Há histórias que parecem saídas de um filme. E, neste caso, a expressão ganha literalidade: não só é uma história com todos os elementos cinematográficos, como nasceu do próprio processo de fazer cinema. Poderia ser “apenas” um documentário sobre memória e reencontros, mas é também um pedaço vivo da história cultural da Figueira da Foz.
Tudo começou com uma pergunta do arqueólogo Armando Redentor: afinal, qual era o filme no qual, aos 12 anos, tinha participado como figurante em Quiaios? Ele recordava-se de acenar para um carteiro chamado Mário… e nada mais. Essa simples cena foi o ponto de partida para reconstituir como, na primavera de 1983, as praias da Figueira da Foz – Quiaios, Tocha e Buarcos se transformaram no Chile para receber a primeira adaptação cinematográfica de Ardente Paciência, assinada por Antonio Skármeta, escritor chileno então exilado na Europa, autor da história de amizade entre um jovem carteiro e o poeta Pablo Neruda, usado para cortejar uma mulher.

Quando a Casa dos Cogumelos se transformou na casa da Isla Negra
No centro dessa memória partilhada ergue-se a Casa dos Cogumelos, que foi construída na década de 1960 por um professor universitário que esteve envolvido na Guerra do Ultramar. Inspirado pelas casas tradicionais da Guiné-Bissau, onde viveu durante o conflito, decidiu criar em Portugal uma habitação singular, com estrutura modernista em betão mas formas arredondadas e telhados cónicos que remetem às palhotas africanas. O projeto tornou-se rapidamente famoso na região, construído na Murtinheira, perto da Figueira da Foz, sendo apelidado de Casa dos Cogumelos devido à semelhança das suas seis divisões interligadas com cogumelos gigantes. Em 1983, tornou-se a “morada portuguesa” de Pablo Neruda — ou melhor, do Neruda interpretado por Roberto Parada, veterano ator chileno e amigo pessoal do poeta.
A busca pela casa ideal foi conduzida por Miguel Cardoso, sócio da produtora portuguesa Prole Filme e primeiro assistente de realização do projeto. «A Prole era composta por três sócios — Luís Filipe Rocha, Henrique Espírito Santo e eu próprio», recorda. «Neste caso, fomos contactados por Joachim von Vietinghoff, produtor de Berlim que já conhecíamos das rodagens de Reina a Tranquilidade no País, do realizador Peter Lilienthal, em 1975.»
Antonio Skármeta, então exilado em Berlim, escrevia o guião à distância. «Preparámos o filme sem guião fechado… e sem realizador presente», confidencia Cardoso. A coordenação exigia soluções rápidas: localizações, cenários, uniformes, elenco. «Não havia internet, nem Wikipédia. Tudo eram contactos, fotografias enviadas por correio, desenhos da diretora de arte, improvisos. Para os uniformes do exército chileno, por exemplo, fomos à feira da ladra e criámos algo que transmitisse austeridade e realismo.»
Encontrar a casa que encarnaria a de Pablo Neruda na Isla Negra foi um dos maiores desafios. Sem a casa perfeita, dificilmente o filme seria feito em Portugal. Cardoso descreve essa procura como uma pequena odisseia: «Comecei pelo Algarve, segui pela Costa Vicentina, mas nada servia. No terceiro dia de pesquisa, ao pôr do sol, em Quiaios, vi a Casa dos Cogumelos. Aquela arquitetura, sobre a praia… Liguei logo para a Alemanha: ‘Estamos safos! Temos casa!’».
E foi a partir daquele cenário que foi construída toda uma geografia local que pudesse trazer a chilena Isla Negra para o filme.
O elenco principal era formado quase exclusivamente por atores chilenos no exílio — em Roma, Berlim Leste ou na Polónia. O papel de Neruda coube a Roberto Parada que «Mesmo depois de partir um braço na última semana de rodagens, insistiu em continuar a filmar. Escondemos o gesso debaixo de um poncho e seguimos em frente», lembra Miguel Cardoso.
Filmado entre 16 de maio e 4 de junho de 1983, o projeto contou também com momentos inesperados: «Não havia orçamento para helicópteros, mas um dia, ao filmarmos na praia, lá vieram dois sobrevoar a cena. Usámo-los imediatamente. Coisas boas que acontecem sem estar no plano.»
Apesar de conquistar prémios como o Grimme Award na Alemanha e o Prémio do Público no Festival de Huelva, Ardente Paciência nunca teve estreia comercial em Portugal. Só em 2014 surgiu uma versão restaurada, graças ao Goethe-Institut e à Filmoteca de Munique.
«Fazer cinema, para mim, nunca foi trabalho — foi prazer, foi vida», afirma Cardoso. «Quando estamos no rumo certo, as coisas fluem. E este filme, apesar de todas as dificuldades, foi exatamente isso: um momento em que tudo fez sentido.»
Produzido num contexto de escassos recursos, Ardente Paciência foi um filme político e artesanal: figurinos vindos da feira da ladra, carros com matrículas trocadas para garantir coerência visual e um guião em constante adaptação. Miguel conta ainda sobre a participação de algumas pessoas de uma comunidade chilena de refugiados políticos que viviam nas instalações do INATEL, na Costa da Caparica: «Fui lá buscar grande parte das figurações especiais e dos pequenos papéis. Isso deu uma cor e um ambiente autenticamente chilenos às cenas de Ardente Paciência.» Cardoso lembra na perfeição (e nas exemplares agendas de produção que guarda até hoje) aqueles momentos que, para ele, definem o espírito daquela aventura cinematográfica.
