A partir das cinco da tarde do dia 12 de março, a Estufa Tropical do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra recebe cinco investigadores que serão «livros humanos», preparados para conversas descontraídas que entrelaçam investigação e histórias pessoais — percursos sinuosos, motivações e obstáculos reais. Uma tarde inteira onde não se explica só ciência: conhecem-se as pessoas que a fazem acontecer.
Organizada pelo Centro de Inovação em Biomedicina e Biotecnologia (CiBB) — que reúne o Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC-UC), o Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra (iCBR-FMUC), o Multidisciplinary Institute of Ageing – Portugal (MIA Portugal) e o Laboratório de Transferência e Expressão Génica (GeneT) —, em parceria com o Jardim Botânico e a Coimbra Coolectiva, a iniciativa integra a Semana Internacional do Cérebro 2026 e a XXVIII Semana Cultural da Universidade de Coimbra.
As vagas são limitadas e as inscrições podem ser feitas aqui, neste formulário.
Os livros humanos são Ana Rita Álvaro, Diogo Magalhães e Silva, Joana Ferreira, Lisa Oliveira Rodrigues e Vítor Bueno. Ana Rita Álvaro (CNC-UC) leva o seu percurso sobre o sono — da higiene noturna ao impacto das rotinas no quotidiano cerebral. Diogo Magalhães e Silva (GeneT) partilha a sua chegada à Transferência de Tecnologia, cruzando laboratório, universidade e sociedade. Joana Ferreira (MIA Portugal) propõe conversa sobre curiosidade, coragem, planos e desvios — carreiras científicas feitas de mudanças inesperadas. Lisa Oliveira Rodrigues (iCBR-FMUC) fala sobre o canto — hobby — e a atividade científica, mostrando como as práticas artísticas alimentam criatividade e resiliência. Vítor Bueno (CNC-UC) aproxima neurociências e música eletrónica, revelando paralelos entre o cérebro e as camadas sonoras.
«Palcos para histórias, não só resultados»
A iniciativa está a ser organizada por Sara Amaral, comunicadora de ciência no CNC-UC e CiBB, e por Teresa Girão, diretora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Sara (na fotografia) explica que a Biblioteca Humana responde a uma lacuna: a falta de espaços informais para cientistas partilharem histórias pessoais, cruzando investigação com música, dança ou outras paixões.
«Criamos locais de encontro entre ciência e sociedade», afirma. «Escolhemos investigadores apaixonados que desmontem o estereótipo do cientista distante e inatingível.»

Sara recorda que a primeira edição correu «muito, muito bem». A maior aprendizagem? «Teríamos de repetir!» Para esta edição, escolheram o Jardim Botânico como «espaço de ciência, harmonia e vida». O formato ficou mais intimista, com grupos de até cinco pessoas em duas sessões de meia hora cada, para promover um diálogo genuíno. «Os cientistas contemporâneos aproximam-se dos problemas da sociedade», sublinha Sara, defendendo parcerias com a Coimbra Coolectiva: «Partilhamos valores e somos mais eficazes juntos.» No fim da sessão, haverá ainda um lanche-convívio para celebrar e prolongar a troca de ideias num ambiente descontraído.
Para quem hesita («não percebo nada de ciência»), Sara lança o convite: «Venham ouvir histórias de ciência e de vida. Ninguém precisa saber ciência para se envolver numa boa história — e aqui tem um extra de ciência!»
«Partilhar vulnerabilidades aproxima»
A neurocientista Luísa Amado, que foi «livro humano» em 2024, ressalta: «Identifico-me com a missão de aproximar cientistas do público e contribuir para uma visão mais empática da investigação.» Na sua participação na edição passada da Biblioteca Humana, Luísa partilhou as suas motivações para entrar na ciência e o dia a dia de uma cientista — «O trabalho de investigação pode, muitas vezes, ser ingrato e frustrante – não só cheio de momentos Eureka!, mas mais focado até em formas de resolver os vários problemas que surgem à medida que tentamos responder a questões científicas.»

Luísa explica o que a levou a participar na edição passada da Biblioteca Humana. O formato intimista convida a «zonas de desconforto», mas aproxima: «Apesar de ser cientista, os meus obstáculos são banais e transversais a qualquer profissão.» As conversas transformaram-se em diálogos genuínos, desmistificando o «cientista maluco isolado».
Para Luísa, que frequenta o Programa Doutoral em Biologia Experimental e Biomedicina e desenvolve a sua investigação no CiBB, envolver cientistas na comunicação é vital: «É desafiante, mas as questões frescas do público impressionam — nas minhas respostas, tentei refletir sobre quem sou para além de investigadora e como é que essas várias componentes me tornam melhor cientista. No meu caso, a ilustração surge como importante catalisador da criatividade e curiosidade, uma forma de explorar as fronteiras do concreto e abstrato.»
Histórias que respiram proximidade
As Bibliotecas Humanas são momentos perfeitos para quem acredita no poder das histórias na primeira pessoa. Temos participado nestas iniciativas desde 2023 e 2024 — porque acreditamos nos encontros em que vozes diferentes se cruzam, estereótipos se desfazem e ouvir o outro de perto revela o que nos liga.
Este formato espelha o que defendemos: a escuta ativa que gera empatia e a diversidade reconhecida como fonte de conhecimento. A ideia nasceu da ativista dinamarquesa Ronni Abergel para combater preconceitos, incentivando conversas com quem normalmente não contactaríamos, num espaço seguro para «desjulgar alguém» e fazer perguntas sem medo. Coimbra vive isso no fim da tarde do próximo dia 12 de março, no Jardim Botânico — lugar ideal para descobrir cinco «livros» incríveis.

