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Descubram

Vitamina Natureza

Leiam

Carlos Neto

Experimentem

Férias da Páscoa

Em São Martinho os mais novos levam uma dose de Vitamina Natureza

Numa altura em que a tendência é as crianças viverem cada vez mais fechadas e focadas no uso de novas tecnologias, há quem trabalhe no sentido contrário. Descobrimos um espaço onde as crianças é que escolhem e têm liberdade para fazerem o que melhor sabem e precisam: brincar.

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Fotografia: Mário Canelas

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Férias da Páscoa

No meio da natureza a imaginação e a criatividade das crianças é que ditam as regras. Um sobe e desce com um tronco de madeira e uma corda, uma pista de pneus, uma estrutura feita com paus para saltos, aqui tudo é pensado para e fabricado pelos mais novos. No Vitamina Natureza, crianças e jovens dos 3 aos 17 anos podem construir, descobrir e brincar no espaço dedicado ou no bosque que fica nas traseiras e «é a maravilha da criatividade», como nos descreve João Morgado, mentor do projecto, com abrigos e tubos que fazem de telefones.

Estamos em São Martinho do Bispo, num terreno cedido pela União de Freguesias. O Vitamina Natureza nasceu há precisamente um ano, em plena pandemia, numa altura em que o animador social equacionou a hipótese de deixar o país. «Estava a ver toda a gente a ir abaixo mas comecei a pensar nas crianças», desabafa. O trabalho prioritário foi a requalificação do terreno: foi preciso desflorestar, construir muretes, fazer chegar luz e água e construir as instalações básicas, como uma cozinha e uma casa de banho. «Foram quatro mãos e duas pessoas. Tivemos, pontualmente, familiares, amigos e pais de algumas crianças a ajudar», recorda João Morgado.

No Verão, chegaram as primeiras crianças para um campo de férias. «O objectivo não é ganhar dinheiro, é libertar crianças na natureza», conta Morgado, lembrando que nos últimos 40 anos as crianças têm cada vez menos tempo para brincar, sobretudo em espaços exteriores. «Nos anos 80, só tinham aulas de manhã; nos 90, passámos a tê-las até às 15h30 na escola e, em 2000, das 8h às 20h, com actividades de tempos livres e actividades extra curriculares», observa. 

Uma realidade que resulta de «uma vida excessivamente urbana», diz Carlos Neto, um dos maiores especialistas mundiais na área da brincadeira, do jogo e da sua importância para as crianças. Para o professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa com obra publicada sobre o tema e embaixador do Vitamina Natureza, brincar é um assunto muito sério. Carlos Neto afirma que o estilo de vida actual acaba por retirar às crianças tempo e espaço para si, para brincarem ou mesmo para se confrontarem e olha para o projecto como uma «bolha no oceano», num momento em que as crianças portuguesas estão «demasiadamente aprisionadas a lógicas de adultos».

A palavra às crianças 

No Vitamina Natureza não há actividades programadas e são as crianças que decidem o o que fazem, com base num sistema de votação. «Não quero voltar aos tempos nem da dinastia nem da tirania e, portanto, quero que as crianças vivam em plenitude da democracia», lança João Morgado. Cada campo de férias começa com a eleição democrática de um presidente e dos seus dois secretários. Num semi-circulo, à semelhança do que acontece na Assembleia da República, os candidatos apresentam-se e dão a conhecer as suas motivações. Ninguém fica de fora e João Morgado conta que há meninos de três anos a fazê-lo. «Estamos assim a trabalhar a auto-estima, o falar em público, a destreza ou a timidez», observa o animador social. 

