Não é uma modalidade nova, muito menos em Portugal, mas sofreu um interregno de década e meia. Praticado até 2005 e envolvendo diversas equipas e até uma Selecção Nacional, o Futebol para Cegos está a renascer em Coimbra. Para isto contribuiu o encontro de vontades de muitas pessoas dedicadas, centradas no Sport Clube Conimbricense, um clube desportivo centenário da Baixa da cidade. A pandemia tem abrandado o processo, entre outras contrariedades, num desporto com diversos obstáculos para superar.
Rui Jesus é um nome que surge sempre que se fala do também conhecido como Futebol de 5, em conjunto com termos como «resiliência» e «persistência», como comentou um antigo professor seu com quem falámos. Cego congénito, Rui foi o grande impulsionador do regresso da modalidade, descrevendo esse recomeço: «Em 2019 houve um grupo na ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal) de Coimbra a quem passou pela cabeça começar a jogar futebol». A ACAPO de Coimbra, vê o futebol como «um desporto agressivo e perigoso, que não é, se observarmos as regras».
«O desporto é um refúgio para aquilo que me corre mal na vida»
Eunice Santos

Ainda que a ANDDVIS (Associação Nacional de Desporto para Pessoas com Deficiência Visual) lhes tenha disponibilizado bolas e a IBSA (Federação Internacional de Desporto para Pessoas com Deficiência Visual) lhes tenha enviado vendas e bolas, o desporto parecia não avançar. Rui ficou desmotivado, momentaneamente. Entra em cena Márcio Sousa, com muita experiência como treinador de Futebol de 5 no Brasil, a potência mundial do desporto. A FPF (Federação Portuguesa de Futebol) tinha aberto a candidatura Futebol para Todos, à qual concorreu a ANDDVIS, para relançar o Futebol de 5. Márcio contactou-os para ter parte activa no processo, fez formação na ANDDVIS, conheceu outros cegos e chegou ao contacto com Rui.

Foi a partir deste encontro que aconteceu o primeiro treino de Futebol para Cegos em Coimbra, em Janeiro de 2020. Rui andava à procura de espaços com uma amiga, até que chegaram ao Pavilhão da Palmeira, a casa do Sport Clube Conimbricense. Falaram com os responsáveis do clube, fizeram a proposta e foram acolhidos de braços abertos. Inicialmente, Márcio trabalhava na restauração em Vila Real de Santo António, vinha de autocarro depois do trabalho, coordenava o treino e regressava. Este despontar do desporto tem sido pontilhado por acasos felizes, e dedicações como esta. Márcio é agora treinador do Sport Clube Conimbricense e seleccionador nacional de Futebol para Cegos; Rui é um dos seus maiores embaixadores nas redes sociais.
Zita Alexandre, Directora Técnica do Sport Clube Conimbricense, recebe-nos simpaticamente e mostra como o pavilhão do clube foi adaptado ao desporto, com apoio da ANDDVIS. Quando lhes apresentaram a ideia do Futebol de 5, no final de 2019, «abraçaram entusiasticamente a ideia». Têm cerca de 25 a 30 atletas, alguns de Coimbra, outros vêm de Leiria, de Viseu, alguns até de Mirandela ou de Lisboa. As distâncias encurtam com o entusiasmo e, quando estão juntos, «é uma alegria, a confraternização», diz.
A pandemia acontece entretanto, por isso os treinos presenciais eram episódicos. Márcio conduzia treinos à distância que duravam horas para, como diz Rui, «não pararem e ganharem experiência». Continuavam de todas as formas que podiam, «as pessoas agarram-se a isto com muito amor, amor pela modalidade», conclui. Foi isso que trouxe Eunice Santos até este desporto. Cega adquirida, totalmente desde 2019, conta que aquilo de que mais sentiu falta foi a possibilidade de correr na rua como fazia antes: «o desporto é um refúgio para aquilo que me corre mal na vida». O futebol trata problemas de saúde física e, também, de saúde mental, explica Eunice, observando como a pessoa com insuficiência visual é naturalmente uma pessoa sedentária, e pode ter problemas como obesidade, diabetes, depressão. O desporto trabalha estes problemas.
Este despontar do desporto tem sido pontilhado por acasos felizes, e dedicações como esta. Márcio é agora treinador do Sport Clube Conimbricense e seleccionador nacional de Futebol para Cegos; Rui é um dos seus maiores embaixadores nas redes sociais.

