Na mais recente edição da Geração Coolectiva, em janeiro, quase duas centenas de cidadãos trabalharam soluções para desafios do município de Coimbra e várias tinham como principal beneficiária a população sénior, sobretudo a promoção do envelhecimento ativo e saudável. Fomos perceber qual é a realidade local nesta matéria e João Malva, investigador coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (UC), disse-nos que os idosos deixaram de ser uma minoria sem voz e passaram a engrossar as fileiras do ativismo cidadão. Ganharam visibilidade. «Se a figura típica do avô e da avó, há 30 anos, era o de uma pessoa já debilitada, sem autonomia na sociedade, agora já não. Podemos começar a pensar que daqui a 10, 20 anos vai haver ainda mais gente que aos 80 anos faz a vida independente como fazia aos 50», afirma o também coordenador científico do Ageing@Coimbra, um consórcio de valorização do papel do idoso na sociedade e aplicação de boas práticas em prol do seu bem-estar geral.
De acordo com os Censos de 2021, dos quase 141 mil habitantes de Coimbra, 35.534 têm mais de 64 anos, o que corresponde a 25,2% do total da população residente. Em dez anos, de 2011 a 2021, o índice de envelhecimento do município saltou de 161,4 para 215,1. Ou seja, para cada 100 jovens há mais de o dobro de cidadãos idosos, de acordo com a plataforma de estatísticas Pordata. Um índice que fica acima da média nacional de 182 e que não tem sido descurado.

Envelhecimento saudável não deve ser entendido apenas como um marcador temporal. Segundo Malva, «é uma circunstância holística» por se tratar de uma boa relação entre mente e corpo e o que está à sua volta. «É levarmos a vida, ao longo de toda a vida, com a melhor qualidade que podemos. Tem muito a ver com o modo como nos percepcionamos a nós próprios, ou seja, com o bem-estar psicológico. Estar bem consigo próprio. Tem a ver com a boa relação com o mundo que nos rodeia, quer com o ambiente físico – portanto, a natureza, os espaços construídos -, quer com as ações sociais, porque somos seres sociais», aponta, e sublinha que «envelhecer bem é uma circunstância de toda vida, porque o processo de envelhecimento não tem uma data de inauguração». «Começamos a envelhecer ao nascer e vamos sempre envelhecendo ao longo dos anos, que é o ritmo natural da vida.»
Malva entende que a imagem deturpada das pessoas idosas foi criada por um paradigma social assente na questão da economia: perceber as pessoas velhas como dispensáveis por já não serem produtivas e não gerarem riqueza. «Portanto, já um bocadinho um cidadão de segunda. Mas isso está a mudar pelas circunstâncias: as pessoas têm uma nova perspetiva. E, também, pelo facto de haver mais e mais pessoas mais velhas como nunca houve antes. Hoje são muitos e votam».

De acordo com Malva, uma das mudanças que está a ajudar a transformar a visão que se tem da velhice é que a sociedade cada vez mais está a escolher outros valores. Há três ou quatro décadas, as pessoas queriam ganhar muito dinheiro, ter automóvel particular, casa e poder económico. «Os jovens, que serão os futuros idosos, já valorizam outras coisas. Portanto, há mais e mais valor a coisas imateriais. Mais saber aproveitar melhor a vida. Aquelas coisas que não estão tão ligadas ao mercado como dantes». Uma prova desta nova perspetiva é o crescimento do quiet ambition, conceito corporativo que se refere às pessoas empregas que preferem planear uma carreira sem ambicionar cargos de liderança ou gestão, optando por manter um equilíbrio entre vida pessoal e profissional e com tempo para si.
De acordo com o idealizador do Ageing@Coimbra, um fruto das mudanças é a valorização do papel das pessoas idosas. «Não é pelo fato de a pessoa se reformar que no dia seguinte ela deixa de ser útil. Não, simplesmente a pessoa pode passar a ser empresário do seu tempo. Portanto, as pessoas reformadas passaram a gerir o seu tempo, gerir os seus afetos, partilhar o seu conhecimento, e [sentir] que pode e deve devolver à sociedade».
Novas oportunidades
Margarida Fernandes reformou-se da profissão de enfermeira pediátrica em 2009. Desde que passou a ser a gestora do seu tempo já fez um curso de Medicina Energética, formação em Macrobiótica, ajudou uma amiga na cozinha de um restaurante macrobiótico, entre outras coisas. Pratica musculação e pilates quatro a cinco vezes por semana. Desde o ano passado, está às voltas com as obras de recuperação e renovação de uma moradia que os filhos, que vivem na Suíça, compraram como investimento. Mas Margarida não supervisiona apenas os trabalhos, também pega em lixas e pincéis, enxadas e outras ferramentas. Quer construir uma jardim japonês e não pára quieta, como Clara Moura e José Vieira Lourenço.

