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Coimbra já é uma «cidade de 15 minutos»?

Solum 15: «Queremos mostrar às pessoas onde é que está esta cidade de 15 minutos»

O movimento de cidadãos distinguido na Geração Coolectiva quer resgatar a vivência de bairro e combater problemas como o estacionamento abusivo, excesso de tráfego automóvel e lixo, aproximando a Solum de um bom exemplo de urbanismo sustentável.

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Fotografia: Diogo Fernandes

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Coimbra já é uma «cidade de 15 minutos»?

«Estamos a quatro anos de distância do primeiro confinamento e lembramo-nos bem dessa sensação de sentir a primavera», relata-nos Eduardo Mota. O desabafo não enviesa nostalgia pelos anos da pandemia, mas realça um resquício da tranquilidade urbana «em que efetivamente não era preciso ter vidros acústicos nas janelas para nos abstrairmos do trânsito automóvel aqui na zona».

A zona em questão é a Solum, bairro da freguesia de Santo António dos Olivais, cuja expansão residencial desde os meados do século passado é conhecida em toda a cidade. Contudo, Daniela Santos considera que «apesar de estarmos num sítio privilegiado e termos escolas e mercados muito próximos, o espaço urbano não corresponde a essa oferta de serviços e muito menos à escala do peão».

O panorama pedonal ganha realce no manifesto do casal, que se mudou para perto das Galerias Gira Solum em Novembro de 2019. Desde então, contam que testemunharam uma constante mutação na vizinhança e no tráfego e estacionamento automóvel, que atribuem ao aumento dos veículos TVDE e abertura do eixo de trânsito automóvel que atravessa pelo coração da Solum. A via não só divide a Rua Humberto Delgado, como põe em causa a vivência das habitações circundantes. Para o grupo, é uma oportunidade perdida a autarquia não transformar, por exemplo, as quatro vias existentes numa ciclovia, uma faixa-bus ascendente e duas faixas automóveis. «Seria uma altura ideal para implementar ou testar esta solução», diz Mota, «porque não requer grandes obras, pode ser testada e revertida, caso não funcione».

Este é o cerne do Solum 15, um dos projectos que se destacou na 2ª edição da Geração Coolectiva. Inspirados pela reportagem da Coimbra Coolectiva, Eduardo e Daniela juntaram-se aos colegas arquitectos Joana Mendes Correia e Sérgio Salazar, e à jurista Paula Sequeira, e arregaçaram as mangas para aplicar o conceito urbanístico da «cidade dos 15 minutos» na Solum, servindo como eventual bairro-modelo para outras zonas citadinas.

«Queremos mostrar às pessoas onde é que está esta cidade de 15 minutos e quais são os limites. Falamos num diâmetro que vai desde o cruzamento dos Combatentes com a General Humberto Delgado à Circular Externa e desde a rotunda dos Patos à rotunda do Supercor.» Traçada a cinta, o pragmatismo toma o centro. As infraestruturas na área já apontam a Solum como «cidade de 15 minutos», mas o seu uso é usualmente afligido por condutas lamentáveis.

O automóvel está geralmente na origem das atitudes infames, muito pelo excesso de viaturas e velocidade: «a Solum acaba por ser paradoxal, porque é uma zona em que se circula ou muito depressa ou muito devagar», aponta Mota, sublinhando que é crucial para a segurança dos residentes que o bairro seja categorizado como Zona 30 (km de velocidade) e não somente nas horas de ponta escolares.

Bairro Solum, em Coimbra

Igualmente contraditória parece-lhes a aposta do município em soluções de mobilidade sustentável e formas de retirar automóveis das ruas – que até está actualmente a auscultar a população sobre o assunto e a demarcação de novas zonas de estacionamento, quando as mesmos podiam ser um jardim ou um campo de jogos. «Acaba por ser contraproducente», alegam os arquitectos, enumerando vários exemplos recorrentes de estacionamento abusivo.

«As pessoas muitas vezes estacionam em cima do passeio para ir para o Alma Shopping porque nem sabem onde é que é suposto estacionar», nota Santos, e aponta para a rua do João de Deus «que supostamente era pedonal com tráfego condicionado [e actualmente] é apenas mais uma rua de estacionamento». Contenda que se tem vindo a agravar, entravando a mobilidade pedonal e contribuindo para a degradação dos passeios.

