Pensem antes de responder: o que faziam se trabalhassem com pessoas em situação de sem abrigo, pobreza extrema ou refugiados e vos dessem um restaurante para as mãos? Pista: A resposta a esta pergunta já deu a volta a centena e meia de vidas, resultou num modelo de integração laboral distinguido por organizações internacionais e com potencial para ser replicado noutras cidades. Esta história conta-se assim porque a hipótese de abrir uma cantina com pratos económicos (foi esta a ideia que tiveram?) foi afastada e, com ela, os preconceitos por norma associados a quem vive nas ruas. A proposta da associação Crescer, feita «quase numa conversa de café», foi antes desafiar chefs Michelin a apresentar ao público ementas sofisticadas ao lado de uma equipa de funcionários vinda de contextos de grande vulnerabilidade social. «É um restaurante» foi o primeiro espaço da organização a servir uma dieta sem estigmas e abriu o apetite: hoje, são cinco as cozinhas, no centro de Lisboa e em empresas multinacionais, geridas pela associação.
O projecto de empreendedorismo social começou em 2019, a partir de uma sugestão da Câmara Municipal de Lisboa para a Crescer reaproveitar um restaurante desocupado e transformá-lo numa cantina para pessoas em situação de sem abrigo, com o argumento de que Américo Nave, director e membro fundador da organização, andava «sempre a refilar por a comida ser distribuída na rua, sem dar dignidade às pessoas». O convite começou por ser recusado, mas a insistência na proposta e a postura de Américo Nave que, «imediata e espontaneamente», respondeu que «punha as pessoas em situação de sem-abrigo a cozinhar para nós, convidava um chef de renome e mostrava que estas pessoas conseguem [fazer um bom trabalho]» abriu caminho a um programa inovador de inclusão laboral.

A história do «É um restaurante», um espaço de casual fine dining, onde se serve «comida de conforto e de partilha, com ambiente e decoração cosmopolitas», e a forma como foi contada pelo fundador na última edição da Geração Coolectiva pode ser lida como um caso prático do modelo de intervenção comunitária da Crescer. A associação faz por contrariar a tendência de «criamos respostas com um estigma atrás e que não são adequadas às pessoas com quem estamos a trabalhar». «Grande parte da sociedade diz que as pessoas estão na rua porque querem, porque têm problemas de saúde mental, problemas aditivos, porque não querem trabalhar, porque querem estar à margem», aponta Américo Nave.
Com passagem por alguns dos melhores restaurantes do mundo (dois, pelo menos, com estrela Michelin) Nuno Bergonse foi o chef convidado para consultor do projecto, e, conta Américo Nave, desconstruiu o estigma numa frase. Disse: «“Em todos os restaurantes em que trabalhei havia pessoas que consumiam”».
Américo Nave é também psicólogo clínico e confirma que «o consumo de substâncias pscicoactivas existe em toda a sociedade» – o que muda é o contexto e a forma como o lemos. «Se tenho pessoas com problemas com álcool é para lidar com a depressão e o stress no trabalho; se tenho artistas que consomem cocaína é porque isso lhes dá liberdade; se é uma situação de sem abrigo, é um bandido. É isto que temos de desconstruir», reforça.
«O estigma leva-nos a criar maus diagnósticos»
Metade das pessoas que terminam a formação nos restaurantes da Crescer, indica Américo Nave, ficam a trabalhar, no ramo ou noutras actividades. Mais: um quarto dos 100 funcionários da associação vieram de uma situação de vulnerabilidade.
O programa de integração é desenvolvido ao longo de diferentes fases, em que os formandos são acompanhados por um gestor de caso que os ajuda a definir um projecto de vida. A primeira etapa é uma formação em competências pessoais, sociais e relacionais, como trabalho em equipa, apresentação e cumprimento de horários. Segue-se a fase de capacitação profissional, com duração de um mês, na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, que antecipa a integração nos restaurantes da associação, onde os formandos ficam entre quatro a seis meses «on the job», com as mãos na massa. Após a inclusão laboral, continuam a ser acompanhados por técnicos, psicólogos e assistentes sociais.
A Crescer abriu os cinco espaços no centro e em zonas privilegiadas de Lisboa, e não em periferias porque «é importante que as pessoas que estão em situação de vulnerabilidade tenham acesso a redes de transportes e serviços para integrarem a comunidade». Além do «É um restaurante», há o café «É uma esplanada», que fica no Chiado; o «É uma mesa», situado no Bairro Padre Cruz, considerado como zona de intervenção prioritária; o «É um almoço», onde a associação gere todo o espaço de restauração da empresa multinacional Algeas; e o «É uma copa», onde a Crescer presta o mesmo serviço à Cofidis.
Há também grandes eventos, como a organização de um almoço do Conselho de Ministros europeu, que decorreu no Centro Cultural de Belém. Américo Nave mostra uma fotografia da equipa com o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. «As pessoas que têm doenças mentais, comportamentos aditivos, não querem trabalhar, nem querem sair da rua estão a participar e em palco. Isto mostra que não são as pessoas que estão desadaptadas; as respostas é que, muitas vezes, não estão adaptadas às necessidades das pessoas», comenta. E reforça: «O estigma leva-nos a criar maus diagnósticos, que nos levam a más respostas».
A melhor forma de ouvir os destinatários de um projecto, aconselha, é «estar com o outro», «tratar as pessoas como parceiros, ao mesmo nível e não em posições de hierarquia». É esta a postura que «dá mais poder ao que as pessoas dizem».
O programa «É uma casa», também da associação, é outro exemplo em como pensar fora da caixa «vem da simplicidade e do pragmatismo em responder às necessidades do outro». O projecto, criado em 2013 também com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, segue o modelo Housing First: antes de mais, alojar quem está em situação de sem abrigo. Das 160 pessoas que, nos últimos dez anos, receberam uma casa das mãos da Crescer, 90% não voltaram a morar na rua e metade deixou de consumir substâncias aditivas. O projecto, que começou com sete casas no bairro da Mouraria, estende-se hoje a toda a cidade de Lisboa. «Às vezes, ainda fico espantado com isto: é inovador darmos habitação a pessoas em situação de sem-abrigo. Não devia ser inovador», conclui.







