Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição do ar ambiente é responsável por cerca de 4,2 milhões de mortes por ano. Falamos de acidentes vasculares cerebrais, doenças cardíacas, cancro de pulmão, doenças respiratórias agudas e crónicas causadas pela má qualidade do ar que respiramos. A poluição atmosférica resulta da energia que utilizamos para cozinhar e no aquecimento das casas, dos veículos a combustão, das actividades agrícolas, de incineração de resíduos e indústria.
Parecem ser boas notícias sabermos que Portugal está nos dez países que apresentam melhor qualidade do ar, entre os 41 países presentes no relatório da Agência Europeia do Ambiente, mas continuamos a falar da morte de 6 000 portugueses todos os anos.
Foi com base nestes dados que, em 2017, António Alves e Gonçalo Quadros pensaram na importância de existir um projecto comunitário que permitisse o optimizar o envolvimento dos cidadãos e fornecer um instrumento de apoio nas políticas de planeamento urbano e no processo de tomada de decisão. Nesse ano, a rede da Internet das Coisas (rede IoT) estava a dar os primeiros passos em Coimbra, no sentido de se criar na cidade uma rede descentralizada, aberta e colaborativa, gerida pelos seus cidadãos, empresas locais e instituições.
Conversámos com António sobre o projecto Urban Air, um dos projectos cool que acolhemos na Coimbra Coolectiva e que vamos acompanhar e divulgar. O Urban Air é uma iniciativa local, de um conjunto de voluntários, que pretende monitorizar a qualidade do ar e ruído em Coimbra.
«É importante dar ferramentas ao cidadão comum de modo a que ele possa influenciar o ecossistema de gestão da sua cidade para bem de todos. Estamos a falar em Cidade Cidadã, Smart Citizen City, etc..»
António Alves, Urban Air
O Urban Air, integrado na rede IoT, vai permitir que todos possamos consultar um mapa de alta resolução da qualidade de ar e também do ruído (ao nível da rua) e ver dados relativos à nossa rua ou à nossa zona. Por outro lado, este projecto também vai disponibilizar gratuitamente estes dados a terceiros através de um API (um interface de programação). «A ideia desta Open Data API é que que possa promover a inovação e a economia. Se os dados estiverem acessíveis a outros programadores e startups, podemos assistir à criação de novos serviços.»
A equipa de desenvolvimento do Urban Air conta com um conjunto de pessoas com diferentes competências. «Um dos grandes impulsionadores do projecto é o Álvaro Lopes, que imprime uma grande velocidade do ponto de vista do desenvolvimento do produto, do desenho do hardware, é a sua área e encontra neste projecto a sua motivação. Mas todos os membros da equipa contribuem com as suas capacidades, com o seu tempo.»

Dispositivo de medição da qualidade do ar
Quando o Urban Air arrancou, era necessário desenvolver um dispositivo que fizesse esta medição do índice de qualidade do ar e do ruído, mas a equipa constatou que não existia no mercado nenhuma solução tecnológica adequada à dimensão comunitária desta iniciativa. Na altura, os sensores eram caros, exigiam manutenção e tinham um consumo elevado de energia.
«Há cerca de um ano, em 2020, surgiram novos produtos que davam resposta às dificuldades encontradas: sensores digitais que avaliam a qualidade do ar com base em gases, são minúsculos, têm um custo baixo, consomem pouco e não precisam de manutenção. Agora conseguimos construir um dispositivo com sensores que permite obter a qualidade do ar e pode estar dois ou três anos, no mínimo, sem que a pessoa mude baterias ou faça qualquer tipo de manutenção.»

Medição da qualidade do ar
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) dispõe de uma rede de medição da qualidade do ar (Qualar) que fornece informações em tempo útil, indispensável à gestão de risco de episódios de poluição atmosférica. Coimbra conta com duas estações que se encontram na Rua Fernão de Magalhães e no Instituto Geofísico da Universidade de Coimbra.
António explicou-nos que «esta rede tem equipamentos com sensores que avaliam diversos dados, incluindo partículas. Esta especificidade, da análise de partículas, faz com que as estações de medição tenham componentes electromecânicos que exigem manutenção, são grandes, caros e consomem muito.»
Uma particularidade do Urban Air e que o distingue, comparativamente à Qualar, é que se trata de um projecto comunitário e, pelas características de baixo custo, baixo consumo e de não necessidade de manutenção, vai permitir que Coimbra tenha muitos sensores a funcionar em rede. «Vamos passar a ter uma monitorização de alta resolução da cidade porque sabe-se que a qualidade varia de rua para rua e até de um passeio para o outro. Isso vai dar-nos um resultado completamente diferente e que permite outras conquistas que seriam impensáveis com base em sensores que estão apenas em dois sítios.
«O cidadão comum precisa de saber qual a qualidade do ar da rua onde está, do sítio onde habita. Pode exigir do município, pode contribuir neste projecto.»
Como podem os cidadãos contribuir para o Urban Air?
O objectivo é desenvolver um projecto-piloto onde a comunidade vai poder participar. «Vamos pedir contribuição dos cidadãos. Vamos abrir inscrições para que as pessoas se possam candidatar a participar no teste inicial, em que basicamente oferecemos ou disponibilizamos os equipamentos e as pessoas instalam-nas nas suas varandas, nos seus terraços. Depois, na fase seguinte e dependendo de um eventual financiamento, o objectivo é avançar no sentido de haver uma disponibilização dos dispositivos gratuitamente ou por um valor simbólico, uma forma de cada cidadão dar o seu contributo. A partir desse momento, as pessoas com os dispositivos estão a contribuir e a fornecer dados que vão ser disponibilizados.»
Próximos passos
A equipa Urban Air está confiante de que, até ao final do ano de 2022, será possível ter o protótipo do dispositivo para o desenvolvimento do primeiro projecto-piloto. «Isto claramente depende do voluntariado e de algo que é transversal a toda a indústria electrónica, que é a escassez de componentes e problemas na cadeia de distribuição.»
O projecto, pensado e criado em Coimbra, tem uma ambição clara que é de partir para o mundo, disponibilizando-se o dispositivo e a plataforma noutros locais, em Portugal e noutros países.