Diariamente, em assembleia, são as crianças que votam, a partir de um conjunto de sugestões, nas actividades a realizar ao longo do dia. Tudo fica devidamente registado num livro de actas e assim, em jeito de brincadeira, são introduzidos conceitos de cidadania e democracia. «Elas precisam de saber que 26 votos é maioria relativa. Que os outros 25 que não votaram ou se abstiveram vão ter de fazer o que os 26 decidiram», detalha João Morgado. Metodologias democráticas e participativas enaltecidas por Carlos Neto, tendo em conta as actuais pedagogias de ensino e aprendizagem «demasiadamente centradas e baseadas nas lógicas dos adultos e muito pouco participativas». Para o autor de livros como Libertem as Crianças (Contraponto, 2020), as técnicas do Vitamina Natureza são «a verdadeira aprendizagem da cidadania, de aprender a respeitar os outros, a natureza, a conhecerem-se a si próprios ou a regular as emoções».

Com base nestas dinâmicas são os mais novos que acabam por se auto-organizar, cabendo aos adultos o papel de mera tutoria, isentos da função de determinar o que devem, ou não, fazer. Segundo o mentor da Vitamina Natureza, os adultos «estão proibidos de entrar em qualquer dinâmica das crianças, a não ser por convite». «Este tipo de iniciativas pretendem ser um salto para um alto grau de autonomia dos mais novos, fundamental para «prepará-los para serem capazes de viver no futuro», diz Carlos Neto. E o professor acrescenta a necessidade de termos crianças «criativas, com capacidade de adaptação a uma sociedade nova que é desconhecida, imprevisível e incerta». Lá fora, ficam as novas tecnologias, aliás proibidas pelos regulamentos. «Tenho crianças aqui que se não tiverem telemóveis começam a coçar-se mas, ao final de dois dias, conseguimos controlar essa falta», observa João Morgado. 

Do campo de férias a um ATL

Além das actividades durante o período de férias, como as da Páscoa que já têm inscrições abertas, a Vitamina Natureza está a receber crianças semanalmente «numa vertente de apoio à família em animação turística». São três os participantes a frequentar o espaço regularmente neste momento, sem que sejam feitas alterações à força motriz do projecto: «são elas que escolhem o que querem fazer», assegura João Morgado. O salto nas actividades espera-se que seja dado com a entrada em funcionamento do formato Actividades de Tempos Livres (ATL), com capacidade para receber 54 crianças e jovens.

«Não vou conseguir chegar a todas mas se conseguir chegar a 54 acho que posso melhorar as coisas para um nível de bem-estar social», diz o mentor do projecto que está a ser finalizado e espera poder ser apoiado pelos próximos fundos comunitários e aplicá-los, por exemplo, na construção de uma casa de madeira para «não destoar» do que já existe. O objectivo é que o edifício seja «desafiante» para as crianças e ideias para o interior não faltam: uma rede trapezista para os mais velhos, uma parede em vez de ter armários que seja para escalada e um varão de quartel de bombeiros.

«As crianças só conseguem ficar maduras depois de experimentarem o corpo e o que estamos a assistir cada vez mais é a um problema de saúde do esqueleto, porque estamos a atrofiar tudo», constata João Morgado, numa alusão à falta de mobilidade das crianças. Uma realidade que Carlos Neto apelida de «segunda pandemia». O especialista sublinha que a alta taxa de sedentarismo não só tem consequências a nível da saúde, com o aumento de peso ou doenças como a diabetes, mas também está relacionada com desordens mentais, como o stress, a depressão ou a ansiedade. Numa segunda dimensão do problema estão as horas passadas em frente a ecrãs lúdicos, acrescenta Carlos Neto.

«As crianças já não brincam na rua, já não vão a pé para escola, já não brincam na escola. Isto é a verdadeira tragédia do ponto de vista do desenvolvimento humano nas crianças e nos jovens. É preciso reconectar as crianças com o mundo natural», avisa. João Morgado diz que o objectivo do ATL passa por «cansar» as crianças na natureza, de tal maneira que «chegam a casa cansados, felizes, sujos e com pouca vontade de estar em frente a equipamento tecnológico, nem exigir muita atenção dos adultos». E o mais provável é que aconteça porque «tiveram tudo o que lhes fazia falta aqui», remata.

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