Quem acredita no espírito empreendedor dos idosos é o Instituto Pedro Nunes (IPN). Já há algum tempo que oferece cursos de empreendedorismo para esse público. «Não olhamos à data de nascimento, mas à capacidade de criar e implementar novos negócios», diz Jorge Pimenta, o diretor de inovação da instituição privada sem fins lucrativos criada pela UC, que visa promover a inovação e a transferência de tecnologia, estabelecendo a ligação entre o meio científico e tecnológico e o tecido produtivo.
Este ano, o IPN está a trabalhar nas frentes da investigação aplicada e apoio ao empreendedorismo. «A inovação tem vários processos e muitos deles passam por entender profundamente as necessidades dos utilizadores. Em concreto, existem oportunidades que os empreendedores mais séniores podem melhorar com a sua experiência, idealizando novos produtos ou serviços para um envelhecimento mais ativo e saudável».

Alguns dos projetos na área de inovação estão relacionados com a melhoria dos cuidados de saúde, em particular os cuidados ao longo da vida. Para isso, o IPN mantém uma parceria com o MIA Portugal, projeto da Universidade de Coimbra que pretende posicionar-se como centro de referência em estudos multidisciplinares do envelhecimento no Sul da Europa e, segundo Pimenta, considerado um parceiro fundamental na construção de ligações entre cuidados de saúde, serviços sociais e desenvolvimento empresarial. Na área de apoio ao empreendedorismo, têm o programa de capacitação Ineo Start, que decorreu em abril, e o ATTRACT DIH (Digital Innovation Hub para Inteligência Artifical), previsto para junho. São ambos gratuitos e abertos a todos.
Empreendedorismo sénior é a área de investigação de Isabel Almeida Gomes, tema de tese de doutoramento. Fez parte da equipa que ministrou o Cinco Ponto Zero, programa de capacitação para o empreendedorismo para pessoas a partir dos 50 anos e defende que, por serem mais maduras emocionalmente, as pessoas mais velhas têm uma alargada experiência profissional e de vida que os leva a serem mais atentas aos detalhes, cautelosas e com uma forte preocupação em fazer as coisas bem feitas que, consequentemente, faz com que sejam bem-sucedidas.
Um estudo feito por investigadores da Kellogg School of Management, que é uma escola de negócios da Universidade Northwestern em Evanston, nos Estados Unidos, aponta para o facto de, ao contrário do que se possa pensar, os melhores empreendedores tendem a ser de meia-idade. Entre as novas empresas de tecnologia de crescimento mais rápido analisadas, o fundador médio tinha 45 anos quando começou o seu negócio e um empreendedor de 50 anos de idade tem quase o dobro da probabilidades de ser bem sucedido do que um de 30 anos.
Construir um novo negócio pode ser um enorme fator motivacional para uma velhice saudável e ativa, mas há um que é infinitamente mais amplo e mais profundo: o ikigai, como ressaltou Anabela Mota Pinto, coordenadora do tema/curso Aging (Envelhecimento) do Programa de Doutoramento em Ciências da Saúde, da Faculdade de Medicina da UC. Ikigai, palavra japonesa, significa ter um objetivo de vida, uma razão para viver, e é um dos nove fatores preponderantes nas chamadas Zonas Azuis, as cinco regiões no mundo onde a incidência de doenças crónicas é mais baixa e a esperança média de vida mais elevada.
Na rubrica «Minutos Com Saúde» da Faculdade de Medicina da UC (em cima), a professora explica como se pode envelhecer de forma saudável.
Ikigai é o que não falta a Paulo Trindade. Ainda não se reformou, mas passou a marca dos 60 e está a fazer exatamente o que o professor Malva disse sobre envelhecer bem: um processo holístico de estar bem consigo mesmo e com o mundo em redor. Aos 50 anos, percebeu que era importante começar a preparar-se para uma velhice ativa e saudável, por isso passou a correr mais e a pedalar e nadar todos os dias – só descansa ao domingo – com o objetivo de participar de triatlos. Já participou em vários e ainda dedicatempo a ser guia de corrida de pessoas cegas, no projeto Sexto Sentido.

As pessoas entrevistadas foram uníssonas quando perguntámos se Coimbra é uma cidade boa para se envelhecer. Pela dimensão, que permite fazer tudo a pé, pelas fortes relações sociais e sentido de comunidade. O poder público também faz a sua parte. Em 2022, a Câmara Municipal de Coimbra instaurou a Comissão de Proteção ao Idoso, além de ter um Gabinete de Gerontologia e Envelhecimento Ativo que realiza ações e atividades físicas (pelo menos) no Dia Internacional do Idoso, a 1 de outubro. Há ainda uma publicação que lista mais de cem boas práticas de envelhecimento ativo e saudável em toda Região Centro.
O ativismo cidadão, a presença de dois centros de referência em envelhecimento, investigação em distintas áreas científicas e instituições que apostam no espírito empreendedor das pessoas fazem com que aquela placa de trânsito com um casal velhinho encurvado e com bengala perca totalmente o sentido. Afinal, envelhecer, pode ser viver em crescendo.
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