A bola oval com que dezenas de crianças e jovens jogam (hoje) râguebi ou rugby no Estádio Universitário de Coimbra tem uma história com dois séculos. Em Coimbra, a paixão pelos ensaios, placagens, conversões, melée e touches começou em 1936. Um estudante de Medicina da Universidade de Coimbra, José Maria Antunes, juntou amigos para praticar a modalidade criada por William Webb Ellis, em 1823.
Ellis era um jovem da cidade inglesa de Rugby e terá agarrado uma bola com as mãos durante uma partida de futebol e começado a correr, abrindo caminho para o surgimento do desporto que, este verão, reuniu em França equipas do mundo todo para o campeonato mundial, que acontece desde 1987. É considerado o terceiro maior evento desportivo mundial – apenas superado pelos Jogos Olímpicos e Campeonato do Mundo de Futebol.
Na Queima das Fitas de 1937, o grupo de amigos de Antunes fez um jogo de demonstração no Campo de Santa Cruz. Mas foram precisas quase duas décadas para António Sá Lima chegar a Coimbra para estudar, em 1954, e fundar a Secção de Rugby da Associação Académica de Coimbra (AAC), clube que é sócio fundador da Federação Portuguesa de Rugby, filiado em 1957.
Retratos da Secção da AAC hoje

Rui Loureiro começou a treinar com 14 anos, escondido da família que era adepta de basquetebol. Conta que foi levado ao primeiro treino por um amigo e foi fisgado por um treinador romeno a dar aulas na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, em Coimbra. «Chamava-se Vasile Constantin e respirava râguebi 24 horas por dia, contagiava a todos nós», lembra. Passaram 29 anos. Licenciado em Educação Física, e com uma empresa de eventos desportivos criada há duas décadas com dois colegas da faculdade, a carreira de jogador acabou cedo, mas continuou treinando os mais novos. Depois de coordenar a Escola de Rugby da Associação Académica de Coimbra (AAC) durante 10 anos, há quatro épocas que é diretor-geral da Secção de Rugby da AAC, aquele que lembra que é o único em modalidade coletiva na cidade que tem equipa na principal divisão do país.
António Reis entrou para o Rugby aos onze anos por vários motivos, mas sobretudo para fazer amigos. A viver em Coimbra há poucos meses, vindo do Brasil, e ainda com a família dividida entre os dois países, não interagia com os colegas na escola e a solução recaiu no desporto. Depois de quatro anos desde o primeiro treino na Escola de Rugby da AAC, o Pilar esquerdo do atual Sub18 é um jovem sociável, integrado na comunidade e ocupa as horas vagas com documentários sobre a trajetória emblemática de Siya Kolisi, capitão da selecção sul-africana de râguebi, a Springboks. «Minha família agora inclui agora colegas, treinadores, diretores e a fisioterapeuta. Sinto-me parte da cidade e devo isso ao Rugby AAC», confessa.

No mesmo escalão de António está Gonçalo Festas, os dois treinam com outras dezenas de jovens, três vezes na semana. Gonçalo refere a importância que a modalidade tem na sua vida e faz comparações desportivas: «Ao contrário do futebol, que eu considero mais individualista, o râguebi é coletivo, precisas de todos os jogadores em campo para placar, defender, marcar. O râguebi é realmente muito importante para mim».

De José Maria Antunes para cá a coisa cresceu e o Rugby da Académica tem hoje cerca de 320 atletas e uma engrenagem que depende de um trabalho coletivo imprescindível e totalmente voluntário. «A direção conta com oito pessoas, sete são voluntárias. Temos ainda 25 treinadores, sete dos quais totalmente voluntários. Os escalões têm seis diretores, todos eles voluntários», diz Rui Loureiro.

