Uma freguesia ou uma técnica? Almalaguês, distante 12 km do centro de Coimbra, possui no termo resposta positiva a ambas as questões. É a técnica da tecelagem com este nome que coloca a maior freguesia do concelho no mapa do artesanato em Portugal. Com uma população de 2 853 habitantes, dos quais pouco mais de 53,73% são mulheres, segundo o último Censos de 2021, a freguesia de Almalaguês dá nome também a uma técnica de tecelagem que remonta ao século XIII, ligada à formação do território pela chegada dos moçárabes durante o século XI.

Na grande curva de tempo de dez séculos até a contemporaneidade, a máquina transformou as antigas práticas têxteis e inseriu novos modos de fazer. Entretanto, o fio que tece a história também já nos diz ser no acúmulo e na diversificação de saberes, e não na mera substituição de uns pelos outros, onde reside uma perspectiva possível para a coexistência equilibrada de diversas comunidades.
Em pleno século XXI, a solução para criar meios de manter essa tradição em pé vem da Associação Herança do Passado. Foi idealizada e organizada pela Maria Emília Pereira, em 2008, altura em que a professora viu no edifício em estado devoluto da escola da aldeia de Anaguéis o espaço ideal para reunir as antigas tecedeiras do local e reacender nessas mulheres, já há tempos distantes dos sons dos teares, os saberes que praticavam em outros momentos.
Artesanato e envelhecimento saudável
Como todo o artesanato, o das tecedeiras de Almalaguês é transmitido de forma intergeracional ou, em alguns dos casos, pela aprendizagem com um mestre. Podem conhecer três breves histórias em cima, no separador azul. O saber fazer está ligado inteiramente às mulheres, de modo a serem as próprias artesãs o centro de todo um processo que resulta em soluções mínimas do ponto de vista económico, mas máximas se pousarmos os olhos no fator humano e social.
Dinamizar a tecelagem significa também inserir as artesãs numa vida socialmente mais ativa – o que é, sem dúvida, uma multiplicação de pontos positivos, conforme explica Natália Felipe, costureira associada à Herança do Passado: «Nós temos refletido muito aqui sobre a importância não só da associação, mas principalmente dos cursos e projetos em que participamos, pois são uma forma de socializar, de estarmos envolvidas na transformação do tecido em imensas coisas como chinelos, casacos, mochilas, alpercatas. No nosso dia a dia, isso ajuda-nos a estarmos melhor, principalmente do ponto de vida da saúde mental».
Maria Emília destaca a importância dos intercâmbios entre as tecedeiras e as comunidades por onde passam levando teares e dezenas de produtos para exposição e venda, entre eles mochilas, casacos, sapatilhas, as já famosas bonecas Marias Tecedeiras, colchas, entre outros. Para ela, é visível o contentamento das tecedeiras envolvidas em todos os processos de trabalho, seja porque «dinamiza a venda dos produtos gerando uma fonte de rendimento», seja porque permite uma troca direta entre as tecedeiras e distintas comunidades. A associação já participou em feiras de artesanato, exposições e workshops em Almalaguês, Coimbra, Figueira da Foz, Eiras, Mealhada, Matosinhos, entre outras localidades.
Também para Isabel Margarida Isidoro Martins, professora e associada cuja memória afetiva familiar está ligada diretamente às tecedeiras, os intercâmbios dessa natureza «abrem os horizontes das tecedeiras, pensam melhor de frente, começam a usar as tecnologias para partilhar as fotografias elas próprias. Fazem uma reinvenção ao nível familiar e acabam por assumir um papel muito importante na sociedade».
O artesanato entre a autonomia e o desafio
Na União Europeia, cada país possui definições próprias a respeito do que é artesanato. Em Portugal, o conceito de artesão e artesanato tem sua instituição legal apenas em 1980 com a Portaria nº 1099/80. Já em 1997, a ONU aponta, no Annual Report on the Activities of the International Trade Centre, novas orientações para a promoção do artesanato em todo o mundo. Dentre as definições e as orientações, ficam claros dois pontos. O primeiro deles se trata da natureza do «artesão» como aquele que trabalha de forma isolada, em unidades familiares ou em associações. O sentido estético e a habilidade manual também são dois critérios apresentados. O segundo ponto é o artesanato estar ligado ao próprio artesão, portanto ao caráter mais humano e menos económico do ofício, e à sua participação em todas as fases do processo produtivo. Isto significa que a autonomia é um dos fatores fundamentais para o conceito de artesanato.

Passados 15 anos de associação, pode-se fazer um balanço entre os avanços e os desafios presentes. Por um lado, o artesanato praticado ali já mostrou ser capaz de conectar saberes muito antigos às demandas da contemporaneidade. Um exemplo disso são os cursos de formação realizados em parceria com o CEARTE – Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património. Por outro lado, a ausência de um empenho empreendedor no fomento a esse tipo de associação e atividade ainda é um desafio para uma maior dinamização, expansão e divulgação da tecelagem de Almalaguês. Um passo nesse sentido, com o esforço dos órgãos públicos e privados, pode possibilitar o desenvolvimento do artesanato e da comunidade e do território onde ele está inserido.
Aqui o principal, entretanto, é ressaltar que, embora a Tecelagem de Almalaguês não tenha uma importância económica significativa, a Herança do Passado contempla o princípio geral da atividade artesanal: a gestão autónoma e a participação das artesãs em todo o processo produtivo, da formação à venda. Salvaguarda, assim, um saber ligado à história de uma comunidade e atribui novos sentidos à memória particular de cada uma das tecedeiras.
Quem tece um ponto…
Actualmente, as tecedeiras participam no curso de formação em cerâmica em parceria com o CEARTE. O intuito do curso, segundo a formadora Maria do Rosário Pereira, é proporcionar a ligação dos fios com peças de cerâmica específicas dando outra utilidade para ambos os materiais. Para a formadora, este tipo de curso atinge dois propósitos importantes. Em primeiro lugar, atribui novo valor simbólico ao produto têxtil ao adicionar, por exemplo, fechos feitos em cerâmica – resultado de um artesanato distinto do da tecelagem. As peças tornam-se mais interessantes, esteticamente distintas das comerciais, e ainda atribui outras utilidades para o tecido e para o barro.
O segundo propósito, menos direto e mais complementar, é a dimensão terapêutica que o manuseio da cerâmica proporciona aos participantes. De acordo com Luís Rocha, diretor do Cearte, vem dessa relação entre a Associação Herança do Passado e o Centro o surgimento de produtos diferenciados que em muito contribuíram para dinamizar a cadeia produtiva das tecedeiras como, por exemplo, a criação das linhas de alpercatas, sapatos e mochilas.
«A partir do domínio das técnicas que elas têm de costura, bordados e tecelagem, percebemos a capacidade de criar produtos para além das tradicionais toalhas e colchas e criar, portanto, produtos que o mercado procura mais. No fundo, as formações oferecidas pelo CEARTE em parceria com as tecedeiras buscam incentivar a inovação».

