No Pavilhão da Palmeira assistimos ao primeiro treino do ano, onde também participam João Moniz e Jorge Ramos. O apreço pelo desporto e pela convivência são algumas das razões que levam estes e muitos outros atletas da modalidade a querer participar activamente no renascimento do Futebol de 5. João Moniz, dirigente da ANDDVIS e responsável pelas competições internas da modalidade, comenta que há muito trabalho em curso ao nível de instituições, que têm todo o interesse em envolver-se com o Futebol de 5: a FPF, o IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude) e o INR (Instituto Nacional para a Reabilitação). Há também muito trabalho desenvolvido e a desenvolver com escolas de referência. Aponta que há muitas carências que têm que ser abordadas, ao nível logístico e material.
As regras da modalidade

O Futebol de 5 observa as regras da IBSA, que tutela internacionalmente a modalidade. O campo é idêntico ao do futsal, dividido em três partes e delimitado lateralmente por bandas com metro e meio de altura, com características específicas para garantir a segurança dos jogadores. Cada equipa tem cinco jogadores, um guarda-redes com visão total ou parcial e quatro jogadores de campo que usam vendas, para garantir que estão todos ao mesmo nível. A bola tem guizos para que os atletas a localizem e sigam. O jogo tem duas partes, com 25 minutos cada, separadas por um intervalo de 10 minutos. O público permanece em silêncio, apenas se podendo manifestar quando há faltas ou golo.
No terço intermédio do campo, os técnicos orientam os jogadores; no terço defensivo comunicam o guarda-redes, que orienta a defesa, e o guia adversário, que orienta o ataque posicionado atrás da baliza. Por isso, comenta Márcio: «costumo dizer que há três treinadores, eu, o técnico, além do guarda-redes e do guia da baliza». Estes precisam também de perceber da parte táctica, porque, como observa Jorge Ramos: «tem que haver muita rotina. Não sendo constante o guia da baliza, assim como o guarda-redes, temos que começar sempre de novo». Além desta necessidade de regularidade de jogadores normovisuais, essenciais ao Futebol de 5, precisam também de mais árbitros, já que existem actualmente apenas dois capacitados para o desporto.
Objectivos

A direcção actual da ANDDVIS pretende abrir o leque de modalidades além do Goalball e do Showdown, outras modalidades praticadas por pessoas com deficiência visual. Isto passará pelo incremento das actividades relacionadas com o Futebol de 5 contribuindo para que, como Márcio aponta: «o despertar da actividade física nesta população é o mais importante. O mundo é sedentário, o deficiente visual ainda mais». Estes ganharão autonomia, autoestima, objectivos, competição e sociabilização. Márcio Sousa e João Moniz estabelecem como objectivos a criação de uma competição interna, a partir do próximo ano, com equipas em Coimbra, Lisboa, Porto e Braga. A ANDDVIS está já a estabelecer contactos com as ACAPO destas três cidades para viabilizar esta intenção, que se juntariam à equipa do Sport Clube Conimbricense num primeiro campeonato nacional.
Ao nível da Selecção Nacional, há muito trabalho ainda a fazer, ao nível de base, na formação dos atletas e na criação dos clubes, para se lançarem em jornadas internacionais mais exigentes. Há objectivos determinados a médio e longo prazo, como a participação numa competição para países emergentes, a realizar este Junho, na Suécia. Depois, disputar o Campeonato Europeu B, em 2023, garantir a subida para o Europeu A, ficar em primeiro ou segundo lugar e ir aos Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024. «Se não for Paris», remata Márcio, «será Los Angeles, em 2028».

A par deste trabalho, está também a ser desenvolvido o Futebol de 5 feminino, ainda na infância a nível mundial. O Sport Clube tem cerca de 5 jogadoras, seriam necessárias pelo menos 8, além de guias e guarda-redes, para viabilizar o projecto e se tornarem competitivas. Traçam-se como objectivos a participação no primeiro Campeonato Europeu Feminino, a realizar em Julho deste ano, em Itália e o primeiro Campeonato Mundial Feminino, em Novembro deste ano, na Nigéria. Os treinos e o trabalho retomam agora no Sport Clube Conimbricense, nas terceiras semanas de cada mês, brindados por risos e palavras de encorajamento.
