As marchas populares não são de Coimbra, mas a tradição que começou por ser uma campanha publicitária do Parque Mayer depois usada como propaganda de Salazar durante o Estado Novo, nos anos 80 saiu de Lisboa, espalhou-se um pouco por todo o país e parece ter vindo para ficar. Centenas de pessoas juntam-se por esta altura na Baixa da cidade para ver desfilar diversos grupos do concelho, da mais antiga, que é a Marcha Popular Cegonheira – Antanhol até às infantis e mais recentes, de associações locais. As letras, trajes e enfeites abordam temáticas ligadas à terra, como as colheitas, as festas populares e até profissões, mas João Santos Costa nota que a tendência é serem cada vez mais abstractos como o amor, o namoro, a amizade e o orgulho e sentimento de pertença à freguesia e mesmo à cidade.
«Essa ligação é muito bonita», observa o historiador que explica que, antes das marchas populares, no resto do país só havia ranchos e com três tipos de música: a marcha, a balada e o fado. O primeiríssimo em Coimbra foi o Rancho Flor da Mocidade, fundado em 1900, que actuava no Pátio da Inquisição para celebrar o São João. José das Neves Elyseu foi o autor de várias canções do colectivo que ainda hoje podem ser ouvidas na sua versão original.
Marchas populares de Coimbra
Há sete anos que Carlos Ribeiro não falha uma noite. Com uma mão no grelhador e os olhos nas dezenas de pessoas, entre habitantes e turistas, que se começam a juntar na Rua da Sofia para ver passar os desfiles das diferentes freguesias, o voluntário explica que gosta de ver a cidade assim, animada e «com gente de todos os lados». Sustenta que é como a sardinha: «quanto mais sal levar, melhor ela fica». Ele mora em Vilarinho, Eiras, mas Fátima Costa, que espera sentada pela iguaria típica das festividades. É do Norte, nota-se pelo sotaque, mas vive em São Martinho do Bispo e não tem dúvidas de que as marchas e restantes comemorações dos santos populares «animam a cidade». Pela música, pelas roupas, por tudo.
Dina Almeida concorda. Veio de Torre de Vilela para ver uma amiga a desfilar e acompanhada por um rosto bem conhecido da cidade – José Raul, o Polícia Eléctrico. «Isto dá força à cidade», atira o antigo polícia sinaleiro, reformado há quase duas décadas. Fã de bailaricos, assegura que este tipo de celebração «contribui para o bem da cidade». «É raro ter eventos destes. Tivemos Coldplay e temos a Queima das Fitas para os estudantes, e outros assim», lamenta, antes de tirar mais umas selfies. «Fazem fila para o cumprimentar», comenta Dina.
Encontro e comunidade
Há uma mesa muito animada montada ao improviso pelo Café Sofia do outro lado da rua – para fazer render o peixe. «Costumamos vir todos os anos porque gostamos de tradição», diz Rita Monteiro. Está a jantar com a mãe e algumas amigas porque diz que é da casa e «Junho é um mês de alegria, de sol, de boa disposição». Vivem em São Martinho do Bispo, precisamente a freguesia da marcha que passa enquanto falamos. Manuela partilha o entusiasmo da filha, que defende que «devia haver mais» festas como esta, «durante o ano inteiro» e «tanto de cultura como de desporto, por exemplo».
Na estrada, vai anoitecendo e os grupos começam a destacar-se mais pelo brilho e iluminações dos acessórios. É a segunda vez que Conceição Duque desfila. Confessa que começou porque passou por um momento difícil e estava a precisar de se distrair. «O cantar e o dançar fazem-me viver sem anti-depressivos e sem comprimidos!», atira, antes de voltar para a posição. Depois da Rua da Sofia segue-se a Praça do Comércio, onde centenas de pessoas admiram as vestes e os temas, escritos a preceito para a ocasião. «Sabes onde é São Martinho? Ali do outro lado da ponte!», ouvimos no meio da multidão que se vai reconhecendo.
Licínia Oliveira, de Vieira do Campo, conhece bem a Praça 8 de Maio porque trabalha no Município e gosta de a ver assim animada. «É uma óptima forma de apoiar a cidade que espera que não se perca!». «Esta festa é um encontro das associações sediadas nas diferentes freguesias. Todos os marchantes têm a paixão por Coimbra e, virem dançar na Praça 8 de Maio, em frente à Igreja de Santa Cruz, é um momento mágico! Iniciou-se este hábito há 12 anos e há cada vez mais Marchas interessadas em partilhar esta noite, muito especial», comenta Assunção Ataíde, presidente da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, na página oficial da APBC no Facebook onde se encontram todas as informações e registos foto e videográficos sobre este e outros eventos populares da cidade.
História
Descobrimos um vídeo no arquivo da RTP, registado em 1965, que mostra um desfile da Marcha Popular de Santa Clara, entre outras, com autoridades locais na assistência. Qualquer sensação de austeridade não é pura coincidência. A origem das marchas populares remonta ao Estado Novo. Aconteceu em Lisboa, em 1932, ano em que José Leitão de Barros, então director do jornal Notícias Ilustrado (e também realizador de cinema e promotor cultural) criou um concurso, em resposta a uma encomenda do director do Parque Mayer. A ideia era fazer um espectáculo capaz de mobilizar a atenção dos lisboetas usando os ranchos folclóricos dos bairros antigos da cidade, tendo por base os tradicionais festejos dos santos populares. «Lisboa precisava de uma marca etnográfica», explica João Santos Costa, «para valorizar não só tradições da cidade como da periferia».
Por curiosidade, enquanto em Lisboa se chamavam marchas, no Porto eram as rusgas e o motivo para as tradições são joaninas ou juninas é a celebração do solstício de Verão, que acontece no dia 21 de Junho. Com o tempo, os rituais pagãos, como tantos outros, cristianizaram-se e transformaram-se em festejos dos santos populares: Santo António, São Pedro e São João. Geralmente envolvem fogueiras, danças em quadrilha ou de roda, quadras, cores, balões com pedidos e manjericos que remetem para rituais ancestrais ligados à fertilidade e à vida. As marchas são uma versão estilizada, de acordo com o género da revista à portuguesa, popular nas peças do Parque Mayer.
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