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Coimbra ucraniana

Como a fotografia e as aulas de português fizeram Yuliia Burova «nascer de novo»

A dias de se assinalar o Dia Mundial do Refugiado, a 20 de junho, partilhamos a história de Yuliia Burova. Há dois anos, chegava a Coimbra com a filha de quatro anos, depois de semanas a conduzir sem parar para fugir da guerra na Ucrânia. Hoje tira «retratos psicológicos» a portugueses e ucranianos, e procura encaixar novos hábitos – como molhar os pés no mar da Figueira da Foz no dia de Ano Novo.

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Fotografia: Diogo Fernandes

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Coimbra ucraniana

Yuliia Burova e a filha, Kristina, passaram a vida inteira na região de Kherson, no sul da Ucrânia. A 24 de fevereiro de 2022, como todos os ucranianos, acordaram com explosões, o início da guerra e uma grande questão: entrar no carro e juntar-se ao enorme fluxo de pessoas que tentavam sair dos territórios ocupados, atravessando os bombardeamentos; ou encontrar abrigo numa cave, o mais subterrânea possível, e fazer todos os possíveis para sobreviverem? Escolheram ficar. Mas por pouco tempo – aproveitaram uma abertura nos postos de controlo para saírem e despediram-se da família como se fosse para sempre.

«É momento muito doloroso de lembrar», desabafa Yuliia, sentada numa das esplanadas da Baixa, dois anos depois de ter deixado a Ucrânia. Até então, Portugal era um destino que aparecia nos planos que ia fazendo com os amigos para uma viagem de carro pela Europa. «Como se costuma dizer: temos de ter cuidado com o que pedimos porque os sonhos podem realizar-se», diz. Yuliia, Kristina e outra familiar, com um contacto em Portugal, vieram de carro.

Yuliia Burova (à direita)

Com pouquíssima experiência ao volante, Yuliia conduziu cinco mil quilómetros, durante duas semanas, ultrapassando as febres de 40 graus da filha de quatro anos e os fortes sintomas de COVID-19. Não viu nada além das marcações na estrada.

Aulas de português foram passaporte para integração

«O primeiro sentimento» quando chegou a Portugal «foi o de segurança». «É como estar no fim do mundo e nascer de novo. Respiramos ar puro, há paz ao nosso redor, nada nos ameaça», descreve. Era também assim que Yuliia acordava na Ucrânia, antes da invasão: «A última coisa que sabíamos era que havia um céu tranquilo acima das nossas cabeças. Nada voava. Não havia necessidade de nos escondermos em abrigos».

Yuliia e a filha foram acolhidas por uma família de Coimbra, enquanto tratavam da documentação para obterem residência em Portugal. A primeira dificuldade na cidade de acolhimento foi encontrar uma casa para morar – as rendas mais baixas e a proximidade ao mar acabaram por levar mãe e filha até à Figueira da Foz, onde ainda vivem.  

A «barreira da língua» foi também «muito stressante» pelo «medo de não ser bem compreendida ou de ofender alguém». «Assim que chegámos, soube logo que precisávamos de estudar a cultura, tradições e a forma de pensar dos portugueses. Deus é um, mas as pessoas têm hábitos diferentes», diz. Cristã ortodoxa, Yuliia tenta encontrar «um paralelo» nas celebrações tradicionais portuguesas, como o Dia de Reis.

A casa, na Figueira da Foz, «está repleta de livros portugueses», assiste-se a filmes e desenhos animados em português e abre-se espaço a novos costumes, como molhar os pés na água do mar no primeiro dia do ano. «Não nascemos cá. É claro que pensamos na nossa língua, na nossa cultura e nas nossas tradições, nos nossos feriados. Mas não nos queremos isolar. Não é essa a resposta», defende.

A marcar um antes e depois na adaptação a Portugal está um curso de português para ucranianos, organizado pela comunidade na Figueira da Foz, com o apoio de portugueses, e que a ajudou a se «recompor peça por peça». Yuliia conheceu muitos conterrâneos na formação, sentiu-se «calorosamente» acolhida, viu que «não estava sozinha» e conseguiu apoio para se lançar como fotógrafa.

Retratos que acertam «em cheio»

Yullia é formada em psicologia, passou por várias profissões, mas, assim que a guerra começou, a fotografia impôs-se como «a principal esperança». Os registos que fez da ocupação de Khserson foram, no entanto, apagados antes de sair da região, para aumentar as probabilidades de passar os postos de controlo sem ficar com máquina danificada ou apreendida.

Antes da invasão, Yuliia planeava abrir um estúdio de fotografia, dando razão a uma amiga que «sempre disse que tinha um olhar muito fixe e pedia para ser fotografada». Yuliia interessava-se por arquitetura; não queria fotografar pessoas. Hoje, faz «retratos psicológicos». «Vejo qual a imagem, o local e estilo que podem ser mais adequados a uma pessoa.  Muitas vezes, acerto em cheio. Há clientes que não se imaginam nada num determinado papel e acabam por me dizer que lhes revelei um lado que desconheciam», conta.

Na Figueira da Foz, os primeiros clientes foram ucranianos, mas o trabalho já conquistou também portugueses e expandiu-se a outras cidades, como Coimbra, Leiria, Aveiro e Porto. Yuliia dedica a maior parte do tempo a fotografar casamentos, aniversários e nascimentos de crianças – frequentemente, com a mesma família.

A profissão de fotógrafo, diz, «é muito criativa e consome muita energia». Pela experiência que viveu, «nem sempre» está naquele «estado de felicidade», que permite «criar lindamente, com o coração». Há vezes em que «desiste», mas são mais as alturas em que procura uma «atitude positiva», até porque precisa de garantir sustento para ela e para a filha. «A rotina foi provavelmente o que nos salvou. Um café numa chávena parecida com uma da Ucrânia. São essas pequenas coisas que me dão a sensação de que a vida continua», partilha.

A paisagem à volta é também feita de pequenos lugares que remetem para a Ucrânia, como o «pedacinho» na «Figueira» ou a «floresta de Leiria que «lembram Kherson». Sem planos para o regresso ao país natal, conjuga os verbos no presente: «Precisamos de viver no momento, aqui e agora. Não sabemos o que vai acontecer amanhã. Quero deixar uma boa marca em Portugal», remata.

*Auto-retrato de Yuliia Burova

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