Caminhamos pela cidade, pelos seus espaços verdes, cruzamo-nos com as pessoas, muitas vezes sem reparar no imenso património que se esconde bem à vista, na forma de uma planta endémica ameaçada, ou de uma fachada centenária. Damos por adquirido o Mondego que dá encanto a Coimbra, a qualidade das águas que sai pelas torneiras e as árvores que nos dão sombra e protegem nos dias de maior calor. Na zona da Quinta da Portela, a margem do rio é aproveitada por pessoas que vêm de diferentes pontos geográficos, ali confluindo para um piquenique, um passeio de bicicleta, ou um banho na recém-criada praia fluvial do Rebolim. De quem é a responsabilidade de cuidar deste local?
Em 2021, o anterior executivo da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) empreendeu uma ação de terraplanagem na zona ribeirinha da Portela, na mesma semana em que aprovava uma proposta de Programa Municipal para as Alterações Climáticas. A ação provocou o desmatamento da área com maquinaria pesada, deixando os solos expostos e destruindo indiscriminadamente a vegetação. Pairava no ar a suspeita de que as autoridades camarárias tinham como ambição construir um campo de golfe. Em consequência, a indignação tomou conta do pensamento de algumas pessoas, entre as quais moradores, jovens estudantes, biólogos e professores, que se organizaram através de um coletivo unido pela defesa do Rebolim e da Portela sob o nome Mondego Vivo.
Além de denunciarem a ação da CMC e as suas consequências para o ecossistema ribeirinho, referiam nos comunicados publicados na página de Facebook a «falta de escrutínio público» e o caráter «unilateral, não transparente e antidemocrático» da decisão. Ao mesmo tempo, puseram em prática mecanismos participativos para envolver a população: assembleias públicas, ações de sensibilização e uma petição, em que exigiam a suspensão de todos os trabalhos danosos para o ambiente ainda em curso na zona entre o Rebolim e a Portela, bem como a regeneração da galeria ripícola.

Passados dois anos, sentamo-nos à sombra de uma árvore na praia do Rebolim, num sábado em que a chuva deu tréguas, à espera da reunião do movimento Mondego Vivo na companhia de Francisco Oliveira, morador da Portela que tem vindo a participar ativamente no coletivo informal desde a primeira assembleia. Confessa que o seu envolvimento parte da sua responsabilidade enquanto cidadão: «Como cidadão não podia aceitar isso [ação de terraplanagem com vista à construção do campo de golfe], na medida em que não houve informação transparente e as pessoas não foram consultadas. Por outro lado, é uma violência ambiental numa albufeira de águas públicas e protegidas, na medida em que temos a captação de águas uma centena de metros abaixo».
Tínhamos visitado o caminho de terra que liga a Portela ao Rebolim com Jael Palhas no dia anterior. O investigador do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra explicou que, com as chuvas de inverno, a margem exposta à erosão começou a ruir, sobretudo na zona que corresponde à foz do rio Ceia, o único afluente do Mondego em que não existe uma barragem, sendo o seu caudal profundamente influenciado pelo nível de precipitação. «É muito mais barato não fazer asneira do que estar agora a lutar contra a natureza. Destabilizar as margens é dar espaço ao rio para conquistar terreno», comenta o biólogo. Francisco Oliveira, morador na zona, partilha a preocupação: «Se nada for feito, a água poderá chegar ao pé da via rápida».

