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Fim ao Fóssil

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VOZES DA MUDANÇA EM COIMBRA: Ocupar pelo Fim ao Fóssil até 2030

Dois jovens ativistas do movimento Fim ao Fóssil, refletem sobre o impacto do coletivo na cidade, suas motivações e ambições.

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Fotografia: Mário Canelas, Rafael Saraiva

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Num dia de sol de inverno, com o Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra (UC) como pano de fundo, Maria Lourenço, estudante de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da UC, e João Marcelino, estudante de Defesa da Floresta na Escola Superior Agrária de Coimbra, refletiram sobre como o ativismo ambientalista mudou as suas vidas, o que os motivou a integrar o movimento Fim ao Fóssil e o impacto que já causaram na cidade.

O surgimento do Fim ao Fóssil em Coimbra

Em 2022, motivados pela estagnação da Greve Climática Estudantil na cidade, decidiram criar um núcleo do Fim ao Fóssil, porque “se a malta não se junta é porque aqui também precisamos radicalizar o sistema e causar impacto”, esclarece João. Os jovens referem que o coletivo estudantil, que integra o movimento internacional End Fossil, também nasceu da “necessidade de mudar a estratégia”, à época muito focada em manifestações da Greve Climática Estudantil. Segundo os jovens, aceitam “qualquer pessoa que queira lutar”, porque o objetivo é juntar o maior número de estudantes em defesa de “uma causa que é mais importante”.

“Percebemos que não estávamos a produzir mudança e que não valia a pena insistir no métodos que estavam a falhar. Se a crise climática escala, também temos de escalar os nossos métodos de ação. Temos de agir consoante esta crise nos exige”. (Maria Lourenço)

A reivindicação principal dá nome ao movimento: a luta pelo fim ao fóssil até 2030. Além disso, ambicionam o fim do uso do gás natural e um sistema público de energias renováveis, pois, “a energia não pode ser vista como mais um negócio, deve ser vista como um bem essencial que é necessário para todas as pessoas”. A nível nacional, ligam-se à luta anti mineração na Serra do Barroso, onde está a ser construída a maior mina de lítio a céu aberto da Europa.

Já a nível local, são contra o encerramento da Estação Nova de Coimbra porque “é inadmissível, no século XXI, fechar uma estação no centro da cidade, quando devíamos investir em ferrovia, e optar pelo Metrobus, cujas baterias são de lítio”, explica Maria. A estudante refere que o término da parceria entre o Santander e a UC é outra reivindicação, pois não percebem como a Universidade “está ativamente a colaborar com um banco que está a financiar a destruição de tudo”.

João e Maria apontam ainda que o Fim ao Fóssil é um movimento composto por “pessoas não-conformistas, empáticas e que têm espírito crítico”, que se interliga com outras lutas, como o feminismo ou o fim do genocídio na Palestina, porque “a justiça social é inerente à justiça climática.

“O IPCC, a ONU e o Copernicus dizem que temos de cortar 50% das nossas emissões até 2030 e isso implica o fim ao fóssil até 2030. As nossas reivindicações são aquelas que a ciência climática nos exige”. (Maria Lourenço)

De que forma impactaram a cidade?

Na Greve Climática Estudantil faziam manifestações e ações de responsabilização individual. Porém, quando se aperceberam que mesmo que todos os portugueses mudassem os seus hábitos não iriam alcançar uma transição climática justa, decidiram ser mais disruptivos e ocupar as escolas em protesto. (Na foto, a marca de mão após o bloqueio do Departamento de Matemática da UC)

Segundo os ativistas, a primeira ação “concreta” foi a ocupação da Faculdade de Economia da UC em maio de 2023 com o intuito de exigir: o fim dos combustíveis fósseis até 2030; 100% de eletricidade renovável, pública e acessível até 2025; o fim de megaprojetos extrativistas que destruam mais o ambiente e comunidades e o financiamento de projetos de eletricidade renovável doméstica e em edifícios públicos.

Além desta ocupação, bloquearam o Departamento de Matemática da UC, fizeram palestras relâmpago nas cantinas, atiraram tinta a um ‘banner’ da UC e pintaram a bandeira da Palestina nas Escadas Monumentais. Fora de Coimbra, realizaram ações em conjunto com o núcleo de Lisboa, entre as quais, a ocupação do Ministério do Ambiente, que causou a detenção de 4 estudantes, e um processo em tribunal por desobediência civil ainda a decorrer.

Quando questionada sobre a reação do público às suas ações, Maria menciona é “muito polarizada”, tanto apoia muito como não concorda de todo. Por sua vez, João aponta que os jovens compreendem melhor do que os mais velhos, que lhes dizem que são “muito disruptivos”.

