Estávamos em Junho quando Inês Ataíde, de 12 anos, e Mariana Antunes, de 17, garantiram o apuramento para o Campeonato da Europa, que se realizaria em Outubro na Bulgária. O par feminino júnior de ginástica acrobática do AcroGym Clube de Coimbra tinha conquistado o campeonato distrital e um título de vice-campeãs nacionais. O apuramento parecia, no entanto, ser a parte mais fácil. Era ainda necessário fazer face ao elevado valor monetário envolvido, desde deslocações, inscrições na prova, alojamento, alimentação e ainda a roupa de competição. A ida ao campeonato tinha uma previsão de gastos à volta dos seis mil euros – mais de metade da verba foi conseguida com a venda de rifas.
«As mães da Mariana e da Inês organizaram-se, criaram um grupo de pais aqui do clube e todos ajudaram: fizeram venda de rifas, angariação de fundos e até de patrocínios», recorda Fernando Alves, treinador do AcroGym. As rifas, sublinha, foram muito importantes, atingindo um valor de cerca de quatro mil euros. «Tive colegas de trabalho no Porto a telefonarem-me a perguntar: “Estão aqui a vender umas rifas do AcroGym. Isto não é do teu clube?”, conta-nos o também fundador da equipa para ilustrar o sucesso da iniciativa.
A Câmara Municipal de Coimbra atribuiu um apoio extra de 1.500 euros para a participação do clube na prova, além dos 3.500 euros cedidos para o funcionamento regular da época de 2022/2023, no âmbito do Regulamento Municipal de Apoio ao Desporto.
Os frutos da iniciativa das mães de Inês e Mariana e do esforço das atletas foram colhidos na cidade de Varna, no Campeonato da Europa de Grupos de Idades de Ginástica Acrobática. A dupla de ginastas subiu ao segundo lugar do pódio e trouxe a medalha de prata na prova de pares, no escalão dos 12-18 anos.
À espera da prova internacional
A diferença de idades pode impressionar, mas é um dos factores importantes para o bom desempenho das atletas em conjunto. Mariana, mais velha, assume a posição de base e a maior estatura garante o apoio e sustento para a volante Inês na execução dos exercícios em sincronização com a música.
A trabalharem em conjunto há cerca de dois anos, as atletas reforçam essa particularidade da modalidade que praticam. «É preciso darmo-nos bem e ir tentando trabalhar ao máximo nos treinos até chegar ao mais alto nível», aponta Mariana.
«As mães da Mariana e da Inês organizaram-se, criaram um grupo de pais aqui do clube e todos ajudaram: fizeram venda de rifas, angariação de fundos e até de patrocínios.»
Fernando Alves, treinador do AcroGym
Iniciaram-se ambas na modalidade muito cedo. Para Inês, «é importante começar de pequenina, porque se apanha logo o jeito e depois é só evoluir». A medalha é reflexo de muita organização: «Quando há tardes livres, em vez de estarmos a brincar ou ao telemóvel, aproveitamos para estudar e depois treinar».
O regresso aos treinos foi feito com os olhos postos na próxima competição internacional. Estava prevista para Israel, em Março, mas o conflito na Faixa de Gaza, Palestina, ditou a alteração do país anfitrião e adiamento para o final do ano. «Estamos à espera que a Federação Internacional de Ginástica decida o mais rápido possível. Interessa-nos a data. É com ela que trabalhamos», sublinha o treinador Fernando Alves.
Com a alteração de calendário e o inevitável atingir de idade máxima do escalão para Mariana, a dupla teve de ser alterada. Inês prepara o campeonato com a ginasta Matilde Vila Nova, perdendo acesso ao apuramento directo. Catarina Alarcão, mãe de Inês, aponta que a ausência de informação complica a logística familiar, do simples ajustar de períodos de férias para acompanhar as atletas à definição da estratégia para fazer frente aos custos das provas.
Centro Olímpico para este ano
O AgroGym foi fundado em 2006 por Fernando Alves, quando decidiu tomar as rédeas à sua «maluquice ambiciosa». Nessa altura, os treinos iniciavam-se no actual pavilhão da Escola José Falcão e foi aqui que regressaram, depois da diminuição do clube na sequência da pandemia e da venda do armazém que utilizavam, em Eiras. A situação, espera-se, será transitória.
