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A «nova» Sé Velha tem menos carros e quer ser mais visitada pela cidade

Visitámos e falámos com quem passa os dias no largo histórico, cerca de um mês depois de terminar a obra de requalificação. Apesar do investimento, há pontas soltas, sobretudo no que toca à limpeza e circulação automóvel.

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Fotografia: Mário Canelas

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O centro histórico da Alta da cidade ganhou uma nova vida, com as redes de abastecimento de água, drenagem de águas pluviais e residuais, redes de telecomunicações e elétricas modernizadas, repavimentação integral, colocação de floreiras e a plantação de uma árvore – liriodendron tulipífera – junto ao velho fontenário de ferro fundido, também recuperado e integrado num patamar lajeado, envolvido por uma nova grelha de drenagem. Foi feita uma trama de passadeiras e recuperou-se a ideia de praça, com mobiliário urbano, degraus e muros, além de ter sido recolocada sinalética direcional para fazer face às atuais necessidades, sobretudo de quem visita.

Passou um mês desde que terminou a obra de requalificação do Largo da Sé Velha. Custou cerca de um milhão de euros e, de acordo com o município, baseou-se no binómio autenticidade/funcionalidade. Fez parte de uma intervenção grande em toda a Alta de Coimbra, incluiu a «valorização do percurso Universidade Arco da Almedina, Rua e Largo do Quebra-Costas e requalificação das Escadas e Beco da Carqueja». Começou a 6 de abril de 2022, mas houve suspensões de prazo e prorrogações, por causa da descoberta de vestígios arqueológicos.

Diariamente, vários comerciantes assistem ao vaivém de moradores e turistas, calçada acima e abaixo. António Manuel, proprietário do Café Sé Velha, perto das escadas de acesso à rua do Quebra Costas, diz que encarou o processo de forma positiva e não vê «grandes defeitos» no resultado. Acredita que o turismo sai a ganhar porque a mudança «não é repentina». Já o vizinho, Arsénio Seco Silva, do Café Oásis, admite ter passado dificuldades ao longo do último ano: «Não tínhamos acesso a nada, praticamente era só aqui dentro [do café]. Foram quase dois anos sem esplanadas. Nesta altura fazia falta, no verão».

Rosa Maria, proprietária do RS Café Bar, reclama do mau cheiro. Diz que começou com a obra e «ainda permanece». «Telefonei para a Câmara a queixar-me disso, porque à hora do calor o cheiro sai. É desagradável», confessa a comerciante, que também teve de enfrentar inundações no estabelecimento. «Como vem desde a universidade a água, tive aqui três vezes inundações. Estragaram-se armários, o chão levantou, mas a Câmara não resolveu a situação. Disse que são coisas que acontecem quando se está a fazer uma obra. De resto, não me queixo de ninguém, foram todos simpáticos e fizeram tudo o que era possível. Quando foi das inundações, os trabalhadores nem saíram à hora – ficaram aqui a ajudar a tirar a água». Para Rosa Maria, uma isenção da taxa de esplanada poderia compensar os negócios afetados pela demorada obra.

O historiador Joel Gonçalves Sabino trabalha na catedral e considera que o processo foi lento e criou entraves. Condicionou as entradas na Sé Velha e encheu de pó o monumento, que é um dos principais pontos turísticos da cidade. Contudo, era necessária e veio «dignificar» o Largo e a Sé.

Carros que passam, história que se perde

Quem conhece o Largo da Sé Velha sabe que dezenas de automóveis costumavam fazer parte da fotografia. Muitos desapareceram com a inibição de estacionamento através da colocação de dezenas de pinos, mas os veículos continuam a passar em toda a zona que, por ser medieval, não tem passeios e obriga os peões a fintar as máquinas que passam muitas vezes a grande velocidade. É uma Zona de Acesso Automóvel Condicionado e mantém os sentidos de circulação automóvel existentes antes da intervenção, mas foram alterados os locais onde o estacionamento é permitido. Restaram cinco no largo, um para pessoas com deficiência e quatro (supostamente) para veículos autorizados, como ambulâncias, entre a Rua da Ilha e o Beco da Carqueja.

Pedimos esclarecimentos ao município que explica que respondeu que «o trânsito no Largo da Sé Velha mantém-se em relação ao passado, estando prevista uma intensificação da fiscalização». Sublinha que, de acordo com a sinalização local, a zona da Alta, onde se inclui a Sé Velha, é uma zona de trânsito proibido, exceto a veículos autorizados e cargas e descargas em períodos pré-estabelecidos. Também o estacionamento é proibido em toda a Alta, exceto para os mesmos veículos e em locais autorizados por sinalização local.

«Com a existência de sinalização restritiva de acesso e a inexistência de um sistema de controlo de acessos, tornou-se necessário estabelecer o modo de controlo do acesso à zona dos utilizadores autorizados, nomeadamente. Os cidadãos que moram, mas não têm domicílio principal e permanente no interior da área condicionada, de acordo com o regulamento não têm direito à atribuição cartão de acesso/estacionamento. São permitidas cargas e descargas pelo tempo estritamente necessário, desde que o condutor esteja pronto a retomar a marcha e o faça sempre que estiver a impedir ou a dificultar a passagem de peões ou de outros veículos. De resto, estão autorizados a aceder e estacionar os veículos que tenham autorização expressa da Câmara Municipal conforme regulamentado.»  

