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Opinião | Antídotos para a solidão

Por Margarida Pedroso de Lima

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Fotografia: Vilma Reis

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A solidão é um conceito complexo que é diferente da solitude (que é desejada), da solidão epistêmica (parte fundamental da condição humana, segundo Sartre) e do isolamento social (que é fruto de variáveis situacionais e geográficas que levam uma pessoa a viver longe dos outros).

A solidão pode ser definida como um sentimento subjetivo relacionado com a ausência (ou perceção de ausência) de contacto ou com a sensação de se estar isolado, de não pertencer.

As pessoas em situação de solidão sentem que as relações com os seus familiares, amigos ou colegas estão aquém do que desejariam (solidão social), ou que não têm um relacionamento de intimidade ou um vínculo emocional próximo, como um melhor amigo ou uma relação amorosa (solidão emocional).
A pessoa sente que não tem ninguém, que não pode contar com ninguém, não é importante ou especial para ninguém ou que a rede de pessoas de que dispõe não é suficiente para as suas necessidades. A pessoa só pode ainda sentir que não tem acesso a um conjunto de serviços ou recursos sociais.

Podemos dizer que na solidão há um desencontro entre as minhas expectativas relacionais e a minha realidade. Este desencontro cria uma vivência de stress que, como resposta global deste organismo/pessoa em situação, leva a um adoecimento geral. Os impactos são inúmeros, desde os físicos, como aumento do risco de doenças cardiovasculares, hipertensão, infecções e redução do sistema imunitário. Até mentais, como a angústia, ansiedade, depressão, perda de foco, declínio cognitivo, agravamento de hábitos nocivos como o alcoolismo e os distúrbios alimentares. Os impactos referidos levam à redução do bem-estar e, a longo prazo, afetam a longevidade pessoal.

O sentimento de solidão é mais frequente nas mulheres, nas pessoas viúvas ou solteiras, na adolescência e na velhice, nas pessoas institucionalizadas e é independente de estar ou não rodeado de muita gente.


Dado este quadro, a solidão é amplamente considerada uma epidemia ou «doença» do século XXI; dados os impactos severos já referidos na saúde física e mental, requer atenção dos governos e dos profissionais de saúde para reconstruir conexões sociais e combater esta crise geracional.

A verdade é que não nascemos para viver sozinhos, somos seres sociais que nascemos da (e na) relação com os outros, sobretudo significativos. Precisamos nos agrupar para sobreviver, desenvolver e viver o ciclo que está programado na nossa mente de primatas. Sentimo-nos mais seguros com outras pessoas. Sobretudo daquelas com quem temos maior vínculo.

Há diversos fatores de risco que contribuem para o aumento da solidão nos nossos mais velhos. A saber, as transições de vida como a viuvez ou a reforma que muitas vezes retiram a pessoa idosa do convívio diário e da sensação de propósito; a saúde e a mobilidade diminuídas que levam à diminuição das capacidades físicas e cognitivas, dificultando a participação em atividades sociais e mantendo a pessoa idosa mais isolada em casa; a rede de apoio social fraca devido à distância geográfica da família, falta de amigos ou ausência de comunidades ativas; fatores socioeconômicos como o baixo nível educacional e/ou econômico, que limitam o acesso a atividades e à tecnologia; o idadismo definido como os estereótipos negativos com base na idade e que promovem a marginalização e o abuso da pessoa idosa; problemas de saúde mental como a depressão, ansiedade, que podem ser tanto causa quanto consequência da solidão; arquitetura residencial, ou seja, a organização das habitações que podem potenciar o isolamento físico e as mudanças no ambiente como a Institucionalização.

O que podemos fazer? Logo à partida, investir na prevenção, visto que pessoas mais saudáveis, com objetivos, com relações familiares gratificantes, com amigos, com boa autoestima, autonomia e orientação social positiva sentem menos solidão. Podemos ainda:

• Fortalecer as redes de apoio (conectando familiares e amigos).
• Oferecer apoio emocional, mostrando que são valorizados e úteis. Exemplos:

  • convide um amigo, vizinho ou colega para beber um café e conversar;
  • procure manter relações sociais autênticas com as pessoas, mostrando interesse pela sua vida pessoal;
  • partilhe informação sobre iniciativas na sua comunidade;
  • envie mensagens;
  • incentive o convívio entre pessoas que moram sozinhas.

• Usar videochamadas para comunicar e conviver à distância.
• Fomentar serviços que proporcionem companhia para conversar, ir ao cinema ou outras atividades desejadas. Solicitar Centros de Convívio e de Dia ou apoio domiciliário.
• Promover o envelhecimento ativo com participação em atividades sociais, culturais, recreativas, desportivas e espirituais.
• Promover narrativas mais positivas e inclusivas sobre a velhice.

Em suma, a solidão é um problema de saúde pública sério e muitas ações devem ser implementadas tanto ao nível individual como legislativo para a obviar. Mas hoje comecemos por mudar as nossas narrativas da inevitabilidade da solidão na velhice e comecemos a investir na nossa relação com os demais e com o mundo que nos rodeia de um modo diferente. Aproveitemos o Natal para fazer amigos e para conectar com a natureza – dois antídotos para a solidão.

Margarida Pedroso de Lima é psicóloga e professora na Universidade de Coimbra, onde estuda e trabalha temas ligados ao envelhecimento e ao desenvolvimento pessoal.

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