Memórias de quem lá esteve
Luís Patrão, o único figurante com o nome nos créditos finais do filme, participou nas filmagens e lembra bem esses dias. «Ah, foram uns dias porreiros, para os figurantes e para a produção», diz, lembrando a agitação que tomou conta de Quiaios. A cena em que participou acontecia num bar, onde tocava com o grupo da coletividade local. Mas a história mais curiosa aconteceu em Lisboa: Patrão foi ao cinema para ver o que pensava ser o seu filme e acabou por se deparar com Il Postino. «Fui ver o filme a pensar que era o nosso… e afinal era o segundo, baseado no mesmo livro. Olhei e pensei: ‘Engraçado, isto está tão diferente’.» Quase quatro décadas depois, ainda gosta de contar, com um sorriso, que entrou num filme — “é mais para fazer charme”, admite.
O arqueólogo Armando Redentor guarda, nas suas redes sociais, um frame da sua breve aparição em Ardente Paciência — o instante em que, ainda criança, acena para o personagem Mário. Tinha 12 anos e regressava da telescola na hora de almoço quando, junto com os colegas, foi “represado” pela produção. «Era como um rio de crianças a descer a rua e, de repente, alguém disse: ‘Esperem aí, precisamos de vocês para uma cena’», recorda. Tudo foi improvisado: brincaram até serem chamados e repetiram inúmeras vezes o mesmo grito — “Mário! Mário!” — para a câmara.
Naquela altura, Armando quis saber mais sobre aquilo em que estava a participar. Aproximou-se de um dos elementos da equipa e perguntou que filme era. «Só me disseram que era uma produção internacional europeia, talvez alemã. Mas não me deram o nome.» Ficou sem resposta durante anos, «na ignorância até aos anos 90», até que um artigo no Expresso, sobre a estreia de Il Postino, mencionou uma versão anterior filmada em Portugal, em Quiaios. Uma colega de curso confirmou-lhe as suspeitas: “Olha, houve uma versão do Carteiro de Pablo Neruda filmada em Quiaios. Deve ser o filme em que entraste.
A revelação foi, para Armando, «quase como encontrar o Santo Graal». Mas as peças do puzzle demoraram a encaixar — «não havia internet na altura» — e só mais tarde, por intermédio da mãe, conseguiu uma cópia gravada da televisão luxemburguesa por uma emigrante chamada Natália. «Foi a primeira vez que vi o filme inteiro. Percebi, enfim, o título, a ficha técnica… mas ainda assim era muito difícil encontrar informação detalhada.» Só anos depois o filme passou a figurar em bases de dados e a ter edição em DVD.
Quarenta anos depois, Armando ainda gosta de repetir a fala que gritou diante das câmaras — “Mário! Mário! Mário!” — e reconhece que a busca pelo filme acabou por se transformar numa história paralela dentro da sua vida. A experiência marcou-o: Ardente Paciência tornou-se um dos seus livros preferidos e, sobretudo, foi neste percurso que descobriu a poesia de Pablo Neruda, «a maior de todas as descobertas». E acrescenta, com orgulho quase cúmplice: “Pablo Neruda ganhou o Prémio Nobel da Literatura precisamente no ano em que eu nasci.»
Outros figurantes recuperaram memórias curiosas. O artista plástico Manuel Santos Maia lembra de levar um saco com materiais escolares, retirado pela produção para não aparecer publicidade. A professora Maria Abreu e o pintor Elísio Caneira completavam o grupo infantil que aparece no frame que reaproximou todos estes protagonistas.
De Portugal para o mundo
Filmado na primavera de 1983, Ardente Paciência antecedeu, em mais de uma década, o famoso Il Postino (1994), de Michael Radford, que deslocou a ação para Itália e suavizou a carga política da história. A versão portuguesa manteve-se fiel ao contexto do Chile dos anos 60 e 70, sendo ao mesmo tempo uma obra de exílio e resistência cultural. Apesar de ter conquistado prémios internacionais, nunca teve estreia comercial em Portugal.
Antonio Skármeta, falecido em 2024, deixou um legado literário e cinematográfico marcante. Ardente Paciência, que escreveu e realizou, é hoje reconhecido como a forma mais pura de sua história original, capturando não apenas a amizade entre o carteiro Mário e Pablo Neruda, mas também um retrato realista de um país em tensão.
Cinema dentro do cinema
Esta história, que junta memórias pessoais, bastidores de filmagem e a transformação de um recanto da Figueira no Chile, poderia, ela própria, ser tema de um filme — como Cinema Paradiso, Hugo, La Nuit Américaine ou Being John Malkovich, obras que refletem sobre o próprio ato de fazer cinema.
E, num daqueles acasos que parecem guionados, todos estes protagonistas vão reencontrar-se agora, mais de 40 anos depois, para assistir juntos ao filme que os ligou. A Casa do Cinema de Coimbra exibirá Ardente Paciência no Parque de Merendas de Quiaios, este domingo de agosto, dia 17, a partir das 21h, com direito a uma tertúlia com quem viveu a experiência.
Porque há memórias que merecem regressar à luz do projetor.