As plantas voltaram a crescer, sobretudo acácias, caniços e tintureiras, que ladeiam o caminho. A paisagem conserva um aspeto idílico, trazido pelos ares da primavera e pelas flores selvagens visitadas por borboletas brancas. Segundo o antigo professor de filosofia, que tem ativamente feito a monitorização do espaço, alguns animais regressaram: pequenos mamíferos como o toirão, alguns répteis, aves e insetos. No entanto, as plantas infestantes colocam um problema: «Nas áreas onde ainda havia alguma vegetação ripícola madura, com várias espécies nativas, agora dominam as invasoras que já cá estavam, mas não conseguiam dominar. As plantas exóticas não fazem parte do ecossistema e estabelecem menos relações ecológicas com as restantes», refere Jael Palhas.
O investigador é da opinião que as questões relacionadas com a importância de salvaguardar a biodiversidade não merecem tanta atenção como outros temas ambientais: «As pessoas só defendem o que gostam e não podem gostar do que não conhecem». Adianta que, em Coimbra, existe uma planta endémica da zona ocidental da bacia mediterrânica, Lisimáquia efêmera, que está em vias de extinção. Apesar disso, e da questão já ter sido comunicada à Câmara Municipal de Coimbra e às Juntas de Freguesia, “continua a ser cortada e a levar com herbicida em cima”. Segundo Jael, há várias coisas que as pessoas podem fazer para proteger a flora ameaçada, inclusive através de aplicações como a iNaturalist, que permite identificar plantas e pô-las no mapa, ajudando o trabalho dos investigadores.
Os humanos reúnem-se organicamente, explorando outros possíveis através da partilha e do encontro, tal como a natureza encontra um caminho por entre as fissuras que se abrem no solo despido. Para Dalila Sara, membro da ClimAção Centro, presente na reunião do Mondego Vivo de sábado, dia 16 de junho, o essencial é encontrar um equilíbrio: não encarar os locais enquanto utilizadores desprovidos de responsabilidade, mas participando ativamente na construção de um ecossistema onde a presença humana colabore com as outras espécies: «As populações no geral ainda têm a ideia de que usar os espaços verdes é só para tirar benefício, raramente é uma troca. Por isso é que faz falta a sensibilização das pessoas, para depois elas poderem usufruir dos espaços e dar à natureza na mesma proporção que ela nos dá a nós».
Os problemas que há dois anos assolavam a área persistem, nomeadamente o corte de árvores a montante da Portela devido às obras do Metro Mondego, bem como descargas de lixo ilegais que, para Francisco Oliveira, são um sintoma da falta de ordenação e cuidado com o território. «Se as coisas estiverem minimamente ordenadas, as pessoas não terão tanta leviandade e tanta facilidade em vir depositar aqui entulho. Por outro lado, há medidas que a CMC pode tomar: uma das mais importantes seria proibir a utilização de veículos motorizados entre a Portela e o Rebolim no caminho de terra batida».

O movimento Mondego Vivo continua a defender «a proteção da margem contra a erosão e contra o abandono, os abusos, despejos e proliferação de infestantes», como consta num comunicado distribuído nas Festas de São João da Quinta da Portela. Depois de uma reunião entre o coletivo e o Departamento de Ambiente e Sustentabilidade da CMC, o atual executivo afirmou que está a trabalhar num projeto de ação que compreende três áreas: estabilização da margem em frente à foz do Ceira, eixo do rio e praia fluvial do Rebolim, ponto de encontro de muitos conimbricenses, que mereceu ser título de uma música lançada pela editora de música independente CIGA 239.
No seguimento do encontro, o grupo informal decidiu convocar uma reunião de moradores que vai ser realizada em setembro, em data a anunciar, na Igreja de São João Baptista, na Portela. O objetivo é integrar a população, as suas necessidades e visões, no planeamento da zona ribeirinha e, possivelmente, criar uma assembleia de moradores. O habitante lamenta a ausência de mais espaços comuns na Portela: «Não havendo espaços de convívio e de encontro, é difícil criar comunidade». A enfermeira recém-chegada a Coimbra concorda. Considera fundamental a existência de mais espaços associativos: «As associações desportivas e recreativas são locais que proporcionam momentos onde se pode transmitir estas preocupações ambientais».
Cruzam-se, portanto, os meios e os objetivos: para as pessoas se reunirem com vista à construção do futuro que almejam necessitam de espaços para se encontrarem e discutirem; ao mesmo tempo, ao fazê-lo, estão a participar ativamente na regeneração do tecido social, embrenhado de forma inequívoca no meio ambiente. Valorizar o território passa, então, por criar espaços de fruição e educação, enquanto se cuida das espécies não humanas das quais as pessoas dependem. No fundo, trata-se de encarar a vida não como uma pirâmide na qual nos situamos no topo, mas como um complexo emaranhado de interações e interdependências.