Quando não está a coordenar toda a frota dos CTT nas regiões Norte e Centro, o engenheiro mecânico José António Fernandes é o fotógrafo oficial voluntário do Rugby da Académica. O envolvimento começou com os filhos que são atletas no clube: «Naquela altura, há uns bons anos, poucos tiravam fotografias, então comprei um equipamento amador e fui testando, de vez em quando saía um retrato melhor, os outros pais achavam as imagens engraçadas e me pediam mais e a paixão foi crescendo, mesmo sem qualquer tipo de formação fotográfica. Nas horas vagas pesquisava na internet, investia em novas câmaras e lentes, quando vi estava a registar toda a viagem de crescimento de muitos destes miúdos através deste meu trabalho», explica Zé Tó, como é conhecido. Diz que a fotografia é o seu contributo para o história do clube e que muitas vezes tem que acudir os jornais da cidade quando estes não conseguem enviar seus repórteres fotográficos aos jogos: «Também faço a doação das minhas imagens aos jornais, faço isso pelo nosso râguebi, por esta modalidade quem muito valor».
José Miguel Fernandes, filho de Zé Tó, tem 18 anos e começou a treinar aos cinco. Diz que tem um enorme prazer em praticar râguebi e coloca a coletividade como a qualidade favorita neste desporto: «Levo para a vida a resiliência, o espírito de equipa, a iniciativa e o companheirismo, representar o Rugby da Académica e vestir esta camisola é uma honra e um compromisso com toda a história deste clube».

A enfermeira Rita Matias cresceu vendo os jogos de Rugby da Académica. Dificilmente seria diferente (sendo filha de Francisco Matias e irmã de André Matias, ex-atletas) ela tornou-se jogadora e hoje dirige voluntariamente a equipa de Rugby Feminino da Associação Académica de Coimbra, há três épocas. «A maioria das nossas jogadoras são universitárias que treinam nas noites de quartas e sextas no campo de Santa Cruz. Estamos com dificuldades em angariar atletas por aqui e então criamos uma equipa em conjunto com o Clube da Lousã», explica Rita que deixa um convite: «A família do râguebi em Coimbra só existe com o apoio da comunidade, então convido meninas e jovens a experimentar este belo desporto, todas são bem vindas!»

O Grupo de Desenvolvimento com os Sub16 e Sub18 tem, atualmente, quatro diretores: Paulo Festas, Pedro Arinto, Luís Carrito e Luís Filipe Rodrigues. Todos voluntários, cuidam da logística e não só. O trabalho vai desde as inscrições, tratar dos equipamentos, calendário dos jogos, viagens, seguros de saúde, documentos, fisioterapeutas, aconselhamento psicológico. «Nos fins de semana com jogos eu tenho ainda que buscar a fruta para o lanche – doada pelo Superfrutas -, saber do autocarro da viagem e ver com o João, que é dono da Padaria Central de Cernache, se ele pode levar os 75 pães com chouriço que doa sempre… é toda esta engrenagem», explica Paulo Festas. Nunca praticou râguebi – só kickboxing -, mas é pai do Gonçalo, atleta há dez anos.
Porquê esta dedicação, que acumula com a gestão da empresa Climacer e seus 215 funcionários? Paulo sorri e responde que, durante a pandemia, repensou muitas coisas. «Era apenas um pai-trocinador, mas depois percebi que podia fazer mais. Trouxe a minha experiência com a administração e ganhei outros 70 filhos que estão sempre a tirar-me o ar com emoções. O meu pagamento é vê-los crescer com a ideia de que não podemos vencer sozinhos, temos sempre de trabalhar juntos.»

Uma grande dificuldade para a Secção de Rugby da AAC é a falta de instalações próprias. «Acredito que todos os problemas de um clube de desporto se resolvem com atletas. Se tivermos atletas, os problemas estão resolvidos. Agora há um obstáculo a montante que impede que esse desígnio seja mais bem conseguido – estou a falar de instalações próprias», partilhou Rui Loureiro. «Temos no nosso ADN o conceito de grupo que hoje se dispersa por não termos um lugar nosso. Gostaríamos muito que o Estádio Universitário pudesse ser a nossa casa. Ele reúne completamente as condições, mas todas as propostas que temos feito à reitoria da Universidade de Coimbra não têm tido eco nas decisões. Sei que este não é um pedido simples, mas é bastante realista», atira Loureiro.