O apelo à mobilidade suave do Solum 15 advém de exemplos de cidades como Pontevedra, um dos mais inspiradores da Península Ibérica no que toca à circulação pedestre. Começou a transição com relativa resistência, nos anos 90, mas «à medida que as pessoas foram percebendo as vantagens, a contestação não só se dissipou, como cada bairro, rua e associação de moradores foi lutando para que as suas áreas se tornassem zonas de carácter pedonal», explica Mota.

Apontando também o Passeio do Prado (Madrid) como iniciativa exequível de aplicar na Solum – antecipando a Semana Europeia da Mobilidade de 2024 –, o movimento cívico conta trazer a público memórias, vivências e contactos com outros locais dentro e fora da cidade e do país.

Embora não classifiquem a Solum como zona problemática, os arquitectos apontam desafios a nível de desenho urbano que se tornaram evidentes com as obras do metrobus, como a falta de sombreamento nos passeios, o ruído noturno devido a corridas de veículos, o aumento do lixo urbano, a implementação descuidada de placards e a escassez de esplanadas confortáveis e não concessionadas. O parque infantil, apesar de ser considerado um dos melhores da cidade, é precário na óptica dos quem nos acompanha num passeio pelo bairro. «Os miúdos estão servidos, falta é uma esplanada informal para servir os pais, que não têm de estar a fazer um imenso sacrifício de esperar que eles se cansem de brincar». O encerramento do Atrium Solum, que antecipámos, terá acentuado a lacuna de locais de encontro intergeracional.

Inspirados pelo mote de dinâmica urbana em que as cidades devem ser das pessoas e não dos municípios, o Solum 15 conta recorrer a design gráfico e comunicação para empreender medidas como a divulgação de mapas de «Metro-a-pé» ou a criação de sacos de pão reutilizáveis. Trata-se de disseminar a consciencialização cívica e promover as boas práticas de vizinhança através de «uma guerrilha urbana pela positiva, no sentido de congregar as pessoas importantes, sem afugentar quem consegue viabilizar financeiramente a iniciativa», como explica Mota.

Sem demérito do trabalho dos governantes ou da presença dos visitantes, o arquitecto remata que «têm que ser os moradores, os comerciantes, o próprio espaço público a organizar-se para que as pessoas se sintam tentadas a experimentar mudanças». O movimento não quer erguer barreiras, bem pelo contrário. Visa constituir uma Associação de Moradores e Amigos da Solum, chamando vozes externas a ajudar na sua orientação e, eventualmente, preservar as memórias de vivências anteriores.

Próximos passos

O esforço comunitário não se circunscreve à Solum. Daniela Santos explica que «aquilo que a Geração Coolectiva deu foi tempo e espaço para pensar e aprofundar toda esta reflexão e discussão de ideias». Além dos inputs e esquemas de implementação que cimentaram a resolução, Sérgio Salazar, que hoje em dia até reside em Santa Clara, diz que se tratou de «um momento que obrigou realmente a pensar se aquilo é possível fazer e como pode funcionar, e isso só se consegue absorvendo informação de mais pessoas, para perceber outras facetas e ângulos».

Os projectos vencedores da Geração Coolectiva foram apresentados publicamente no Salão Brazil perante uma casa cheia de participantes, antigos participantes, parceiros e curiosos. O Solum 15, que já tem página oficial no Instagram, garante que a lista de contactos e parceiros tem vindo a crescer desde esse dia e também já entrou pelo menos um novo elemento. Quantos mais melhor. «Estamos a viabilizar os custos e a trabalhar na angariação de fundos, mas logo que consigamos ter uma perspectiva financeira de como viabilizar estas iniciativas, é promover através desses contactos – seja de proximidade, boca a boca, vizinho a vizinho, redes sociais ou email – uma reunião de quem se quer juntar, porque o Solum 15 é algo aberto a todos.»

Um sentimento de vizinhança crucial para a cruzada, que não se limita às ruas e quarteirões que compõem a Solum, mas abarca também os corredores da memória colectiva [vejam o separador em cima com a História da Solum]. «As pessoas que já cá viveram e agora vivem noutro sítio, as pessoas que vivem no bairro, mas que vêm à Solum, todos aqueles com as memórias de brincar na Rua Dona Maria ou na Humberto Delgado, queremos convidá-las a vir retomar o conceito de comunidade dinâmica, de bairrismo, em que os vizinhos são gentis e que se respeitam e que dizem “bom dia” e “boa tarde” e que em vez de estarem na paragem do autocarro cada um enfiado com os seus olhos no telemóvel, conversam com a pessoa do lado.»

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