«Queremos voltar a ter um espaço próprio para trabalhar, numa escola só podemos começar a treinar às 18h15, é muito pouco». As três horas de treino alteram-se durante a preparação de um campeonato europeu, podendo atingir as seis horas diárias. Na impossibilidade de realizar treinos bidiários, houve necessidade de deslocação para outros espaços, incluindo as instalações do Sporting, em Lisboa, o que também acarreta custos extra. O AcroGym tem 135 atletas inscritos.
A prática da Ginástica poderá ganhar um fôlego maior com o avançar da construção do Centro Olímpico de Ginástica, no Vale das Flores. O alvará de licença foi emitido em abril de 2023 para um período de 18 meses, com conclusão prevista no final de 2024.
A alta competição e o Ensino Superior
Na vida universitária encontramos Rita Abrantes, atleta medalhada no Campeonato do Mundo de Ginástica de Trampolins, a representar a selecção nacional. Com pai ligado, ainda hoje, à vida da Secção de Ginástica da Associação Académica de Coimbra (SG/AAC) e a acompanhar de perto o percurso da irmã mais velha nas competições de trampolim, Rita entrou no mundo da ginástica com apenas dois anos de idade. Escolhida para os trampolins aos nove, aos 13 anos começou a marcar presença na seleção nacional de forma constante.

Em Novembro, garantiu a sua primeira medalha na categoria de mini duplo trampolim num Campeonato do Mundo em Birmingham, no Reino Unido. «No ano passado, já tínhamos ficado em quarto lugar, empatadas com as terceiras classificadas e tínhamos tido uma falha, por isso sabíamos que, se fizéssemos as coisas bem, teríamos possibilidades de passar à final de equipas». Durante a preparação para o mundial, «cumpria cinco treinos por semana no trampolim e ainda treinos de preparação física. Andava a rondar as 12 a 14 horas de treino semanais», conta-nos Rita, no Pavilhão do Estádio Universitário.
«A partir do momento em que percebi que queria ir para Medicina foi um bocadinho mais difícil: coincidiu com a entrada na seleção nacional sénior e a luta por aqueles lugares disponíveis», frisa a ginasta da SG/AAC. «Ninguém nos prepara para a vida académica, especialmente em Coimbra. Há semanas em que me apetece sair, ficar até tarde com os meus amigos no café ou até fazer noitadas a estudar, mas não posso porque tenho um campeonato do mundo dali a um mês», exemplifica.
Mariana Pombo integra a equipa técnica da SG/AAC e refere também os constrangimentos financeiros. «Até as atletas fazerem carreira na selecção de absolutos, as únicas provas totalmente comparticipadas pela federação, nos séniores, dependemos muito dos pais e da gestão muito apertada do nosso orçamento. Calculamos ao cêntimo tudo o que podemos fazer para que a direcção possa ter uma noção do que pode apoiar». «Não deixamos de ir por causa do dinheiro; também não deixamos de ajudar quem não pode ir, nem que seja num pagamento faseado. Não contamos com grandes apoios a não ser patrocínios que possam surgir extra», elucida.
A secção dá um pequeno apoio monetário anual a todos os atletas que entrem nos restritos grupos da categoria elite ou de alto rendimento.

A falta de espaço próprio é também uma das dificuldades à qual acresce outra maior, na visão de Mariana Pombo: «Este pavilhão é da Universidade até às seis da tarde. Tudo o que seja antes disso tem de ser situações muito excepcionais e tem um custo. Em Portugal, não estamos preparados para actividades que não sejam profissionais. Temos ensino articulado para a música e para a dança. Porque não podemos ter para o desporto que não é profissional? É uma escolha que os ginastas fazem», conclui. O mesmo se aplica aos treinadores que têm também um trabalho das 9h às 17h.
«Em Portugal, não estamos preparados para actividades que não sejam profissionais. Temos ensino articulado para a música e para a dança. Porque não podemos ter para o desporto que não é profissional?»
Mariana Pombo, atleta
A SG/AAC é também contemplada no âmbito do Regulamento Municipal de Apoio ao Desporto, inserida numa grande fatia de 125 mil euros, que é dividida pelas 26 secções desportivas e respectivos escalões da estrutura dos estudantes. No caso da SG/AAC, grande parte desse apoio distribuído pelo Conselho Desportivo «fica cativo para pagamento da utilização do Estádio Universitário que funciona na óptica utilizador-pagador», acrescenta Mariana Pombo.