A Câmara Municipal de Coimbra submeteu recentemente uma candidatura à linha de financiamento Bairros Comerciais Digitais, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para instalação de um sistema de controlo de acesso automatizado, com base no reconhecimento digital de matrículas. Caso o projeto venha a ser financiado, será possível contar com um sistema de controlo de acessos, que vai permitir, de forma automatizada, limitar fisicamente a entrada a veículos que integrem a base de dados de viaturas autorizadas previamente pela Câmara Municipal (residentes, serviços, cargas e descargas, etc.).

Perguntámos aos rostos que há décadas recebem quem visita a zona histórica e partilham a mesma opinião. «O estacionamento disponível está correto, é pena não ser zero […], à beira de um monumento nacional, não se justificam os carros», diz António Manuel. Arsénio Seco Silva explica que, antes da obra, a circulação automóvel era uma inquietação diária. Ainda assim, «continuam a estacionar, ninguém respeita nada». Em tom de brincadeira, Rosa Maria profere que «o carro não precisa de ir para a cama». Sabino não tem dúvidas: quantos mais carros passam perto da Sé, mais o seu «ambiente medieval fica a perder».

«Podemos ter uma roupa nova, mas se estiver suja retira-lha parte do valor que ela tem»

Joel Sabino considera que o Largo está «um bocado abandonado» e que devia passar outra imagem de forma a atrair mais visitantes. Explica que parte da dificuldade em manter as condições do local histórico se deve ao lixo. Culpa os estudantes, durante as saídas à noite, que frequentemente também utilizam as fachadas dos edifícios históricos e habitados como urinol.

Giorgio Oddi, estudante ERASMUS e morador na zona, concorda. Enquanto nos recebe na República dos Kágados, partilha que durante a tarde vê mais turistas no Largo da Sé Velha e que só à noite chegam os universitários. «Antes havia mais atividade à noite, o que atraía mais estudantes. Se calhar a Sé já tem uma conformação diferente – está-se a tornar cada vez mais turística. Pode ser também por não haver um sítio onde dançar, para passar a noite. Aqui é só bares e cafés», menciona. A proprietária do RS, experiente no que toca a assuntos da noite, afirma que a tendência actual dos estudantes, principais clientes, é frequentar a Praça da República. [Mas], «Coimbra é a Sé Velha, Coimbra não é a Praça. Para mim a Praça é um aditivo». 

Fizemos várias visitas ao largo durante o dia e outros frequentadores garantem que o lixo que invariavelmente transborda de vários caixotes não se deve apenas a desvarios nocturnos. Produzido ou não por estudantes, também faz parte da fotografia. Depois da obra, ficou um total de 29 contentores de 110 litros para resíduos urbanos indiferenciados, mas Sabino propõe um reforço na recolha:

Joel Sabino | Coordenador Histórico Cultural na Sé Velha de Coimbra

De acordo com o município, «atendendo às limitações físicas de toda a encosta da Alta, o que inviabiliza a implementação de soluções de recolha de lixos urbanos presentes em outros pontos da cidade, e por forma a evitar sistemas mais complexos que, na maior parte dos casos, não se adequam às características do edificado e da topografia ou interferem em demasia com o património arqueológico do subsolo, foi instalada uma rede de caixotes de recolha de lixo convencionais, posicionados em suportes metálicos fixos, que se têm afirmado como a melhor solução técnica e económica para o local».

Mais eventos

Se carros deixaram de fazer parte da paisagem, os pinos fazem agora parte dela. A delimitação da via de passagem de automóveis que impossibilita o estacionamento é alvo de críticas. Arsénio Seco Silva considera que a colocação de bancos seria mais adequada. Rodrigo Silveirinho, do Cabido Bar, diz que com os pinos «foi espaço que se perdeu» e Rosa Maria acrescenta que o piso é escorregadio. «As pessoas caem e batem com a cabeça nos pinos. Já no outro dia tivemos de chamar uma ambulância porque aconteceu mesmo aqui [em frente ao RS]».

Os comerciantes vão mais além. Reclamam maior dinamização cultural. «Podiam agora fazer, por exemplo, eventos para tentar reabilitar a zona», atira Rodrigo. «É tudo na Baixa e não pode ser. Há muita coisa que se podia fazer na Sé e não se faz, ninguém se lembra de nós», lamenta a Rosa Maria, acrescentando que o espaço, como atesta o facto de ter sido, ao longo de anos, o palco da tradicional Serenata Monumental, tem «uma ressonância fora de série». Até sugere que a solução passe por dar oportunidade a artistas de rua que «não são tratados com muito carinho pelas pessoas».

Uma iniciativa já é certa: a Idade Média vai voltar a dar ritmo ao Largo da Sé Velha com o regresso da Feira Medieval de Coimbra. Nos dias 21, 22 e 23 deste mês há encenações, um banquete e uma ceia fiéis à época, entre outras atividades de fazer viajar no tempo. E os comerciantes garantem que vão fazer de tudo para acompanhar a tradição e acolher os visitantes, segundo Rosa Maria, «na Sé Velha que tanto amam».

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