Embora nunca tenham lidado com violência por parte de civis, Maria e João referem que sofreram violência policial na ação de ocupação do Ministério do Ambiente. “Puxaram-nos pelos pulsos, arrastaram-nos durante lances de escadas, puseram-nos contra a parede e o chão”, relata. Segundo a estudante, na esquadra passaram oito horas algemados com as mãos nas costas, não receberam comida, e demoraram horas a ceder-lhes água e a chamada. Alguns manifestantes dormiram num estabelecimento prisional e apenas as raparigas foram obrigadas a despir a roupa.

O que os motiva a lutar pelo fim da crise climática?

Tanto João como Maria juntaram-se à Greve Climática Estudantil quando tinham 15 anos. Inspirado por Greta Thunberg, João saiu para as ruas de Viseu com um cartaz feito à mão com a ambição de lutar pelo fim da crise climática. Por sua vez, Maria juntou-se porque estava assustada e não sabia o que podia fazer para reverter os efeitos da crise.

“Lutar ou desistir, eu escolhi lutar”. É com base neste lema, e com vontade de manter uma perspetiva de futuro para os próximos, que João se manifesta contra a crise climática. Além destes motivos, Maria sente um dever histórico para com as pessoas do sul global, que “são as mais afetadas pela crise climática que não criaram”, e não se conforma com o colapso da vida como a conhece hoje.

“Depois de quase 30 anos de COP, de acordos que não são cumpridos, de batermos todos os recordes, qualquer pessoa que se depara com a ciência percebe que tem de lutar ativamente para ter um futuro digno”. (Maria Lourenço)

João aponta que no seio do coletivo a política nacional e internacional é discutida frequentemente, algo que não vê a acontecer entre os jovens da sua faixa etária. Já Maria destaca a criatividade necessária para desenhar as ações e pensar em novos modos de atuação. “Não é só atirar tinta, não é só fazer uma ação performativa que vá ser mediática, é pensar e desenhar uma ação de forma a conseguir passar o mais facilmente as nossas reivindicações para as pessoas”, assevera Maria.

Segundo João, o movimento quer continuar a marcar a cidade porque todos os anos entram novos estudantes para as Instituições de Ensino Superior e querem impactá-los para continuarem a luta após finalizarem os estudos. “Vamos continuar a interromper a normalidade, porque não podemos continuar a nossa vida como se não estivéssemos a viver em tempos de crise”, acrescenta Maria.

O que motiva um jovem a ser ativista?

João e Maria acreditam que os jovens juntam-se ao ativismo quando são afetados por questões sociais e começam a ficar assustados, podendo desenvolver ecoansiedade, um medo crónico da destruição ambiental.

“Se tivéssemos um Governo que se preocupasse com verdadeira justiça social, com cumprir os prazos da ciência e com todas as questões com que nos deparamos, não teríamos de estar a fazer isto. Mas como os programas do Governo e dos partidos políticos não são compatíveis com a ciência, vemos a necessidade de fazer ativismo”. (Maria Lourenço)

Por sua vez, João refere que os moldes políticos atuais trazem descontentamento e medo, porque existem pessoas que gostavam de fazer ativismo, mas têm receio de ser atacados.

“A maioria dos jovens não procura fazer ativismo porque está na bolha do dia-a-dia. Aqui em Coimbra, a malta é toda ligada à praxe, à academia e depois acaba por não ter tempo de se juntar à luta”, declara João. Já Maria acha que ninguém faz ativismo porque “é divertido”, fazem porque sentem responsabilidade e ímpeto de lutar pelo futuro.

No entanto, acreditam que existe uma ligação forte entre o Ensino Superior e o ativismo, pois “o ensino é uma arma muito forte, sabemos que pessoas formadas não são facilmente exploradas enganáveis, e por isso é que é tantas vezes negligenciada”.

Quais os impactos positivos do ativismo?

Relativamente ao que ambicionam que seja alcançado, os dois jovens mencionam a redução do consumo de combustível fóssil, a neutralidade carbónica, uma maior acessibilidade aos transportes públicos e o banimento dos jatos privados.

Maria considera que o ativismo a enriqueceu de tantas formas e a mudou tão profundamente que não consegue descrever. “Como sou de uma cidade mais interior, sinto que quando entrei no ativismo comecei a ver um mundo além do meu, a ganhar ferramentas e conhecimento”, reflete João.

Para o estudante, o “bom do ativismo é poder mostrar às pessoas que há mais além de ir votar. Podes sair à rua, reivindicar, dizer ‘eu não estou contente’”. Além disso, acredita que os movimentos são necessários para as pessoas pensarem fora “da bolha da vida quotidiana”. Por sua vez, Maria realça o sentido de comunidade. “Ter um grupo de pessoas que tem as mesmas preocupações que eu ajuda-me a lidar com a inação dos governos e com os culpados”.

“Não te sintas sozinho em qualquer luta que faças. Há sempre alguém como tu, se não for em Portugal, é do outro lado do mundo”. (João Marcelino)

Como mensagem final, Maria quer que as pessoas parem de consentir com “os planos mortíferos” do Governo, e que percebam que “a mudança só vem quando pessoas normais se organizam e lutam”.

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