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Com o Next Lab, Sofia Pereira quer repensar a reforma para os seniores de Coimbra

Transformou a exaustão pessoal em solução coletiva: após quase duas décadas ao serviço de uma organização de Economia Social, Sofia lançou-se nos seus projetos e agora, incubada no Fator C’Idade, desenvolve o Next Lab — um programa de transição de ciclo de vida profissional.

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Fotografia: Vilma Reis

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Sofia Pereira quer que as organizações de Coimbra cuidem melhor das suas pessoas séniores — e o Next Lab, atualmente incubado no Fator C’Idade, é a sua resposta: um programa de transição de ciclo de vida profissional, com base científica, pretende ser um espaço de transição e (re)descoberta, onde cada pessoa é convidada a planear o seu futuro com consciência e intenção, transformando o momento da reforma num tempo de continuidade, utilidade e sentido, e contribuindo para uma sociedade mais humana, consciente e sustentável.

Next Lab: maturidade organizacional e pessoal

«Preparar a reforma não é luxo — é maturidade organizacional e pessoal», sublinha Sofia. O projeto parte da ideia de que cuidar do fim de carreira precisa ser uma decisão estratégica, não um improviso de última hora. Trabalha em módulos híbridos, espaçados ao longo de dois meses, focados em identidade pessoal, relações familiares, literacia financeira, saúde física e mental, com mentorias adaptadas por escalão etário — 50-60 para planear, 60-67 para operacionalizar — e tem já um piloto previsto para janeiro em Coimbra.

Da exaustão à ação: uma história pessoal

Licenciada em Serviço Social e mestre em Gerontologia, Sofia passou quase duas décadas a trabalhar com demências e equipas exaustas em instituições de economia social (IPSS — Instituições Particulares de Solidariedade Social). Em Aveiro, entre turnos pesados e longas deslocações, observava níveis baixos de motivação, absentismo prolongado e rotatividade, com impacto direto na qualidade dos cuidados. Foi também ali que começou a estudar a satisfação com a vida associada à prestação de cuidados — formais e informais — e a perceber que a falta de tempo para a esfera pessoal era um dos principais fatores de insatisfação.

A primeira tomada de consciência da distância (real) aconteceu no momento em que o filho Lourenço, com cerca de 4 anos, partiu o queixo no colégio em Coimbra: enquanto Sofia fazia a viagem pela autoestrada até Coimbra, depois de ser avisada, ele entrou e saiu do hospital já suturado. Outras tomadas de consciência se seguiram, algumas duras, e a decisão de pedir uma licença sem vencimento foi um passo muito importante, apoiado pelo marido e por uma convicção íntima que ela chama de «Deuscidências». Nove meses depois nascia o Sowise Time Lab – Laboratório de Inovação em Sustentabilidade Humana.

Do SoWise ao Next Lab

Instalada na Casa da Esquina, lançou o SoWise Time Lab, o seu primeiro projeto, centrado na «satisfação com a vida» como preditor de produtividade: quanto mais satisfeitas as pessoas se sentem com a vida, mais capazes são de se envolver e produzir de forma sustentável. Começou com sessões individuais e rapidamente passou a trabalhar com empresas (num modelo B2B — de empresa para empresa), a dinamizar mentorias mensais e a firmar parcerias com várias organizações. Neste momento, com o protocolo com o Centro de Formação da Fundação Bissaya Barreto, a formação é certificada e, em parceria, irão avançar com um Programa de Capacitação em Sustentabilidade Humana nas Organizações de Economia Social. O foco era claro: introduzir uma cultura de respeito pelos ritmos e limites, alinhando bem-estar e desempenho.

A partir desse trabalho, o Next Lab surge como extensão lógica: se o tempo e o bem-estar são centrais na vida ativa, também o devem ser na reforma. O programa pega na experiência acumulada com equipas e lideranças e direciona-a para um grupo etário específico, que muitas vezes é convidado a «sair de cena» sem acompanhamento emocional, social ou identitário à altura da mudança que vive.

Mulher de projetos, coerente com o que prega

Para lá do Next Lab e do SoWise, Sofia multiplica-se noutras frentes: criou a Academia Pais Sem Pressa, coordena em Coimbra o Pedalar Sem Idade — projeto que já levou centenas de pessoas idosas a passear de bicicleta pela cidade — e mantém atividade regular de voluntariado. Fala sem rodeios da solidão de empreender («quando a reunião online desliga, tu estás sozinha, és marketing, finanças, contabilidade, és tudo»), mas não abdica da ideia de que vale a pena construir espaços onde trabalho e vida sejam menos inconciliáveis.

No fundo, a sua própria trajetória é o melhor cartão de visita do Next Lab. Depois de ter reconfigurado a carreira para estar mais perto da família, Sofia continua a preparar o seu «próximo laboratório»: pensar a reforma como uma fase que pede preparação emocional, redes de suporte e novos propósitos. O nome do projeto não é acaso: Next Lab não é sobre um fim, é sobre o que vem a seguir — o próximo ensaio, a próxima versão de si, a próxima forma de estar na cidade. Na vida dela, cada etapa tem sido um recomeço mais intenso do que o anterior; o desafio agora é ajudar outras pessoas a fazer esse percurso com menos medo e mais tempo para o que realmente importa.

Fator C’Idade é um projeto do Instituto Pedro Nunes, da Fundação Bissaya Barreto e da Coimbra Coolectiva. São investidores sociais do projeto a Câmara Municipal de Coimbra, a Climacer, a Black Monster Media e a GEHC – Global Elderly Health Care. A operação Fator C’Idade – Empreendedorismo Sénior e de Impacto em Coimbra é apoiada pelo Portugal Inovação Social, pelo Centro 2030, pelo Portugal 2030 e pela União Europeia. Os Fundos Europeus Mais Próximos de Si.

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